Brasil

Remédios sem eficácia contra a covid podem causar resistência bacteriana

Apesar do alerta de especialistas, o Ministério da Saúde lançou este mês o TrateCov, aplicativo que estimula a prescrição desses medicamentos

O uso de remédios sem comprovação científica contra a covid-19 – incentivado até por autoridades, como o presidente Jair Bolsonaro – preocupa especialistas, que veem risco de reações adversas, resistência bacteriana (com o surgimento de doenças como “supergonorreia”) e efeitos desconhecidos em longo prazo. Entre os mais buscados, estão a hidroxicloroquina, remédio para malária, os antiparasitários ivermectina e nitazoxanida e o antibiótico azitromicina.

Apesar do alerta de especialistas, o Ministério da Saúde lançou este mês o TrateCov, aplicativo que estimula médicos a prescreverem esses medicamentos e indica cloroquina e antibiótico até para bebês. O ministro Eduardo Pazuello, porém, nega que a pasta recomende esses remédios.

Tontura, dor de cabeça, aumento da pressão arterial, taquicardia, alterações gastrointestinais estão entre os efeitos adversos de algumas dessas medicações. Embora tenham ocorrências raras quando usadas no tratamento das doenças para as quais são indicadas e no tempo adequado – que não costuma superar duas semanas no caso dos antiparasitários -, o cenário pode mudar quando usadas para funções não previstas na bula e sem indicação médica.

Conforme o Conselho Regional de Farmácia de São Paulo, todos esses medicamentos necessitam de prescrição médica, mas a ivermectina e nitazoxanida não precisam de retenção de receita, exigida para a compra de azitromicina. “Já o controle e retenção de receita são obrigatórias para os medicamentos cloroquina e hidroxicloroquina, pela publicação da RDC 405/2020 da Anvisa, de julho do ano passado, que se mantém válida para os dois medicamentos citados e possui critérios para a prescrição e dispensação”, informa.

Ana Cristina Gales, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia e coordenadora da pós-graduação em infectologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) diz que, além de estudos terem provado que não há eficácia das substâncias, é impossível garantir que não haja consequências futuras. “A combinação de hidroxicloroquina e azitromicina foi um tratamento suspenso por causar arritmia, efeito colateral que é um risco para pacientes com doença cardiológica e estava sendo dado justamente para uma população com fator de risco. A gente não sabe dos impactos do uso estendido por semanas e até meses, porque os estudos foram feitos para uso por período curto. Da ivermectina, por exemplo, sabemos que ela se acumula no pulmão, mas a gente não sabe o efeito em longo prazo.”

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Diretora da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, Ekaterini Simões Goudouris diz que qualquer medicamento deve ser prescrito a partir da verificação dos riscos e benefícios para o paciente. Ela alerta que, no caso da automedicação, há risco para quem já faz tratamento para outras doenças. “Tem de desconstruir a ideia de que se não fizer bem, mal não faz. Se os benefícios não estão estabelecidos, não justifica submeter a um risco, mas, infelizmente, vários médicos estão fazendo prescrição e há pessoas se automedicando. Tem gente usando esses remédios toda semana para prevenir covid. Usam durante dois, três meses e não se dão conta da interação medicamentosa.”

Balanço da plataforma Consulta Remédios apontou que os medicamentos mais buscados em 2020 foram ivermectina, com 9,2 milhões de buscas, azitromicina (3,5 milhões) e hidroxicloroquina (2,7 milhões). Em relação a 2019, houve alta de 1.201,49% nas buscas por ivermectina, 53,58% por azitromicina e 2.826,82% por hidroxicloroquina.

