TULIO KRUSE
FOLHAPRESS
O relatório final de investigação da Polícia Civil sobre as mortes do menino Ryan da Silva Andrade Santos, 4, e do adolescente Gregory Ribeiro Vasconcelos, 17, conclui que elas foram provocadas por troca de tiros entre policiais militares e dois adolescentes numa motocicleta. O documento diz que os PMs agiram em legítima defesa e que não poderiam prever que a criança de 4 anos seria atingida por uma bala perdida.
Nenhum dos agentes de segurança foi indiciado. O delegado Thiago Nemi Bonametti, responsável pelo inquérito, diz que não há mais nenhuma providência a ser tomada pela investigação da polícia. O relatório foi entregue à Justiça e, agora, deve ser encaminhado para análise do Ministério Público.
Ryan e Gregory foram mortos em 5 de novembro de 2024 no Morro São Bento, em Santos (SP). Por volta das 20h15 daquele dia, uma terça-feira, Gregory e um adolescente de 15 anos foram vistos por três PMs da Rocam (Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicleta) andando de moto sem capacete numa das principais vias do bairro. Os policiais seguiram a dupla, que logo depois se deparou com outros três PMs que estavam num carro da Força Tática.
Os adolescentes foram alvo de ao menos 28 disparos de fuzil, espingarda e pistolas. O jovem de 15 anos, que estava na garupa da moto, levou dois tiros e sobreviveu.
Ryan, que estava num grupo de cerca de dez crianças que brincavam na rua a cerca de 50 metros de distância, foi atingido por um tiro de espingarda calibre 12 disparado pelo cabo Clovis Damasceno de Carvalho Junior, 42.
A perícia no projétil retirado do corpo indicou que ele ricocheteou -num poste, numa parede ou no asfalto- antes de atingir a criança na barriga. Damasceno afirmou que fez sete disparos com a arma para deter os adolescentes. Os PMs envolvidos no caso chegaram a ser afastados da atividade operacional, mas já voltaram ao policiamento nas ruas.
A análise das armas e das cápsulas de munição encontradas na cena da ocorrência, assim como o laudo que mostra a distância entre as posições dos envolvidos, dos projéteis e das manchas de sangue, foram as principais provas para a conclusão da Polícia Civil de que houve troca de tiros.
Policiais da Rocam relataram que, após seguir a dupla de adolescentes, foram recebidos a tiros por um grupo de ao menos sete pessoas ao entrar numa rua. Eles pediram apoio à equipe da Força Tática, que chegou ao local pela parte de cima da rua. Em depoimento, os agentes da Força Tática relataram ter visto os tiros contra a Rocam e que também foram alvo de disparos.
Uma pistola calibre 9mm e um revólver 38 foram encontrados com os adolescentes, segundo relataram os policiais. O adolescente sobrevivente disse que eles não estavam armados. Ele admitiu que os dois trabalhavam no tráfico de drogas da região, abastecendo pontos de venda.
Testemunhas que estavam na rua no momento da ocorrência disseram à polícia não ter visto troca de tiros, e sim um ataque da PM em direção à dupla na moto. Afirmaram, inclusive, que os policiais continuaram atirando quando os adolescentes já estavam caídos no chão. Os policiais não portavam câmeras corporais e nenhuma câmera captou o momento das mortes.
“O perito apontou vestígios compatíveis com troca de tiros em sentidos opostos”, diz o relatório. Ele destacou que a comparação balística das armas e dos projéteis indicou “que também foram feitos disparos das armas que não eram dos policiais”.
Bonametti também relatou que policiais apresentaram um vídeo, gravado meses antes da ocorrência, que supostamente mostraria Gregory portando uma arma. Policiais informaram que o vídeo circulou nas redes sociais após a morte do adolescente. O adolescente que o acompanhava na moto não reconheceu o vídeo.
Sobre a morte de Ryan, o inquérito conclui que “a hipótese mais provável é mesmo que foi atingida após o projetil ricochetear mais abaixo na via” e que isso “revela a impossibilidade de que esse resultado fosse previsível aos militares que disparavam em legítima defesa”.
O exame no corpo de Gregory mostrou que quatro tiros o acertaram pelas costas, de um total de ao menos sete ferimentos compatíveis com disparos de armas de fogo. A quantidade de tiros e o fato de ter sido atingido por trás é um indicativo de desrespeito aos protocolos de operação e ao treinamento que PMs recebem.
Um número tão grande de tiros só seria admitido se, mesmo ferido, o agressor ainda representasse ameaça aos PMs. Os depoimentos de policiais não fazem menção a nenhum desses procedimentos, nem descrevem se Gregory continuou oferecendo risco após os primeiros disparos.