Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, a data convida não apenas à celebração de conquistas, mas também à reflexão sobre as muitas formas de existir como mulher. Durante décadas, a sociedade construiu um roteiro bastante claro para a vida feminina. Crescer, estudar, casar e ter filhos parecia ser uma sequência natural, quase inevitável. No entanto, cada vez mais mulheres têm questionado essa narrativa e reivindicado algo essencial: o direito de escolher o próprio caminho.
Entre essas escolhas está a decisão de não ter filhos. Para muitas mulheres, essa não é uma ausência ou uma renúncia, mas uma decisão consciente sobre o tipo de vida que desejam construir. A maternidade continua sendo uma experiência profundamente significativa para muitas, mas deixou de ser entendida como um destino obrigatório. Em um momento histórico marcado por debates sobre autonomia, identidade e liberdade, falar sobre mulheres que optam por não maternar também é falar sobre emancipação.
Para a administradora Juliana Souza, de 33 anos, essa percepção foi sendo construída ao longo do tempo. “Durante muito tempo eu ouvi que uma hora o instinto materno iria aparecer, como se fosse algo inevitável. Mas, com o passar dos anos, percebi que o que realmente faz sentido para mim é construir outras formas de realização, seja na carreira, nas amizades ou nos projetos pessoais”, conta ao Jornal de Brasília.
Ela também destaca que a decisão costuma ser mal interpretada por muitas pessoas. “Não querer ser mãe não significa não gostar de crianças ou ser egoísta. Significa apenas reconhecer que a maternidade é uma escolha grande demais para ser feita por pressão social”, afirma.

Os números mostram uma mudança real
Os dados mostram que essa transformação não acontece apenas no campo simbólico. O Brasil vive uma mudança demográfica significativa. Segundo o Censo de 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o país registrou a menor taxa de fecundidade de sua história: 1,6 filho por mulher. O índice está abaixo do nível de reposição populacional, estimado em 2,1 filhos por mulher, patamar considerado necessário para que a população se mantenha estável ao longo das gerações.
A queda na taxa de natalidade acompanha um movimento que se intensifica há décadas. Em 1960, a média era de 6,3 filhos por mulher. Nos anos 1980 caiu para 4,4, no início dos anos 2000 chegou a 2,4 e agora atinge o menor patamar já registrado. As mudanças refletem transformações profundas na sociedade brasileira, que incluem o aumento da escolaridade feminina, maior participação das mulheres no mercado de trabalho e novos projetos de vida que não necessariamente passam pela maternidade.
Além da redução no número de filhos, cresce também a proporção de mulheres que chegam ao fim da vida reprodutiva sem filhos. Em 2000, cerca de 10% das brasileiras entre 50 e 59 anos não tinham filhos. Em 2022, esse percentual subiu para 16,1%. Para especialistas, o dado revela que a decisão de não ter filhos, antes tratada como exceção, começa a ocupar um espaço mais visível dentro das possibilidades de vida das mulheres.
Para Daniela Ribeiro, de 47 anos, essa escolha foi resultado de um processo de autoconhecimento e amadurecimento ao longo da vida. “Em determinado momento eu entendi que não precisava seguir o roteiro tradicional para ser uma mulher completa. Construí uma trajetória profissional sólida, viajei, investi em mim e nas minhas relações. Isso também é uma forma de plenitude”, relata.
Ela conta que, mesmo hoje, a decisão ainda desperta curiosidade ou estranhamento em algumas pessoas. “Muitas ainda olham com surpresa quando uma mulher diz que não quis ter filhos. Mas a verdade é que cada mulher conhece seus próprios desejos e limites, e isso precisa ser respeitado”, afirma.