Já levantamento da ferramenta Farmácias APP, de vendas online de produtos de saúde e beleza, apontou aumento de 100,3% no faturamento dos amebicidas, onde está englobada a nitazoxanida, em novembro de 2020 em relação a agosto. No caso dos anti-helmínticos (ivermectina), o incremento foi de 35,3% no mesmo período. Os antimaláricos apresentaram queda de 39,6%. Apesar das evidências científicas, mais governos locais passam a aderir ao tratamento ineficaz. As novas gestões de Manaus e de Porto Alegre, por exemplo, passaram a recomendar este ano o uso de medicamentos desse tipo e incentivar a distribuição de kits à população.

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Estudos comprovaram que medicações não eram eficazes

Quando a pandemia teve início e ainda não se sabia o que fazer para salvar os pacientes, profissionais de saúde tentaram administrar o que havia de disponível e pesquisas foram iniciadas com o objetivo de reverter os impactos devastadores da doença. Infectologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Maria Cláudia Stockler explica que a tentativa de intervenção acompanha a história da humanidade, desde a pajelança ao uso de sanguessugas, mas que a Medicina busca inovação com eficácia e testes já apontaram que essas medicações não funcionam contra o vírus.

“Esta doença, por ser nova, não tem ainda critérios prognósticos”, afirma ela. ‘O que a gente sabe de tratamento para covid? Dexametasona para quem precisa de oxigênio suplementar. O remdesivir tem impacto para pacientes graves, mas é muito caro. Todo o resto não é nada. Em sites americanos e europeus, não há recomedação para usar azitromicina, hidroxicloroquina e ivermectina.”

No Brasil, a Coalizão Covid-19, que reúne hospitais e institutos de pesquisa do País, realizou estudos com hidroxicloroquina e azitromicina, associadas ou não, e os resultados não apontaram eficácia. “No primeiro deles, em pacientes hospitalizados com covid-19 de gravidade moderada, verificamos que hidroxicloroquina ou azitromicina são incapazes de melhorar a evolução clínica dos pacientes. Nos grupos que receberam hidroxicloroquina, com ou sem azitromicina, houve aumento no risco de alterações de exames laboratoriais refletindo lesão do fígado e alterações do eletrocardiograma que podem predispor a arritmias cardíacas”, explica Alexandre Biasi, superintendente de pesquisa do HCor e membro do grupo.

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“O segundo estudo avaliou o efeito da azitromicina em pacientes hospitalizados com formas mais graves de covid-19. Verificamos que não havia efeito algum da azitromicina para estes pacientes”, completa. Segundo Biasi, o grupo não estudou com ivermectina e nitazoxanida, mas pesquisas realizadas ainda não têm dados robustos para que a indicação seja feita.

“Em relação à ivermectina, não há trabalhos randomizados publicados. Alguns dados disponíveis de estudos no Irã, no Egito e na Índia sugerem potencial benefício, mas não há como avaliar conclusivamente os resultados, porque ainda não estão publicados A nitazoxanida também tem sido estudada por ter efeito in vitro Mas ainda se desconhece o real benefício nas infecções pelo Sars-CoV-2. Estudo brasileiro sugere redução modesta da carga viral nos pacientes que receberam a medicação, porém não houve efeito nos sintomas”, diz ele. O estudo sobre o vermífugo foi divulgado em cerimônia pelo Planalto apenas com dados parciais e com a divulgação de um gráfico de barras retirado de um banco de imagens.

O Estadão entrou em contato com farmacêuticas que trabalham com essas medicações e solicitou posicionamento sobre o uso das substâncias. Vitamedic e EMS não se posicionaram sobre a ivermectina, assim como a Eurofarma, que preferiu não comentar sobre o uso da azitromicina. Em nota, o laboratório Aché, que tem azitromicina em seu portfólio, informou que “valoriza e respeita a prescrição médica, recomendando que nenhum medicamento seja administrado pelo paciente sem a orientação do médico”.

