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Moradores da periferia de SP falam sobre visibilidade trans

Pessoas trans que vivem nas periferias de São Paulo dizem que fugir da violência, física ou verbal, faz parte da rotina

Por FolhaPress 27/01/2022 10h39
FOTO: DREW ANGERER/AFP

Caê Vascocelos
São Paulo, SP

Desde 2004, o dia 29 de janeiro se tornou dia de luta para pessoas trans no Brasil. Na ocasião, um ato nacional
lançou a campanha Travesti e Respeito, que marcou a luta contra a transfobia no país.

Mas, quase duas décadas depois, há muito a avançar. Pessoas trans que vivem nas periferias de São Paulo dizem que fugir da violência, física ou verbal, faz parte da rotina. A Agência Mural falou com quatro delas.

O ator e roteirista Leo Moreira Sá, 63, se identifica como homem trans. Nascido em São Simão, no interior paulista, perto de Ribeirão Preto, ele veio para São Bernardo do Campo, na Grande SP, aos 11 anos, antes de morar na capital.

Em 2015, foi acolhido em uma chácara em Parelheiros, no extremo sul de São Paulo, e sentiu que a sua vida foi revolucionada. Decidiu, então, alugar uma casa na região e transformar o bairro em lar.

“Percebi que aqui estava em paz. Como dependente químico limpo há 16 anos, encontrei o equilíbrio de que eu precisava. Aqui é o melhor lugar do mundo como artista.”

Mas a entrada no mundo da arte foi por acaso. No começo dos anos 2000, Leo foi preso por tráfico de drogas. “Aquilo foi o maior trauma da minha vida. Nunca fui criminoso, mas fui viver a vida do crime.”

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Ao sair da prisão, em 2009, ficou sem emprego e apoio. E a arte o encontrou. “Ganhei uma bolsa que era um protótipo do programa Transcidadania [de empregabilidade para a população trans]. Quando eu vi ‘teatro e música’, tive certeza de que deveria fazer.”

Leo começou como iluminador, mas logo integrou o elenco do espetáculo. “Considero que a arte me resgatou, me salvou. A arte salva vidas trans, eu sou testemunho.” Sua melhor performance artística, conta, foi como baterista da banda de punk As Mercenárias.

Leo viveu em São Bernardo quando movimentos de trabalhadores ganhavam força e o regime militar vivia os últimos momentos. Assim, aos 18 anos, decidiu cursar ciências sociais na USP. E iniciou leituras, diz, que o ajudaram a lidar com a transgeneridade, que já estava em sua vida. Ele diz que, desde sempre, já sabia que era um homem trans.

“Toda a minha infância eu fui lido como um moleque, mas, no primeiro dia de aula, minha mãe colocou uma sainha. E a transfobia começou no primário”, lembra.

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Essa luta por mais espaço e representatividade não acaba, ele avalia. “Não via artistas transmasculinos. Fiquei seis meses trocando emails com o Daniel [Veiga] para montar o coletivo”, diz sobre a criação do Cats (Coletivo de Artistas Transmasculines), projeto ao lado de outros artistas para vencer a invisibilidade.

Quem também escolheu a arte foi a performer Pedro Galiza, 25. Cria do Jardim Damasceno, na Brasilândia, na zona norte, Galiza se identifica como pessoa não binária e vê o cenário artístico como refúgio.

“Nunca me vi em ambientes formais. Eu fui entender a arte como lugar em que podia ter liberdade, onde pudesse ser e pudesse explorar ser”, diz Galiza, que atua com dança independente e performances.

Desde cedo, vê como a sociedade enxergava pessoas trans. “Era uma criança bastante afeminada e rechaçada na rua.” Foi nessa fase da vida que começou a sofrer transfobias. “Muitos bullyings e muita violência também, não só física, mas ofensas”, recorda.

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Afirmar a identidade trans na arte, para Galiza, é quebrar a forma como a cisgeneridade enxerga o fazer artístico. “É muito mais amplo do que as determinadas caixinhas, é muito mais acolhedor.”

Diferentemente de boa parte das pessoas trans, Galiza sempre teve acolhimento em casa. “A gente tem que fazer uns acordos pela idade dos meus pais, sem muita informação. É mais a convivência do dia a dia. Minha mãe foi percebendo o meu corpo, a maneira com que eu me posicionava. Então ela começou a me dar as roupas dela.” Por outro lado, a periferia, para Galiza, não foi tão acolhedora. “Eu não encontrei comunidade aqui dentro. Nunca me escondi, mas precisei me resguardar.”

Já para o poeta Kairos de Castro, 29, organizador do Transarau e morador de Ermelino Matarazzo, na zona leste, foi o oposto. Kairos se identifica como não binário e não tem boa relação com a família, mas encontrou na periferia lugar de afeto e acolhimento. “Quando eu estudava, não tinha outras pessoas LGBTs. Eu sentia solidão no meu bairro. Por isso vivi mais no centro, por causa do trabalho.” Na pandemia, porém, ao ficar em casa, mudou sua visão em relação a viver no bairro como pessoa trans.

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Em 2014, após ler texto sobre transgeneridade no Facebook, Kairos se descobriu trans. “Eu sentia que a minha única função na vida era ajudar as pessoas e que eu, como indivíduo, não existia.” “Quando eu me descobri trans, descobri que o que eu sentia não era uma coisa aleatória, não era estranho. Me descobrir em 2014 salvou a minha vida.”

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E a arte também salvou Kairos da depressão, mas por meio da escrita. “Eu comecei a escrever com 9 anos. Mas tinha muita depressão, achava que ia morrer com 18 anos e não planejava muito. Eu me aliviava escrevendo”, conta.

Em 2017, Kairos conheceu a Dominação, batalha de rima na região do metrô São Bento, no centro. Ali foi a primeira vez que ele viu pessoas trans recitando rimas. “Vi que era possível estar dentro da arte.”

No caso da professora Anally Loureiro,36,morar na Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte, foi o caminho para mudar a percepção que tinha na cidade natal, Itapeva (SP). Anally se identifica como mulher trans e foi aceita pela família, mas percebeu o clima de hostilidade. “Foi daí que decidi vir para a cidade grande, pois todo mundo falava que aqui as coisas seriam mais fáceis. Eu queria evitar que a minha família virasse chacota”, diz. “Mas minha família toda me aceita, sou muito privilegiada.”

Mas, ao chegar à capital, em 2008, foi difícil. “Com o tempo as pessoas foram vendo que eu merecia respeito. Mas, no centro, eu me sinto melhor, as pessoas me olham diferente. Não sei o que acontece na periferia que viramos piada.”

A carreira de professora veio por inspiração da mãe, que ensinava crianças. “Eu cresci fazendo trabalhos voluntários em escolas e aí criei o gosto, decidi fazer o magistério. Trabalhei com outras coisas, mas a educação está no sangue. O cuidar faz parte de mim. Cresci admirando o trabalho que a minha mãe fazia.”

Na pandemia, Anally perdeu o emprego na creche onde era professora, mas sonha em voltar. “Nasci para a educação.”

Ela diz acreditar que a mudança do mundo está nas crianças. Por isso, para ela, temas como transgeneridade devem ser tratados na infância.








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