BÁRBARA SÁ
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Dois homens acusados de integrar uma célula do PCC (Primeiro Comando da Capital) foram presos no interior de São Paulo. Segundo a acusação, o grupo monitorava o promotor Lincoln Gakiya, do Ministério Público, e o coordenador Roberto Medina, responsável por unidades prisionais da região oeste do estado.
Victor Hugo da Silva e Adilson Audinir Oliveira Júnior eram os únicos dos quatro acusados que ainda estavam em liberdade. A Folha procurou o advogado que já representou Victor Hugo no caso, mas não obteve resposta até a publicação deste texto. A reportagem também busca contato da defesa de Adilson.
Em julho, o Ministério Público de São Paulo apresentou denúncia contra quatro suspeitos sob acusação de monitorar autoridades públicas e dar apoio a planos da facção criminosa para cometer assassinatos.
Também foram denunciados Wellison Rodrigo Bispo de Almeida e Sérgio Garcia da Silva. Todos respondem por organização criminosa. À época da denúncia, um advogado que defendeu Wellison num caso de suspeita de tráfico de drogas não quis comentar o caso. A reportagem não identificou a defesa de Sérgio Silva.
As prisões ocorreram na sexta-feira (14), em Presidente Prudente e Álvares Machado, no oeste paulista, durante a Operação Recon. A SSP (Secretaria da Segurança Pública do estado) não informou qual deles foi localizado em cada cidade.
A Promotoria havia pedido a prisão preventiva (sem prazo) dos quatro e a inclusão deles no RDD (regime disciplinar diferenciado), que prevê regras mais rígidas de isolamento e restrição de contato com outros presos.
A investigação aponta que a célula monitorava Gakiya, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), e Medina, alvos de ordens de assassinato do PCC há mais de dez anos. No jargão da facção, estão “decretados”.
Na denúncia, o Ministério Público afirma haver “um incremento na atuação da facção em detrimento dos agentes públicos, gerando risco iminente a suas vidas”.
Os promotores listaram nove processos instaurados no Tribunal de Justiça desde 2019 que mencionam ameaças contra autoridades, informações sobre geolocalização de pessoas monitoradas e ordens de assassinato.
Como funcionava o monitoramento
A investigação que levou à identificação do grupo começou após a prisão em flagrante de Victor Hugo, conhecido como VH, sob suspeita de tráfico de drogas, em julho de 2025. A quebra de sigilo do celular dele levou a polícia a encontrar indícios de que integrantes da facção levantavam informações sobre a rotina das autoridades e de seus familiares.
Dados de geolocalização do aparelho apontaram que VH esteve nas imediações da penitenciária e do Poupatempo de Presidente Venceslau, locais de trabalho de Medina e da mulher dele.
Conforme a acusação, VH teria levantado trajetos entre o trabalho e a residência do casal, modelos e placas de veículos e produzido fotos e vídeos da rotina dos dois.
As informações seriam repassadas a Wellison, que vivia em uma chácara em Presidente Bernardes próxima à rota utilizada por Medina para chegar ao trabalho.
A análise do celular do suspeito indicou que ele armazenou informações enviadas por VH e fez pesquisas sobre o coordenador e seus familiares nas redes sociais.
Sérgio Silva, por sua vez, seria responsável pelo monitoramento de Gakiya. Em um dos celulares apreendidos com ele, a polícia encontrou imagens de mapas com a localização da sede do Ministério Público em Presidente Prudente, onde o promotor trabalha.
A investigação também apontou que ele esteve em endereços próximos ao trajeto diário de Gakiya.
Adilson é apontado pela acusação como colaborador direto de Silva. Segundo a denúncia, ele participou de comunicações reservadas e teria solicitado a exclusão de conversas e auxiliado na ocultação ou destruição de vestígios digitais.