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Tenente-coronel desbloqueou celular de Gisele e apagou mensagens minutos após ela ser baleada

Tenente-coronel desbloqueou celular de Gisele e apagou mensagens minutos após ela ser baleada

Redação Jornal de Brasília

27/03/2026 14h16

Foto: Reprodução/Redes Sociais

Foto: Reprodução/Redes Sociais

*Alerta: o texto abaixo aborda temas sensíveis como violência contra a mulher, violência doméstica e estupro. Se você se identifica ou conhece alguém que está passando por esse tipo de problema, ligue 180 e denuncie.

A Polícia Civil de São Paulo analisou o celular da soldado Gisele Alves, morta no dia 18 de fevereiro dentro do apartamento onde morava com o marido, o tenente-coronel Geraldo Neto.

Segundo relatório, o aparelho foi desbloqueado minutos após ela ser baleada na cabeça. Geraldo e Gisele eram as duas únicas pessoas que estavam no apartamento no dia.

As mensagens que ela tinha enviado a Geraldo na noite anterior foram apagadas. A investigação aponta que o tenente-coronel tentou ocultar as provas que demonstravam que Gisele não era contra ao divórcio, ela também desejava a separação.

Veja abaixo as mensagens recuperadas pela polícia:

Gisele, 17/02, às 22h47: Mas já que decidiu separar

Gisele, 17/02, às 22h48: Agora podemos tratar de como vou sair

Gisele, 17/02, às 22h59: Você confundiu carinho com autoridade, amor com obediência, provisão com submissão

Gisele, 17/02, às 23h00: Você se arrependeu do casamento, eu também, e tem todo direito de pedir o divórcio. não quero nada seu. como te disse, eu me viro para sair, tenho minha dignidade.

Gisele, 17/02, às 23h00: Pode entrar com o pedido essa semana

Humilhação e perseguição

Ainda de acordo com o relatório, no dia 13 de fevereiro os pais de Gisele foram até o apartamento para buscá-la, mas ele pediu que ela ficasse. Ela questionou sobre o comportamento dele: “Não entendo, você pede para eu não ir embora, porém, eu fico e você continua igual, até pior com seu tratamento, falando coisas para me humilhar”.

Semanas antes, o tenente havia mandado mensagens a mulher criticando as roupas que ela usava. “Sumiu no horário de almoço pra variar. Foi trabalhar de macacão colado”.

“Absurdo você ir com essa calça jeans colada no batalhão. Já não basta você ir com essas roupas coladas no QG, dai você vai no meu batalhão com roupa colada para chamar atenção. Não gostei”.

Nesta quinta, 26, a segurança pública informou que a Corregedoria da Polícia Militar abriu um processo de expulsão do tenente-coronel. Atualmente, ele está detido no Presídio Militar Romão Gomes pelos crimes de feminicídio e fraude processual.

Se a expulsão for confirmada e Geraldo Neto deixar a corporação, ele perderá de forma definitiva o salário bruto de aproximadamente R$ 29 mil que ele recebe como tenente-coronel da Polícia Militar de São Paulo.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública explicou que Neto continua preso de forma preventiva por decisão judicial e que o Inquérito Policial Militar (IPM) aberto para apurar o caso está em fase final. “Assim que for concluído e remetido ao Judiciário, o Comando-Geral avaliará os autos para a instauração de Conselho de Justificação”.

O Conselho de Justificação é o procedimento administrativo independente da esfera penal e que pode resultar na perda do posto e da patente, com o desligamento do oficial dos quadros da Policia Militar.

“A Polícia Militar reafirma seu compromisso com a legalidade, a disciplina e a preservação dos valores que regem a atividade policial militar”, acrescentou a SSP-SP.

Entenda o caso

Gisele morreu com um tiro na cabeça na manhã do dia 18 de fevereiro, no apartamento em que ela vivia com o marido, o tenente-coronel Geraldo Neto. Só o casal estava em casa.

Geraldo Neto contou à polícia que a mulher se suicidou depois que ele manifestou a ela o desejo do divórcio.

O caso foi inicialmente registrado como suicídio, mas foi modificado para morte suspeita após a família da vítima relatar que ela vivia uma relação abusiva, com excesso de controle e ciúmes por parte de Geraldo Neto.

A polícia afirma que versão do tenente-coronel não se sustenta e que Gisele foi assassinada pelo marido, ou seja, foi vítima de feminicídio. A conclusão foi feita com base em uma série de indícios técnicos que a perícia encontrou durante a apuração do caso.

Entre as evidências estão marcas de unha na região do pescoço e do rosto de Gisele; manchas de sangue dela no banheiro, na bermuda e na toalha de Geraldo Neto; a maneira como a arma foi encontrada na mão da vítima e o modo como o corpo da policial estava disposto no chão, indicando uma provável manipulação da cena do crime.

Outro importante elemento explorado pelos investigadores foi a relação do casal. A Polícia Civil extraiu as mensagens trocadas por Geraldo Neto e Gisele, e o que eles encontraram foi o retrato de um casal que vivia com constantes brigas, instabilidade, mas também o de uma mulher submetida a um casamento de muito controle, submissão e ciúmes.

Para a polícia, esses diálogos desmentiram a versão do tenente-coronel de que ele desejava o divórcio. O interesse pela separação, na verdade, partia de Gisele e era Geraldo quem impunha uma resistência a esse término.

A corregedoria da Polícia Militar também abriu uma investigação e tanto a Justiça Militar como a Justiça Comum decretaram a prisão do tenente-coronel. Geraldo Neto foi detido no dia 18 de março e aguarda julgamento.

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