LUIZ ANTÔNIO ARAUJO
FOLHAPRESS
O Sul do Brasil constitui, juntamente com o Paraguai, o nordeste da Argentina e o Uruguai, a segunda região do mundo mais propensa à ocorrência de tornados, segundo especialistas. Em primeiro lugar, está o Meio-Oeste dos Estados Unidos, que concentra cerca de 80% dessas formações observadas no planeta.
Um tornado atingiu o município gaúcho de Pedro Osório, no fim da tarde desta quinta-feira (6). Durante a noite, rajadas de vento e temporal que atingiram Porto Alegre provocaram destelhamento de imóveis e assustaram a população da capital gaúcha.
Tornados são colunas giratórias de ar que se estendem das nuvens até o solo durante tempestades severas. Caracterizam-se pela alta velocidade dos ventos e pela curta duração (até 30 minutos), com alto potencial destrutivo.
Também foi registrado um tornado nos municípios gaúchos de Giruá, Sete de Setembro e Senador Salgado Filho no dia 28 de julho. Sua ocorrência, no entanto, espalha-se por todo o território brasileiro.
A Prevots (Plataforma de Registros e Rede Voluntária de Observadores de Tempestades Severas), rede independente de pesquisadores brasileiros, argentinos e norte-americanos, estima que o Brasil tenha presenciado este ano um total de 81 tornados e outros fenômenos similares (landspouts e trombas dágua, menos intensos).
Landspouts, assim como trombas dágua, são colunas giratórias de ar menos intensas e destrutivas que tornados. O levantamento não inclui o episódio do dia 6. Em 2025, segundo a Prevots, foram 92 registros.
“Desde 2020, o número de tornados aumenta a cada ano no Brasil. Há uma tendência de aumento na severidade das tempestades, e com isso vem tornado e granizo”, afirma Rachel Albrecht, chefe do Departamento de Ciências Atmosféricas da USP (Universidade de São Paulo).
Além de tornados, tempestades severas estão associadas a chuvas fortes, descargas elétricas, rajadas de vento e precipitação de granizo. Em nenhum dos casos, porém, há um efeito automático.
Tornados costumam ocorrer durante tempestades do tipo supercélulas (caracterizadas por correntes de ar que giram no interior de nuvens cumulonimbus) e linhas de instabilidade do tipo arco (nas quais uma porção se desloca mais rapidamente do que as extremidades).
O fator determinante para sua formação é o chamado cisalhamento do vento, ou a diferença de velocidade do ar que circula em diferentes níveis de altitude.
Nos chamados corredores de tempestades severas, como o Meio-Oeste americano e as médias latitudes da América do Sul, esse processo resulta do choque de massas de ar quente (provenientes do mar do Caribe no primeiro caso e da amazônia no segundo) e frio (originárias do Canadá e da Antártida, respectivamente).
Nas duas regiões, a existência de grandes cadeias montanhosas (as rochosas nos Estados Unidos e os Andes na América do Sul) funciona como uma espécie de canal que acelera a confluência dessas correntes.
“Assim como a água que passa por um funil ganha velocidade, os ventos alísios originários da amazônia, que são quentes e úmidos, aceleram-se ao encontrar a Cordilheira dos Andes. É isso que configura os chamados rios voadores, que levam a umidade da região amazônica para o Sul”, explica o professor Leonardo Calvetti, da Faculdade de Meteorologia da UFPel (Universidade Federal de Pelotas).
Enquanto nos Estados Unidos as correntes de ar úmido vindas do leste confrontam-se com o ar seco do deserto em Estados como Texas, Oklahoma e Kansas, na América do Sul a diferença de umidade entre a amazônia e o pampa é menor, e o choque, menos agudo.
Essa seria a explicação para o fato de os tornados serem menos frequentes no subcontinente do que no Meio-Oeste americano.
“Nosso ambiente na América do Sul não é seco em cima e úmido embaixo, e sim todo úmido. Isso deixa o clima instável, mas não tanto como nos Estados Unidos. O mais comum, no caso sul-americano, é uma atmosfera toda úmida, desde a superfície até uma altura de três quilômetros”, diz Ernani Nascimento, pesquisador do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), em Cachoeira Paulista (SP).
REGISTROS ERAM RAROS ATÉ INÍCIO DOS ANOS 2000
Com doutorado em meteorologia pela Universidade de Oklahoma, nos Estados Unidos, Nascimento afirma que pesquisas sobre tornados eram relativamente raras no Brasil até o início dos anos 2000, mas desde então ganharam impulso a partir de uma nova geração de especialistas.
“Até cerca de 30 anos, havia trabalhos isolados, como os da professora Maria Assunção Faus da Silva Dias, da USP, uma das pioneiras na documentação de tornados no Brasil”, afirma Nascimento.
O primeiro registro fotográfico de um tornado no Brasil foi produzido em 1975 pela Base Aérea de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. A imagem mostra uma coluna em forma de funil durante uma tempestade na região.
O avanço no conhecimento sobre o fenômeno permite incrementar o monitoramento de eventos e desenvolver políticas públicas capazes de evitar ou reduzir danos humanos e materiais, conforme os pesquisadores.
O El Niño (fenômeno pelo qual a temperatura da água do Oceano Pacífico se eleva, provocando instabilidade no sul do Brasil, e que deve ocorrer pelo menos até o final deste ano), nas palavras de Rachel Albrecht, “coloca mais combustível na atmosfera”.
“Estamos assistindo a um aumento do número de tempestades severas. Se isso é consequência do El Niño, só saberemos mais para a frente, mas é provável que sim. Os anos de El Niño são mais ou menos um prenúncio de como será a mudança climática”.
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Pesquisadores estimam que o Brasil tenha presenciado este ano um total de 81 tornados e outros fenômenos similares
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