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Brasil

Sócio de academia diz ter apagado mensagens a manobrista por ‘desespero’

Empresários da C4 Gym foram indiciados por homicídio com dolo eventual; polícia apura se reação química liberou gases que causaram intoxicação

Redação Jornal de Brasília

12/02/2026 12h32

Foto: Reprodução/TV Globo

Foto: Reprodução/TV Globo

UOL/FOLHAPRESS

Um dos sócios indiciados pela morte de uma mulher na academia C4 Gym disse ter apagado “por desespero” as mensagens em que orientava o manobrista sobre a limpeza da piscina.

Celso Bertolo Cruz falou ter ficado desesperado ao saber da morte da aluna Juliana Faustino Bassetto, 27. Em depoimento à polícia, ele admitiu ter apagado “sem pensar” os recados enviados à Severino José da Silva, um manobrista que era responsável por limpar a piscina, mesmo sem ser piscinista.

Severino entregou na terça-feira seu celular à polícia e mostrou que as mensagens haviam sido deletadas. Durante esclarecimentos, ele afirmou que, por ordem dos donos da academia, realizava serviços de limpeza e manutenção. “Só sigo ordens”, acrescentou.

O sócio argumentou que as mensagens apagadas eram apenas “tratativas normais” com Severino. Segundo ele, o conteúdo da conversa seria a respeito de medições e dosagens de cloro que deveriam ser aplicadas da água.

O homem também alega “com absoluta certeza” que o funcionário errou ao manusear o cloro em pó. Aos policiais, outro sócio, Cesar Bertolo Cruz, também classificou a atitude de Severino como “totalmente em desacordo” com os procedimentos padrões.

Celso, Cesar e Cezar Miquelof foram indiciados por homicídio com dolo eventual, conforme apurou o UOL. O dolo eventual ocorre quando o investigado não deseja diretamente o resultado morte, mas assume o risco de produzi-lo ao adotar determinada conduta.

Defesa dos empresários enviou uma petição à Justiça “com esclarecimentos para que o pedido de prisão temporária não prospere”. Em nota, uma representante da academia informou que o documento foi encaminhado pelos advogados do estabelecimento ao juiz de Direito da 2ª Vara do Tribunal do Júri da Comarca de São Paulo.

Apesar do indiciamento, nenhum dos sócios foi preso ainda. A Polícia Civil pediu a prisão deles ao judiciário, responsável por apreciar a solicitação.

Sócios foram pegos de surpresa com o pedido de prisão temporária, segundo seus advogados. Na petição enviada à Justiça, Rafael Serra Oliveira e Julia de Moraes argumentam que a detenção requerida pela Polícia Civil foi baseada na informação “inverídica” de que os empresários não teriam constituído advogado e que não teriam comparecido para prestar depoimento.

Donos da academia compareceram hoje para depor no 42° DP, no Parque São Lucas, zona leste da capital. Os sócios foram intimados ontem pelo delegado do caso, Alexandre Bento, e prestaram seus depoimentos por volta das 17h, segundo informado pela assessoria da academia.

FUNCIONÁRIO AFIRMOU NÃO TER HABILITAÇÃO DE PISCINEIRO

Severino também afirmou à polícia que não tem formação para manusear produtos químicos e que o dono da academia sabia. Ele revelou que assumiu a função da limpeza da piscina após o antigo manobrista sair da empresa. O antigo funcionário repassou as instruções de que o procedimento consistia em medir os níveis da água e do cloro, fotografar o resultado e enviar a imagem diretamente ao dono da academia, que orientava quais produtos deveriam ser utilizados e em qual quantidade.

Há um ano, a água da piscina ficou bastante suja, com formação de espuma, relembrou o manobrista. Na época, ele disse que o dono da academia contratou um técnico que trabalhou por aproximadamente uma semana até estabilizar a água. Segundo o funcionário, esse profissional ofereceu seus serviços de manutenção permanente, mas o sócio optou por não contratá-lo.

