Menu
Brasil

Projetos urbanísticos que nunca saíram do papel mostram São Paulo que poderia ter existido

Projetos urbanísticos para Paulista, Dom Pedro e ruas da Luz revelam a São Paulo que foi planejada, mas nunca saiu do papel

Redação Jornal de Brasília

26/01/2026 13h13

sao paulo

Foto: Divulgação

LEANDRO MACHADO
FOLHAPRESS

Um túnel para pedestres na avenida Paulista. Gramados, bancos e coretos no parque Dom Pedro 2º.

Restaurantes ao ar livre, bicicletários e exposição de esculturas nas ruas da Luz. Para além da São Paulo real, existe uma cidade imaginária, criada na cabeça de arquitetos e gestores públicos, desenhada em croquis e detalhada em projetos urbanísticos. Uma metrópole que poderia ter sido, e não foi.

“Muitas ideias perduraram por décadas até serem abandonadas. E depois retornaram em novos projetos, com outros prefeitos”, diz Marcos Gomes, 55, bibliotecário da SP Urbanismo, empresa municipal de desenvolvimento urbano.

Desde 1999, Gomes é o responsável por organizar o acervo da companhia no 15º andar do Edifício Martinelli, no centro.

“A ideia de um túnel para pedestres na Paulista surgiu em 1972 com o prefeito Figueiredo de Ferraz., e durou até o final dos anos 1980, mesmo com a construção do metrô. Acreditava-se que ele poderia facilitar o fluxo de pedestres”, diz Gomes, abrindo um desenho antigo que ilustra como seria o corredor subterrâneo de 2 km de extensão bem ao lado da linha 2-verde.

Um resquício do plano chegou a se concretizar: o pequeno túnel hoje conhecido como “Passagem Literária”, na esquina entre a Paulista e a rua da Consolação, construído nos anos 1970 e hoje ocupado por um sebo e uma galeria de arte.

PARQUE ENGOLIDO

No século 20, com o boom populacional e a malha urbana se espalhando para outros pontos, o centro de São Paulo virou um terreno fértil para arquitetos e urbanistas -até estrangeiros- planejarem a cidade que estava por vir.

Um dos pontos emblemáticos é a região do parque Dom Pedro 2º, onde de fato existiu um parque -inaugurado em 1922 em comemoração ao centenário da Independência, e desativado na década seguinte.

“O projeto foi impulsionado por Antônio Prado, primeiro prefeito de São Paulo, herdeiro da elite cafeeira.

Ali era a várzea do rio Tamanduateí, uma área associada à sujeira e proliferação de doenças. Então, a prefeitura queria um espaço limpo e ordenado para uso dessa elite econômica”, diz Vanessa Corrêa, doutora em história da arquitetura pela USP.

O projeto foi encabeçado pelo paisagista francês Antoine Bouvard, colaborador da construção da Torre Eiffel, e de planos urbanísticos em Buenos Aires. “O parque foi concebido nos moldes parisienses, com um desenho simétrico e monumental. Sua estrutura incluía caminhos sinuosos para pedestres, coretos, muitos bancos e uma vegetação que tornava o ambiente agradável para o lazer”, diz Corrêa.

“Ele também foi projetado para ser uma área permeável, o que fazia todo sentido do ponto de vista ambiental. Quando o rio Tamanduateí enchia, os pontos alagados ficavam inacessíveis. Quando baixava, as pessoas voltavam”, diz a historiadora.

Mas o rio foi canalizado e o parque acabou engolido pelo automóvel. No início da década de 1930, o engenheiro Francisco Prestes Maia, que anos depois viraria prefeito, criou o chamado Plano de Avenidas, responsável por construir as principais vias de circulação de carros na cidade, como as marginais, a 23 de Maio e a Nove de Julho.

“O parque Dom Pedro era um ponto de lazer e fruição do espaço público, mas depois virou uma área que privilegia o automóvel, com avenidas e viadutos, e pouca presença de pedestres nas ruas”, diz Corrêa.
Quase um século depois da desativação, a gestão Ricardo Nunes (MDB) retomou alguns dos conceitos do antigo parque em um novo projeto de revitalização.

Dessa vez, a ideia é conceder a região à iniciativa privada. Orçada em R$ 717 milhões -R$ 435 milhões dos cofres públicos-, a parceria prevê melhorias nos acessos ao terminal de ônibus, construção de reservatórios de água da chuva e a instalação de áreas verdes e equipamentos para lazer.

Em nota, a gestão Nunes afirmou que o projeto está em fase de conferência dos documentos para a assinatura do contrato com a empresa vencedora, a Zetta Infraestrutura e Participações.

NOVA LUZ

A região da Luz, no centro, também vive sob constante olhar dos urbanistas e do poder público -ainda mais depois dos anos 1990, com a ocupação da cracolândia.

Em 2011, o então prefeito Gilberto Kassab (PSD), hoje secretário de Governo da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos), lançou com pompa o projeto Nova Luz, que prometia revitalizar a área.

A ideia era transferir para a iniciativa privada o direito de desapropriar imóveis e construir novos prédios para depois revendê-los com lucro. Em troca, a empresa vencedora da licitação teria de fazer obras públicas.

O projeto previa a construção de um boulevard ligando a estação da Luz a equipamentos culturais -o caminho seria embelezado com esculturas de artistas renomados. Também haveria bicicletários em todas as quadras, “jardins de chuva” para drenagem da água e aumento da cobertura vegetal em 400%. O custo total estimado era de R$ 4 bilhões.

Dois anos depois, porém, o prefeito Fernando Haddad (PT) engavetou a Nova Luz em seus primeiros dias de mandato, alegando que o custo para os cofres públicos seria muito alto -por volta de R$ 2 bilhões.

“O que brecou o projeto foi a falta de interesse econômico e a lucidez de Haddad, que ouviu os comerciantes que não participaram da elaboração da proposta. Havia um risco de expulsão de um comércio local muito vital para a cidade”, diz Nadia Somekh, professora de arquitetura do Mackenzie.

Desde então, o fim da cracolândia foi decretado algumas vezes por gestores públicos, como João Doria, Tarcísio de Freitas e o próprio Kassab, embora usuários de drogas continuem ocupando as ruas da Luz e de outros bairros do centro.

Nos últimos anos, novos projetos de revitalização foram anunciados para a região, como a nova sede do governo paulista, mais espaços de lazer e convivência e duas linhas de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos).

Ainda não há previsão para que tudo isso saia do papel.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado