BRUNO LUCCA
FOLHAPRESS
O percentual de jovens que concluem o ensino médio até os 18 anos com aprendizado acima do básico em matemática diminuiu no Brasil entre 2019 e 2023, anos pré e pós-pandemia. A conclusão é do IIE (Índice de Inclusão Educacional).
No período, o indicador nacional caiu de 25,5% para 21,4% -uma redução de 4,1 pontos percentuais. Portanto, apenas dois a cada dez formados tinham o conhecimento esperado na disciplina.
O IIE foi desenvolvido pela organização Metas Sociais a pedido do Instituto Natura. Ele retrata a proporção de indivíduos a concluir a educação básica até a idade esperada e com desempenho minimamente adequado nos exames de proficiência.
Para isso, a ferramenta combina informações do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), do Censo Escolar e da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua.
Para o Saeb, por exemplo, o patamar de conhecimento essencial em matemática corresponde a 300 pontos na escala de proficiência, que chega a 500. Abaixo disso, os estudantes demonstram dificuldade para resolver problemas com porcentagens, interpretar gráficos ou lidar com situações numéricas do cotidiano.
No cenário pós-pandemia, nenhum estado brasileiro conseguiu fazer ao menos 30% dos jovens atingirem esse nível de aprendizado na idade certa.
Segundo os dados do IIE, a piora chegou a todas as regiões do país, inclusive aquelas com os melhores resultados antes da emergência sanitária.
São Paulo, líder do ranking em 2019 com 35,2% dos jovens incluídos em matemática, registrou 24,7% em 2023. Uma queda de 10,5 pontos percentuais. Goiás, que aparecia com o segundo melhor desempenho antes da pandemia, teve queda de 34,2% para 27,0%.
Outros estados que figuravam no topo da lista sofreram recuos significativos. O Paraná passou de 33,6% para 28,1% no período. O Distrito Federal caiu de 33,4% para 22,5%, enquanto o Espírito Santo recuou de 32,8% para 27,7%. Minas Gerais apresentou diminuição semelhante, de 29,5% para 22,6%.
No restante de Sul e Sudeste, os percentuais também permaneceram abaixo do patamar de 30% em 2023. Santa Catarina passou de 26,4% para 24,2%; o Rio Grande do Sul foi de 25,5% para 23,0%; e o Rio de Janeiro, de 23,6% para 17,1%.
Alguns estados apresentaram estabilidade ou variações menores, mas em níveis igualmente baixos. A Paraíba variou de 21,5% para 16,0%, e o Piauí, de 20,9% para 18,1%.
As menores taxas ficaram concentradas em estados do Norte e do Nordeste nos dois anos analisados. Em 2023, o Amapá registrou 8,2%; o Pará ficou com 10%; Amazonas parou em 10,2%; Maranhão teve 10,4%; e a Bahia, uma das maiores redes de ensino do país, 11,5%.
“Tivemos uma geração excluída do aprendizado em matemática”, avalia David Saad, diretor-presidente do Instituto Natura e cocriador do IIE. “Esses jovens formados em 2023 foram muito impactados pela pandemia, claro, mas os dados indicam um problema maior.”
Para ele, há um problema de metas e estrutura do ensino de matemática no país.
“O Brasil faz isso muito bem com alfabetização, por exemplo. Foi criado um programa e estabelecido aonde queremos chegar”, diz. “Que política pública temos focada em matemática? É preciso um trabalho nessa direção”, segue.
COMPARAÇÃO COM O IIE DE LÍNGUA PORTUGUESA
Comparado ao de matemática, os indicadores de língua portuguesa no IIE são superiores e sofreram menos com a pandemia. A média nacional de jovens formados com conhecimento adequado até cresceu de 2019 para 2023, indo de 27,2% para 27,9%.
A alta foi puxada pelo melhor desempenho de estados como Espírito Santos, Ceará e Paraná. Neste, o percentual saltou de 34,5% para 35,7%, por exemplo.
No entanto, foram registradas algumas retrações. São Paulo, que detinha a maior porcentagem no ano pré-pandêmico (39,1%), registrou 34,5% no último ano avaliado. O mesmo aconteceu com Minas Gerais, Bahia e Distrito Federal.