No último sábado (7), o funcionário contou que preparou de seis a oito medidas de cloro para limpar piscina. Ele detalhou que realizou o teste e enviou a foto para o dono da academia, recebendo como orientação que fossem aplicadas as medidas do cloro. Apesar disso, ele revelou que não chegou a aplicar o produto, apenas preparou a solução.

Balde com água e cloro foi colocado a cerca de dois metros da borda da piscina. Sete alunos ainda nadavam na piscina, quando o homem é visto em câmeras de segurança deixando o recipiente no local.

Procurada mais cedo, a direção da academia afirmou que “segue colaborando integralmente com as autoridades competentes. Em nota, a diretoria divulgou que seus sócios “sempre estiveram à disposição da autoridade policial” e que seguem “contribuindo com todas as etapas da investigação em andamento”. Leia mais do posicionamento abaixo.

REAÇÃO QUIMICA PODE TER CAUSADO INTOXICAÇÃO

Em poucos minutos, a polícia acredita que uma reação química tenha liberado gases e causado a intoxicação nas vítimas. “Ele esperava acabar a aula para jogar o produto na água que estava bastante turva, em razão do uso da piscina. Mas começaram a exalar os gases e as pessoas foram asfixiadas”, afirmou ontem o delegado responsável pela investigação, Alexandre Bento.

Manobrista disse ter percebido que havia movimentação incomum na academia, com uma mulher sendo socorrida pelo marido. Ele esclareceu que voltou à área da piscina com um pano no rosto, para cobrir a boca e o nariz, e retirou o balde do local.

O homem disse que a marca do cloro foi trocada em fevereiro. Até janeiro, os proprietários compravam outro modelo. Ele declarou também que nunca recebeu equipamentos de proteção individual para manuseio de produtos químicos.

Investigadores já conseguiram acessar o celular dele. Ele forneceu a senha do aparelho para que as mensagens fossem acessadas, de forma a colaborar mais rapidamente com a investigação.

ENTENDA O CASO

A Polícia Civil investiga se a morte da mulher foi causada pela exposição a gases dentro do ambiente da piscina. A professora Juliana, 27, tinha problemas respiratórios e iniciou aulas de natação no local para tentar melhorar seus sintomas, segundo o delegado do caso.

Juliana morreu na noite de sábado (7). Ela e o marido participavam de uma aula de natação e passaram mal logo depois de entrarem em contato com a água. O casal foi até o Hospital Santa Helena, em Santo André, mas a professora sofreu uma parada cardíaca e não resistiu. A polícia apura se houve intoxicação por algum produto usado para limpar a piscina.

O marido da professora, Vinicius de Oliveira, continua internado. Ele está em estado grave na UTI.
A academia não tinha alvará para funcionar, segundo a Polícia Civil. A instalação elétrica da piscina estava ligada à cozinha da academia e os produtos para limpeza da piscina também estavam em local inadequado, segundo os investigadores.

O QUE DIZ A ACADEMIA

Em nota enviada ontem, a direção da Academia C4 Gym lamentou “profundamente” o ocorrido após a morte da professora. Também informou que prestou “imediato atendimento a todos os envolvidos” e que tem mantido contato direto com as pessoas envolvidas a fim de oferecer todo o suporte.

“Assim que os alunos relataram odor forte na área da piscina, toda a academia foi evacuada e o SAMU e o Corpo de Bombeiros foram acionados. Devido à demora do SAMU, um dos atendentes da academia solicitou auxílio a uma viatura da GCM, que se dispôs a socorrer Juliana. Os policiais informaram que poderiam levá-la apenas ao hospital mais próximo, na Vila Alpina, mas os acompanhantes optaram por levá-la a uma unidade de seu plano de saúde, em Santo André”, disse a C4 Gym, em nota.

Academia afirmou ainda que possui Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros, está regular junto ao CREF (Conselho Regional de Educação Física) e mantém alvará da Vigilância Sanitária válido desde 2023. “O advogado da academia, inclusive, esteve presente e solicitou acompanhar a vistoria do Corpo de Bombeiros e da Polícia Civil, mas o pedido não foi autorizado”, divulgou na mesma nota.

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