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Brasil

Polícia mata 3 por dia de outubro a dezembro, no trimestre mais letal da história de SP

Em 2025, policiais militares em serviço mataram 700 pessoas no estado, o que corresponde a 84% das mortes registradas

Redação Jornal de Brasília

30/01/2026 18h52

letalidade policial

Foto: Andre Borges/ AFP

TULIO KRUSE
FOLHAPRESS

Policiais civis e militares de São Paulo deixaram um total de 834 mortos ao longo do ano de 2025, mostram dados publicados pelo governo estadual nesta sexta-feira (30). Trata-se do terceiro aumento consecutivo da letalidade policial, uma tendência que se inverteu a partir do primeiro ano de mandato de Tarcísio de Freitas (Republicanos) como governador.

A quantidade de mortes no último trimestre do ano passado foi a maior registrada em 25 anos. Policiais militares em serviço mataram 242 pessoas de outubro a dezembro, algo inédito para qualquer trimestre desde 2001.

Isso se refletiu na letalidade total, que considera também os casos com policiais civis e nos quais agentes de segurança estavam de folga. Nesse caso, foram 276 mortos no trimestre -a maior quantidade desde 2015, quando o estado passou a computar as mortes provocadas por policiais de folga com a mesma metodologia utilizada hoje. O número é equivalente a três vítimas por dia.

Com isso, o estado chega ao maior índice de mortes provocadas pela polícia desde 2019. Naquele ano, o primeiro da gestão João Doria (ex-PSDB) no Palácio dos Bandeirantes, policiais provocaram 867 mortes.

Os números consideram casos em que os agentes de segurança estavam tanto em serviço como de folga.

O aumento na letalidade no ano passado ocorreu mesmo sem uma megaoperação nos moldes da Escudo e da Verão, em 2023 e 2024, que juntas deixaram um saldo oficial de 84 mortos na Baixada Santista. Nos dois casos tropas especializadas da PM enviadas ao litoral em resposta a mortes de soldados da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, tropa de elite conhecida pelas ocorrências com mortos).

Mesmo assim, o ano foi marcado por casos de grande repercussão em que policiais atiraram contra pessoas desarmadas e que não ofereciam risco. Câmeras corporais gravaram as mortes de um morador de rua em junho, de um suspeito que estava com as mãos na cabeça em Paraisópolis, em julho, e de um assaltante rendido numa casa em Moema, em dezembro.

A letalidade policial em 2025 é a maior desde a expansão do programa Olho Vivo, que implementou as câmeras corporais na Polícia Militar. O programa teve várias fases preliminares de estudos e testas a partir de 2014, mas a implantação em massa dos equipamentos começou em 2020, com a compra de 3.000 câmeras.

Naquele ano houve queda de 6% nas mortes provocadas por ações policiais, sendo que as câmeras ainda eram usadas por poucas unidades da polícia. Entre 2019 e 2022, se considerados apenas os batalhões da PM que haviam implementado o sistema, a queda chegou a 87%.

O investimento no programa de câmeras corporais ocorreu em conjunto com outras políticas que visavam ao controle da força policial, como a criação de Comissões de Mitigação de Riscos -grupos formados por oficiais da PM que analisavam os detalhes de cada ocorrência com morte no estado.

Em 2025, policiais militares em serviço mataram 700 pessoas no estado, o que corresponde a 84% das mortes registradas.

O ouvidor das polícia de São Paulo, Mauro Caseri, classificou o aumento da letalidade como “assustador” e afirmou deveria haver mais transparência sobre as circunstâncias das ocorrências policiais que envolvem mortes, principalmente a proporção de casos em que há uso da câmera corporal.

Ele diz que o número de equipamentos em uso divulgado pelo governo é irreal. Hoje há 15 mil câmeras corporais contratadas pela PM. “Dessas 15 mil câmeras corporais, na verdade, somente 7,5 mil câmeras são utilizadas por turno. Porque as outras 7,5 mil ficam na case recarregando”, ele afirma.

Com um efetivo de 60 mil PMs diariamente nas ruas, em média, considerando a parte da tropa que fica de folga, há câmeras suficientes para cerca de 12,5% dos policiais, nas contas do ouvidor. Ele diz que o ideal seria uma cobertura de dois terços da tropa com o equipamento. Além disso, defende investimento em armas não letais, como pistolas de eletrochoque em baixa corrente (ou tasers).

“Letalidade não é sinônimo de eficiência. Uma polícia eficiente faz o combate à criminalidade, faz a prisão daquele que merece, leva para a delegacia, cria o boletim de ocorrência, instrui o processo, o juiz julga e o criminoso cumpre a pena”, diz Caseri.

Para o pesquisador Leonardo Silva, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, declarações contrárias às câmeras corporais do governador no início do mandato podem ter passado à tropa a mensagem de que excessos em ocorrências policiais seriam tolerados.

“Vários discursos do governador e do secretário [Guilherme Derrite] batiam de frente com as políticas de mitigação do uso da força. Os policiais entenderam que houve uma mudança de postura institucional, e agiram em cima disso”, diz Silva, que também chama atenção para a responsabilidade de outros órgãos no controle da violência policial, como o Ministério Público e o sistema de Justiça.

“Esse aumento da letalidade indica não só uma necessidade de repactuação das ações do Executivo, mas que alguma coisa precisa ser feita no campo do controle externo da atividade policial”, conclui.

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