A maternidade como construção social
Mesmo com essas mudanças, a ideia de que a maternidade é uma etapa natural e obrigatória da vida feminina ainda permanece forte em muitos contextos sociais. Em entrevista ao Jornal de Brasília, a psicóloga e professora de Psicologia do Centro Universitário de Brasília, Ludymila Santana, essa expectativa tem raízes históricas profundas que atravessam séculos de construção cultural sobre o papel da mulher.
“A maternidade continua sendo socialmente tratada como um destino esperado, quase como uma etapa natural e obrigatória da vida feminina. Durante séculos, a identidade da mulher foi estruturada em torno da função reprodutiva e do cuidado”, explica.
Segundo a especialista, a própria construção da feminilidade foi moldada por papéis de gênero bastante rígidos, nos quais a mulher era reconhecida prioritariamente como mãe, esposa e responsável pelo espaço doméstico. Esse modelo foi reforçado por discursos religiosos, culturais e até científicos que naturalizaram a associação entre ser mulher e ser mãe.
Na psicologia, no entanto, identidade não é algo exclusivamente biológico. Ela também é construída socialmente. Desde a infância, meninas são incentivadas a brincar de cuidar, de maternar e de assumir responsabilidades afetivas, o que contribui para que muitas internalizem a ideia de que a realização feminina estaria necessariamente ligada à maternidade.
“Hoje observamos uma transição importante. Cada vez mais mulheres reivindicam o direito de escolher se querem ou não ser mães. A maternidade deve ser uma possibilidade, não uma imposição”, afirma Ludymila Santana.

Autonomia, pressão e novas formas de viver
Essa mudança de mentalidade, no entanto, ainda convive com julgamentos e cobranças. Mulheres que afirmam não querer filhos frequentemente enfrentam comentários que colocam sua decisão em dúvida ou a interpretam como egoísmo. Para a psicóloga, esse tipo de reação revela o quanto a sociedade ainda associa a identidade feminina à experiência da maternidade.
“Quando uma mulher diz que não quer ter filhos, é como se estivesse saindo de um lugar que historicamente foi definido como parte da identidade feminina. Por isso muitas vezes ela é vista como egoísta ou incompleta”, explica.
Outro fator que costuma intensificar essa pressão é a idade. A cobrança social costuma aumentar principalmente após os 30 anos, momento em que muitas mulheres passam a ouvir questionamentos sobre casamento, família e maternidade. A especialista explica que essa expectativa tem relação com modelos sociais herdados de outras gerações.
“Essa referência ainda permanece no imaginário social e acaba se tornando cruel para mulheres que vivem outras realidades e têm outros projetos de vida. Depois dos 40 anos, a pressão pode se intensificar ainda mais com discursos ligados ao tempo biológico e à ideia de última chance”, afirma.
Mesmo quando a decisão de não ter filhos é consciente, algumas mulheres relatam sentir culpa ou dúvida ao longo da vida. No entanto, segundo Ludymila Santana, esses sentimentos muitas vezes não nascem da escolha em si, mas da pressão social que acompanha o tema.
“A culpa costuma surgir do confronto entre a escolha pessoal e a norma social. A sociedade ainda coloca a maternidade como um lugar esperado da mulher, e essa expectativa constante pode gerar questionamentos, mesmo quando a decisão já foi bem elaborada”, explica.
A empresária Sônia*, de 53 anos, diz que sempre teve clareza sobre o caminho que desejava seguir. “Eu sempre tive muito claro que queria viver outras experiências. Dediquei tempo à minha profissão, aos amigos, à família e a mim mesma. Nunca senti que a maternidade fosse parte do meu caminho”, conta.
Para ela, o debate sobre o tema ainda esbarra em expectativas sociais antigas. “A sociedade ainda tenta convencer as mulheres de que existe apenas um modelo de felicidade. Mas a felicidade também pode estar na liberdade de escolher uma vida diferente”, afirma.
No Dia Internacional da Mulher, falar sobre essa escolha é também reconhecer que a experiência feminina não é única nem padronizada. Ser mulher não precisa significar seguir um único roteiro. Para algumas, a maternidade continuará sendo um desejo profundo. Para outras, não.
E talvez a verdadeira liberdade esteja justamente nessa possibilidade de escolher.
*As imagens são meramente ilustrativas e não representam as entrevistadas reais citadas na reportagem.