Por Ágata Vaz e Maria Clara Batista
Há 279 anos, o Quilombo Mesquita, na Cidade Ocidental (GO), mantém práticas agrícolas tradicionais baseadas em conhecimentos ancestrais e no manejo sustentável do Cerrado. No entanto, o avanço acelerado das monoculturas na região impõe riscos ambientais e econômicos crescentes à comunidade.
Agrotóxicos
Segundo a pesquisadora Antonia Ribeiro, doutora em educação ambiental, a poluição dos córregos da região está relacionada ao uso de agrotóxicos e fertilizantes nas fazendas monocultoras vizinhas. Em sua tese, que ela publicou em 2014, Antonia concluiu que esses insumos têm dificultado a conservação dos cursos d’água e afetado diretamente a subsistência das famílias quilombolas.
Ela também aponta que a perfuração de poços por propriedades não quilombolas contribui para o rebaixamento do lençol freático e pode estar associada ao desaparecimento de nascentes na região.
Mudanças profundas
A engenheira agrônoma Danusa Lisboa, moradora do Quilombo Mesquita, afirma que a pressão territorial e ambiental forçou mudanças profundas na agricultura local.
Segundo ela, a comunidade deixou de utilizar sementes crioulas (variedades tradicionais adaptadas ao clima e conservadas de forma comunitária), por causa da crescente incidência de pragas.
Em sua pesquisa na graduação, realizada na Universidade de Brasília (UnB), a agrônoma relata que o avanço das lavouras de soja atrai pragas que migram para as roças quilombolas, tornando inviável o cultivo do milho crioulo.
Como resposta a esse cenário, os produtores passaram a adquirir sementes comerciais e insumos químicos em lojas agropecuárias. Esse processo resultou, segundo Danusa, em uma “modernização incompleta” da produção.
Soluções
As famílias passaram a adotar parte dos defensivos e da mecanização, como ração e gradeamento do solo, mas sem acesso ao pacote tecnológico completo, como a análise e correção de solo. Dessa forma, os quilombolas assumem os custos dos insumos e os impactos ambientais do entorno, sem receber o suporte técnico necessário para garantir produtividade e reduzir danos ambientais.
Apesar das dificuldades, o modelo de produção adotado no Quilombo Mesquita é reconhecido por pesquisas científicas como estratégico para a conservação do Cerrado.
Área preservada
Dados do MapBiomas (2022) indicam que territórios quilombolas estão entre as áreas mais preservadas do país, com altos índices de manutenção da vegetação nativa, ao lado de terras indígenas.
Estudos da Embrapa publicados em 2017, no livro Conservação e uso da agrobiodiversidade: relatos de experiências locais (leia o trabalho), indicam que os Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs) são fundamentais para a segurança alimentar porque fortalecem a autonomia das comunidades sobre seus recursos naturais.
Esses sistemas, adotados por povos que não passaram integralmente pelo processo de modernização agrícola, promovem maior controle sobre a produção ao organizar o uso do solo, da água e da biodiversidade de forma integrada.
Nesse contexto, os sistemas agroflorestais (SAFs), desenvolvidos a partir dos saberes de populações tradicionais, se destacam como formas de uso sustentável da terra. Eles combinam árvores, arbustos, culturas agrícolas e, em alguns casos, criação de animais, promovendo interações ecológicas e econômicas que fortalecem a estabilidade produtiva.
Agroecologia
Segundo a Embrapa, essas práticas podem ser incorporadas às formas tradicionais de manejo para melhorar os sistemas produtivos e agregar valor aos produtos. A vinculação entre agroecologia, geração de renda e melhoria da qualidade de vida é apresentada como estratégia central para a conservação da agrobiodiversidade e para a manutenção da soberania alimentar.
Segundo as especialistas explicam, um exemplo desse modelo agrícola é o cultivo do marmelo, que se tornou símbolo cultural e produtivo da comunidade. O manejo é baseado em técnicas de baixo impacto ambiental.
Em vez de agrotóxicos, os produtores utilizam esterco bovino como adubo e a calda bordalesa (um fungicida e bactericida tradicional, feito com uma mistura de sulfato de cobre e cal em água) como tratamento fitossanitário, reduzindo a contaminação do solo e das águas quando comparado à agricultura de larga escala.
Em contraste, a expansão da monocultura no Cerrado está associada ao desmatamento acelerado, à erosão dos solos e à poluição de rios.
