JORGE COSME
FOLHAPRESS
A ex-empregada doméstica Mirtes Renata, mãe do menino Miguel Otávio, celebrou sua formatura no curso de direito no Recife no último sábado (28). Imagens mostram Mirtes sendo ovacionada ao entrar no salão da formatura segurando um quadro com a foto do filho.
Miguel Otávio Santana da Silva, 5, morreu após cair do nono andar de um edifício de luxo no Recife, em 2 de junho de 2020. Ele estava aos cuidados da então patroa de Mirtes, Sari Corte Real, que deixou o menino sozinho no elevador enquanto a mãe do menino passeava com a cadela dos patrões.
A bacharela em direito entrou na cerimônia acompanhada da mãe, da irmã e de duas amigas ao som da música “Maria, Maria”, composta por Milton Nascimento e Fernando Brant. A imagem de Miguel foi exibida em um telão.
“Essa trajetória no curso de direito não foi fácil. Em vários momentos eu pensei em desistir. E todas as vezes em que pensei nisso, lembrei por quem eu estava ali. Toda essa trajetória é para o meu filho”, diz Mirtes à Folha.
“Eu nunca pensei que pudesse chegar ali e que pudesse participar de uma formatura”, acrescenta ela. “Em parte, senti uma tristeza no peito, porque queria que meu filho estivesse ali, mas em outra parte eu estava feliz, por poder viver aquele momento com pessoas que acompanharam a minha trajetória.”
Mirtes conta que decidiu cursar direito para entender o processo contra a ex-patroa. “Eu percebi que a partir do momento que eu fiz o curso de direito, posso cobrar justiça pela morte do meu filho de uma forma mais qualificada”, comenta.
Ela apresentou o trabalho de conclusão de curso ainda em 2025. O estudo teve como tema “Trabalho escravo contemporâneo e direitos fundamentais: uma análise de proteção constitucional brasileira com foco nas trabalhadoras domésticas”.
Em publicação nas redes sociais, Mirtes disse que a cerimônia de formatura começa a escrever um novo capítulo em sua vida. Questionada sobre quais seriam esses próximos passos, a mulher diz que agora pretende buscar a aprovação na OAB.
“Quero começar a advogar e seguir com o propósito pelo qual também fiz o curso de direito, que é poder ajudar outras pessoas a não passar pelo que venho passando com o Judiciário pernambucano.”
A bacharela também diz na publicação que desceu a escada da formatura carregando, além do diploma, “história, dor, sonho luta e a saudade do amor da minha vida.” “Essa conquista é sua, meu filho, mamãe te ama!”, finaliza o texto.
PROCESSO
Sari foi condenada em primeiro grau a uma pena de oito anos e seis meses de prisão em regime fechado por abandono de incapaz com resultado morte. Posteriormente, o TJPE (Tribunal de Justiça de Pernambuco) reformou a sentença, reduzindo a pena para sete anos de prisão.
Em maio deste ano, o tribunal decidiu, por maioria de votos, rejeitar recurso apresentado pela defesa de Sari que pedia nova redução da pena. Ela responde em liberdade.
A mãe de Miguel tem feito críticas ao que chama de morosidade do Judiciário. “Os desembargadores só se movem quando a gente chega lá para cobrar”, diz.
“Isso é pesado, é violento, porque eu tenho que explicar a eles por que eu estou ali, relembrar tudo, e pedir que façam alguma coisa, mas eles sabem o que têm que fazer”, completa ela.
Segundo Mirtes, novos recursos foram apresentados ao tribunal após a decisão de maio. “São seis anos de processo já. É muito difícil.”
O Tribunal de Justiça de Pernambuco foi procurado, mas informou que não vai se manifestar.
Mãe do menino Miguel se forma em direito no Recife e homenageia filho em cerimônia
Mãe de menino que morreu após cair do nono andar de um edifício afirma que pretende usar a formação para continuar cobrando respostas da Justiça
Foto: Reprodução