Com a ajuda de rústicos aparelhos, o meteorologista tenta desvendar o tempo. Sabiamente, ele interpreta os dados fornecidos por equipamentos como termômetro, barômetro (medidor de pressão atmosférica) e psicômetro (medidor de umidade) e faz previsões futuras. Este ritual se repete em outras 17 estações pelo Brasil, em uma tentativa conjunta de antecipar o que acontecerá nas próximas 24, ou, no máximo, 48 horas.
Esta situação descreve como funcionava a meteorologia no Brasil há cem anos. A antiga Diretoria de Meteorologia e Astronomia, criada em 18 de novembro de 1909, pertencente ao Observatório Nacional e vinculada ao hoje Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, ainda não havia conquistado por completo a confiança dos agricultores e da população com suas previsões. Apesar dos esforços dos meteorologistas, elas eram muito falhas devido aos limitados recursos.
Desde aquela época, muita coisa mudou. A Diretoria mudou seu nome por diversas vezes e se tornou o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) que é, hoje, dono do maior patrimônio climatológico do Brasil e o responsável por interligar o País com todos os serviços meteorológicos do mundo, como membro da Organização Meteorológica Mundial (OMM).
O assessor técnico do Inmet, Francisco de Assis Diniz, lembra que antigamente não existia a ajuda de computadores e que tudo era feito pelas mãos humanas. “Os observadores passavam as informações para especialistas em desenhar mapas. Depois que estes ficavam prontos, os meteorologistas faziam a análise que era praticamente um diagnóstico e não uma previsão”, afirma o assessor. “O processo todo demorava cerca de cinco horas”, acrescenta.
Evolução tecnológica
Em seu centésimo aniversário, o Instituto comemora uma grande evolução tecnológica. Muitas conquistas marcam a fase atual do Inmet. Entre elas, está a renovação do parque computacional, com a implantação de supercomputadores; a parceria com outras instituições; o esforço para engajar cada vez mais o usuário; e a utilização do Modelo Brasileiro de Alta Resolução (MBAR), que permite maior detalhamento da área em estudo, aumentando os índices de acerto na previsão do tempo, que pode ser feita com até cinco ou sete dias de antecedência.
Com o modelo, os meteorologistas obtêm informações da região em estudo a cada 25 quilômetros enquanto modelos semelhantes de previsão numérica no Brasil trabalhavam a cada 40 ou 70 quilômetros.
95% das previsões dão certo
O diretor do Inmet, Antônio Divino Moura, conta que, apesar da grande evolução tecnológica dos últimos 10 a 20 anos, ainda há o método convencional de se fazer previsões. “Estações convencionais continuam com a mesma tecnologia. Isso é importante para a continuidade histórica dos dados para a pesquisa”, afirma.
Moura explica que a divulgação dos dados meteorológicos no Brasil também passou por mudanças. “Na década de 1930, por exemplo, as comunicações eram feitas por teletipo, telex, correios e hoje são feitas entre computadores”, afirma o diretor.
Com toda a estrutura de que dispõe, o Inmet garante, hoje, um acerto de 90% a 95% das previsões feitas. “Diria que na América do Sul temos uma meteorologia operacional e de pesquisa das melhores, comparada mesmo com vários países mais adiantados no setor”, diz Moura.
Satélites
Segundo o chefe do Serviço de Observação Meteorológica, Alaor Moacyr Dall’Antônia, outro grande avanço foi o surgimento dos satélites na década de 60. “Antigamente tínhamos que fazer a coleta de dados e a partir dela devíamos imaginar como estava a atmosfera, já que não tínhamos recursos que nos desse a exatidão necessária”, esclarece.
As informações meteorológicas e climatológicas produzidas e disseminadas pelo Inmet, em parceria com outros órgãos, são essenciais para as áreas econômicas e sociais do Brasil, como a agropecuária, a indústria, defesa civil, indústria, turismo, transporte aéreo e marítimo, ecologia, recursos hídricos, energia e saúde pública.
Antecipação
“A previsão é importante porque informa com antecedência e permite que cidadãos comuns e agricultores se planejem e se organizem”, afirma o chefe da Observação Meteorológica. Dall’Antônia dá o exemplo da enchente que ocorreu na Amazônia em 2009 e foi prevista pelo Inmet com antecedência de quatro a cinco meses.
De acordo com Moura, há mais de 12 milhões de documentos referentes aos cem anos da instituição. “Há registros desde a época do Império”, afirma o diretor do Inmet. O objetivo da Instituição agora é digitalizar toda essa documentação. “É a memória do clima do Brasil”, completa Moura.
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O fato mais marcante Assim, surgiu uma forma mais rápida de se fazer medições, já que o computador passou a converter em modelo numérico as informações advindas das estações. Hoje, a observação, a plotagem de mapas e até a análise deles é automática. A previsão é feita em menos de dois minutos. |