Invasões
De acordo com o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID/Incra), publicado em 2011, o território total é de 4.292,8259 hectares, dos quais apenas 761,257 hectares estão sob posse da comunidade.
A disparidade territorial representa a expropriação das terras e limita o acesso aos direitos fundiários, principal ameaça enfrentada pelos quilombolas.
Além disso, aponta que é justamente na área delimitada, mas não ocupada pela comunidade (por terceiros ou não quilombolas), que se nota o predomínio do uso predatório e insustentável do solo.
Segundo a tese de doutorado em agronomia, realizada na UnB, da agrônoma Robervone Nascimento, o problema é impulsionado por manejo realizado por terceiros (leia aqui), geralmente pautado em agricultura extensiva e atividade pecuária, o que causa degradação ambiental no território.
Mais da metade da área total do Quilombo é utilizada para exploração agrícola, sendo dominada por áreas de solo exposto ou em pousio com palhada.
O solo exposto são áreas sem qualquer cobertura vegetal para atuar como uma capa protetora durante os períodos de descanso (cerca de 33,91% do território total), e o pousio com palhada, são terras em descanso com restos de colheita (cerca de 25,89%). Juntas, essas duas condições somam 59,80% das áreas investigadas.
Dessa forma, o uso favorece o acontecimento de erosão e acelera o processo de degradação. A situação é ainda mais grave porque atinge áreas que, pela classificação técnica, deveriam ser preservadas.
A pesquisa demonstra que terras de “uso restrito” (Classe 5n) e até mesmo aquelas “sem aptidão agrícola” (Classe 6), que são ecossistemas frágeis, estão sendo exploradas de forma inadequada.

Crédito: Adaptação por Maria Clara Batista
O uso da terra por sistemas convencionais altera negativamente as características do solo e reduz a qualidade da matéria orgânica.
As consequências são diversas, como: favorecimento à ocorrência de erosão, aumento da densidade do solo, impacto na produtividade agrícola, ameaça hídrica, contaminação química, desequilíbrio nutricional, entre outros.
Obstáculos
Embora cumpra um papel relevante para o equilíbrio ambiental da região, especialmente na regulação hídrica do Planalto Central, o Quilombo Mesquita permanece sem o título coletivo de suas terras. Em novembro de 2025, a titulação definitiva ainda não havia sido concluída, mesmo após quase vinte anos desde o reconhecimento oficial.
Conforme explica Danusa Lisboa, a ausência do título impede o acesso a crédito rural, programas de fomento e instrumentos legais que permitiriam ampliar iniciativas agroflorestais e fortalecer a autonomia produtiva das famílias.
Titulação
A titulação consiste no processo legal pelo qual o Estado reconhece formalmente o território tradicional e garante sua posse coletiva à comunidade.
Assim, a falta de políticas públicas efetivas e a demora na titulação mantêm a comunidade em situação de vulnerabilidade. “A gente sabe que tem direito a programas de agricultura familiar, moradia, infraestrutura, mas não chega nada”, diz Danusa.
Além de comprometer a autonomia econômica, esse cenário favorece a pressão da especulação imobiliária e o avanço desordenado sobre áreas tradicionais.
Para o agricultor Júlio Pereira Braga, o reconhecimento jurídico precisa ser acompanhado de condições concretas de produção. “De que adianta ter a terra se a gente não tem capital pra investir?”, questiona Julio.
A dimensão coletiva do território é central para a organização do Mesquita. Para Sandra Pereira Braga, prima de Júlio e presidente da associação do Quilombo Mesquita, a ideia de vida coletiva não nasce da titulação, mas da própria história do lugar.
“Nós já vivemos coletivamente desde sempre. É circularmente coletivo, são famílias de pai, de avô, de neto, e isso continua”, afirma Sandra Pereira, que também é a atual coordenadora executiva da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq).
Segundo ela, a luta pelo território é diária e atravessada por disputas políticas, tentativas de silenciamento e práticas de racismo.
“É um território altamente disputado, com pessoas tentando tirar o nosso direito e apagar a nossa memória”, relata. Ainda assim, Sandra afirma que a resistência é permanente: “A gente está sempre na luta, trabalhando, lutando e preservando”.
A situação do Quilombo Mesquita evidencia um dilema mais amplo: enquanto comunidades tradicionais demonstram capacidade de conservar o Cerrado e garantir serviços ambientais essenciais, a ausência de segurança territorial e de apoio institucional ameaça a continuidade desse modelo.