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Marielle e outras dez mulheres são homenageadas em novas espécies de formigas

Além de Franco, outras dez mulheres, dois pesquisadores e o povo da etnia indígena wapicheri emprestam seu nome a formigas do gênero Hylomyrma

Por FolhaPress 08/12/2021 7h20

Ana Bottallo
São Paulo, SP

Marielle Franco vive. Pelo menos na entomologia, que é o estudo dos insetos. A vereadora, socióloga, ativista dos direitos LGBTQIA+ e das comunidades carentes, morta em 2018, acaba de ser homenageada com uma nova espécie de formiga brasileira.

Além de Franco, outras dez mulheres, dois pesquisadores e o povo da etnia indígena wapicheri emprestam seu nome a formigas do gênero Hylomyrma.

O artigo descrevendo as 14 novas espécies foi publicado em outubro na revista especializada Zootaxa. A autora é Mônica Ulysséa, entomóloga e pesquisadora do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. O trabalho, fruto da sua tese de doutorado, foi feito em conjunto com o seu orientador, Carlos Roberto Brandão, professor do mesmo instituto.

Para a homenagem, Ulysséa pensou em mulheres que “cada uma em sua área de atuação, lutaram para ocupar um lugar historicamente considerado como não seu”. “Escolhi homenagear mulheres que inclusive não são cientistas, para chamar atenção para todos os vieses de gênero na nossa sociedade”, explica.

Entre os nomes, se destacam Clarice Lispector, Dandara dos Palmares e a jogadora de futebol Formiga. O gênero Hylomyrma, antes conhecido para 16 espécies, agora possui 30, com distribuição desde o sul do México até o norte da Argentina.

No estudo, a pesquisadora mapeou características morfológicas dos bichos, como pelos e espinhos na cabeça, abdômen e tórax, as três partes do corpo de um inseto. Para conseguir separar e identificar cada espécie, ela avaliou 3.260 indivíduos.

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A área da biologia que identifica e classifica as espécies que compõem nossa biodiversidade é conhecida como taxonomia. Apesar da importância desses especialistas, o taxonomista é um profissional que está “sob risco de extinção”, afirma a bióloga.

“O baixo investimento de agências do governo ou de universidades, por ser considerada uma ciência de base, acaba dificultando o trabalho”, diz. Ela lembra que, diferente de outras áreas científicas consideradas mais “duras”, a taxonomia apresenta maior representatividade feminina no Brasil, pelo menos em alunas de graduação e pós-graduação.

Apesar de ter uma distribuição ampla, o gênero Hylomyrma era considerado raro, de difícil observação no campo. Por essa razão, se conhecia muito pouco da sua biologia.

Ulysséa, em seu trabalho, identificou uma característica única desse grupo de formigas: a presença de uma casta intermediária entre as operárias —estéreis, responsáveis por buscar comida e construir os formigueiros— e as rainhas —reprodutoras que passam a vida toda no ninho.

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A pesquisa encontrou operárias fêmeas com capacidade reprodutora em pelo menos onze espécies, indicando que essa descoberta não é tão incomum assim. Essas formigas unem traços tanto da operária quanto da rainha na morfologia. É algo que, agora, poderá ser melhor compreendido em campo, diz Ulysséa.

Veja os nomes das homenageadas em novas espécies de formigas

Hylomyrma adelae – Adela Zamudio (1854–1928), educadora, ensaísta, poeta e feminista nascida em Cochabamba, na Bolívia, se engajou na luta contra a discriminação às mulheres na América Latina, contra o racismo e também se opôs ao ensino religioso.

Hylomyrma dandarae – Dandara dos Palmares (?–1694), atuou na resistência contra escravidão e foi casada com Zumbi dos Palmares, com quem fez parte do Quilombo dos Palmares, o maior quilombo que existiu na América Latina, com cerca de 20 mil pessoas e um dos grandes símbolos de resistência dos escravizados.

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Hylomyrma jeronimae – Jerônima Mesquita (1880–1972), enfermeira e líder feminista brasileira. Nascida em Leopoldina (MG) no dia 30 de abril, data em que é comemorado o Dia Nacional da Mulher, devido à sua importância na luta contra a desigualdade de gênero. Fez parte do movimento sufragista nacional.

Hylomyrma lispectorae – Clarice Lispector (1920–1977), escritora, jornalista, poeta e um dos principais nomes da literatura brasileira.

Hylomyrma macielae – Miraildes Maciel Mota, a Formiga, jogadora de futebol baiana, é a única futebolista a ter participado de sete edições dos Jogos Olímpicos e de todas as edições da Copa do Mundo futebol feminino. É também lésbica e atua na defesa dos direitos da comunidade LGBTQIA+.

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Hylomyrma margardiae – Margarida Maria Alves (1933–1983), paraibana, foi a primeira mulher a se tornar líder sindicalista no país. Lutou pela defesa dos direitos humanos e dos trabalhadores rurais.

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Hylomyrma mariae – Maria do Espírito Santo da Silva (1956–2011), paraense, foi uma extrativista e ambientalista, reconhecida pela sua luta em prol da preservação da Amazônia, do extrativismo sustentável e da reforma agrária. Em 2011, ela e seu companheiro, José Cláudio da Silva, foram assassinados por seu ativismo, recebendo postumamente o prêmio de Heróis da Floresta pela ONU.

Hylomyrma marielleae – Marielle Franco (1979–2018), foi uma socióloga, vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL, defensora dos direitos humanos, da população LGBTQIA+ e atuava em prol dos moradores das comunidades cariocas. Foi assassinada a tiros na noite do dia 14 de março de 2018 junto ao seu motorista, Anderson Pedro Mathias Gomes, um crime até hoje sem resolução.

Hylomyrma mitiae – Mítia Heusi Silveira (1984–2010), bióloga formada na UFSC, era funcionária da Funai e amiga pessoal da autora. Mítia foi vítima de feminicídio em 2010, aos 26 anos, pelo seu ex-marido. Seu corpo foi encontrado em área do parque estadual do Rio Vermelho, próximo de Florianópolis (SC).

Hylomyrma primavesi – Ana Maria Primavesi (1920–2020), engenheira agrônoma austríaca radicada no Brasil, foi pioneira no estudo dos solos em florestas tropicais, em especial o manejo dos mesmos e agroecologia.

Hylomyrma virginiae – Virgínia Leone Bicudo (1910–2003) foi uma socióloga e paulistana pioneira nos seus estudos sobre relações raciais no Brasil. Foi também a primeira psicanalista não médica brasileira.

Hylomyrma wachiperi – A espécie Hylomyrma wachiperi ocorre na floresta amazônica peruana, região onde vive o povo da etnia indígena wachiperi.

Hylomyrma lopesi – Benedito Cortês Lopes, professor de ciências biológicas na Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc), apresentou à autora do estudo “o mundo encantador das formigas e da ciência”.

Hylomyrma peetersi – Christian Paul Peeters (1956–2020) foi um pesquisador belga que contribuiu para o conhecimento da biologia e morfologia das formigas.








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