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Brasil

Mudanças climáticas ameaçam produção em territórios quilombolas

Encontro nacional de mulheres quilombolas em Brasília reuniu relatos sobre perdas na agricultura e cobrou regularização fundiária diante da seca, de temporais e da pressão de grandes empreendimentos.

Redação Jornal de Brasília

14/06/2026 14h29

quilombolas

Tomaz Silva/Agência Brasil

As mudanças climáticas têm afetado a produção de alimentos e o modo de vida de comunidades quilombolas em diferentes regiões do país, segundo relatos apresentados no encontro nacional das mulheres quilombolas, realizado no Gama (DF) até este domingo (14). O tema da justiça climática esteve entre os principais debates da atividade, que recebeu a visita do presidente Lula na quinta-feira (11).

Na comunidade rural quilombola de Nova Esperança, em Baraúna (RN), a agricultora Sueli Bessa, de 39 anos, diz que os períodos de seca ficaram mais frequentes e alteraram a presença de frutas que antes faziam parte da rotina local, como a goiaba. Além dela, outras frutas e hortaliças cultivadas pelas 70 famílias da comunidade também sofrem com os extremos climáticos, ora marcados por estiagens, ora por temporais.

As dificuldades levaram parte dos moradores a abandonar a agricultura familiar e buscar trabalho em indústrias na área urbana, a mais de 20 quilômetros. A comunidade não tem asfalto nem CEP, e as tempestades deixam ruas e estradas intrafegáveis. Também não há abastecimento regular de água, e os moradores dependem de um poço artesiano, o que torna o dia a dia ainda mais difícil para viver e plantar.

No encontro, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) lançou o livro “Vozes quilombolas: mulheres em defesa do clima”, de 120 páginas. A pesquisa, conduzida pela agrônoma Fran Paula, reúne denúncias sobre os impactos de grandes empreendimentos em territórios quilombolas e destaca estratégias de conservação e resistência construídas pelas próprias mulheres.

Segundo a pesquisadora, as mulheres são as primeiras a sentir os efeitos das transformações e as últimas a deixar os territórios. Ela cita impactos de usinas eólicas, exploração de petróleo e minérios e fazendas de monocultura, além do desmantelamento de políticas ambientais. Fran Paula também defende a celeridade na regularização das terras quilombolas. “Não existe justiça climática sem território garantido, sem titularização para esses territórios que precisam ser protegidos”, afirmou.

Entre os exemplos citados está a comunidade Mesquita, em Cidade Ocidental (GO), onde há expectativa de que o território seja demarcado ainda neste ano, segundo a coordenadora executiva da Conaq, Sandra Braga. A área rural reúne 785 famílias, cerca de três mil pessoas. O reconhecimento como território quilombola ocorreu em 2006, após estudos antropológicos concluídos pela Fundação Cultural Palmares, e a falta de titulação, segundo Sandra, facilita a apropriação de terras por fazendeiros da soja.

No local, a plantação de marmelo é apontada como símbolo de resistência, mas produtores relatam que as estiagens prolongadas reduziram a produção e o tamanho dos frutos. Situação semelhante é descrita na comunidade quilombola Divino Espírito Santo, em São Mateus (ES), também conhecida como Divino Beiju, onde o cultivo de mandioca para a produção do beiju artesanal diminuiu por causa do caos climático.

Com mais de 300 famílias, a comunidade ainda tenta preservar a plantação dos efeitos dos agrotóxicos usados por fazendeiros das proximidades. Para os moradores, manter o cultivo é também preservar a identidade e o modo de vida ligados ao beiju, vendido no mercado central da cidade. As informações são da Agência Brasil.

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