Sobre a nitazoxanida, a FQM Farmoquímica, detentora do registro do medicamento Annita, também recomenda que o medicamento seja tomado só com indicação médica. Em relação aos estudos, disse ter apoiado iniciativas que seguem formalidades científicas e que em uma 1ª fase, “dados bastante positivos comprovaram a ação antiviral da nitazoxanida contra o vírus SARS-Cov2 (amostras do vírus circulante no Brasil) em estudos in vitro”.

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A farmacêutica disse que “os ensaios clínicos ainda não foram disponibilizados para conhecimento público por formalidades éticas”. Também informou que apoiou um estudo de fase 2 que foi concluído recentemente e que foi submetido para publicação em uma revista científica internacional, mas que os dados ainda estão em sigilo e serão divulgados quando a revista permitir.

“A FQM nesse momento está concentrando todos os seus esforços para a aprovação, execução e conclusão da fase 3, que permitirá às autoridades regulatórias e comunidade médica, as evidências científicas necessárias para disponibilizar o medicamento para tratamento da população com covid-19”. A reportagem entrou em contato com o Ministério da Saúde e o da Ciência, Tecnologia e Inovações também solicitando um posicionamento, mas as pastas não responderam.

Excesso de antibióticos pode causar resistência bacteriana e ‘supergonorreia’

Em julho do ano passado, pesquisadores das universidades Complutense de Madrid (UCM) e de Barcelona (UB) divulgaram um estudo que identificou um mecanismo das bactérias capaz de espalhar genes resistentes a antibióticos com eficiência até 10 mil vezes maior que a conhecida até então. Segundo a UCM, a pandemia deve aumentar essa proteção das bactérias por causa do uso em larga escala desses medicamentos.

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Um dos riscos dessa situação é a resistência bacteriana. “Após alguns anos de início do uso de todos os antibióticos acabam surgindo bactérias resistentes, limitando a utilidade dos medicamentos e colocando pacientes com infecções bacterianas sob risco de serem tratados com medicamentos ineficazes. Quanto mais disseminado é o uso de um antimicrobiano maiores, as chances de surgirem bactérias resistentes e reduzirem o benefício da medicação”, explica Alexandre Biasi, superintendente de pesquisa do HCor e membro do grupo Coalizão Covid-19 Brasil. A azitromicina, antibiótico que tem sido em pacientes infectados pelo vírus, pode sofrer com esse processo, segundo ele.

Outra preocupação é a dificuldade para o tratamento de doenças como a gonorreia, que já apresenta uma variante resistente a antibióticos, também chamada de “supergonorreia”. Em setembro, o departamento de Saúde Pública da Inglaterra pediu que a população praticasse sexo seguro após alta de 26% nos casos de gonorreia entre 2018 e 2019. Segundo o boletim, a maior prevalência da doença foi entre homens gays, bissexuais e outros que praticam sexo com homens, além de mulheres heterossexuais. Juntos, os grupos representaram um aumento superior a 10 mil casos.

Ainda em janeiro de 2019, o mesmo departamento já havia alertado para o surgimento de uma nova gonorreia que seria resistente a antibióticos e foi registrada em duas pacientes heterossexuais. “Enquanto esse tipo de resistência é incomum, já existiram casos em outros países. […] Encontrar esse tipo de gonorreia extensivamente resistente aos antibióticos serve como um lembrete importante da necessidade de praticar-se o sexo seguro”, dizia o comunicado.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Centro para Controle e Prevenção de Doençasamericano (CDC, na sigla em inglês) já trazem informações sobre o tipo resistente a antibióticos em seus sites, com atualizações feitas em 2020. “Essa é uma preocupação real. Inclusive a OMS publicou alerta sobre o surgimento de bactérias resistentes a antibióticos na pandemia. Uma das ameaças atuais é a bactéria causadora da gonorreia, que está se tornando resistente aos antibióticos comumente usados, o que está se chamando de supergonorreia. Com o uso indiscriminado de antibióticos na pandemia, a resistência a essa classe de medicamentos tem aumentado”. diz Biasi.

Estadão Conteúdo






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