"Esse presente eu tinha pedido", confessa a meio-fundista, que acompanhou o resultado do marido pela internet. "Logo que ele chegou lá e começou a me ligar, tive mais certeza que ele ia conseguir pódio. Seria muito otimismo meu pensar na vitória, mas pódio estava segura. Quando vi que ele estava na frente (durante a prova), a ansiedade foi lá em cima".
Lembrando dos 35 dias de separação durante os treinos e mais o período que o marido ficou nos Estados Unidos, Juliana garante que valeu a pena. "É difícil a gente se manter afastado por causa da rotina de treinos. Quando ele está treinando, tanto ele quando eu nos preparamos. E o inverso também. Mas desta vez foi diferente porque não consegui acompanhá-lo".
O treinamento de Marílson foi realizado em Campos do Jordão (SP), a 1.628m do nível do mar. Normalmente, ele treinaria na cidade de Paipa (2.600m), na Colômbia, para trabalhar em altitude. Mas por causa da lesão no pé, o técnico Adauto Domingues achou melhor manter o atleta no Brasil. "Se o problema se agravasse, ele poderia descer (para a capital paulista), fazer um tratamento e voltar. Lá fora seria mais complicado".
Juliana não o seguiu porque ainda tinha competições para disputar e não podia ficar muito tempo fora para não perder aulas – este ano ela se forma em educação física. De Campos, o marido ligava reclamando da saudade, dizendo que não ia aguentar. "O Marílson dizia: só vou conseguir se você me ajudar".
Era a hora da atleta Juliana fazer o seu papel e lembrar da importância dos projetos do casal. "Foi muito difícil, mas valeu a pena porque este é um objetivo meu e do Marílson".
Com o retorno do fundista ao Brasil, o casal ainda não pode verdadeiramente matar as saudades por causa do muitos compromissos que Marílson tem, mas Juliana garante que ainda vão festejar o reencontro. "Provavelmente com ele dormindo muito, porque me disse que só dormiu 2 horas". A comermoração vai incluir também muita massagem. "Ele já me pediu, porque disse que está todo dolorido. Mas carinho de atleta é isso mesmo", brinca Juliana.
Afastar-se daqueles que gosta não é novidade na carreira de Marílson, que saiu da casa dos pais aos 14 anos e veio para São Paulo para competir. "Não foi fácil porque sou muito caseiro e nunca tinha nem dormido fora de casa", lembra o corredor, que agradece o apoio recebido dos pais Cintia e Victor. "São meus torcedores número 1. Para eles foi difícil porque tive de sair de casa muito criança, mas sempre me apoiaram".
Retorno
Até aqui, todos os sacrifícios da família Gomes têm resultado em bom retorno. Além da premiação em dinheiro recebida por Marílson pelo título em Nova York, ele também recebeu do Pão de Açúcar, seu patrocinador, um ano de supermercado grátis em qualquer loja da rede.
A BM&F, que também patrocina o corredor, ainda não definiu se dará algum prêmio especial para Marílson. Mas a possibilidade não é difícil. Tradicionalmente, os atletas da equipe recebem uma barra de ouro a cada grande conquista. "Fazem isso para Jogos Olímpicos (desde Seul-88), Pan-americanos e São Silvestre", lembra o coordenador técnico da equipe Sérgio Coutinho.
Atletas que obtiveram desempenho significativo em outras competições também já receberam premiações especiais. Foi o caso de Fabiana Murer, do salto com vara, que bateu o recorde sul-americano da prova em setembro, durante o Troféu Brasil de Atletismo. Ela não levou ouro para casa, mas teve o salário reajustado em mais que o dobro, quando normalmente os aumentos são dados em janeiro.
"Até hoje ninguém nunca havia ganho a Maratona de Nova York, mas esta é uma decisão que deve ser tomada na próxima reunião do Conselho da BM&F", completa Coutinho.