No Rio de Janeiro, a linha de ônibus 474, que conecta o Largo do Jacaré, na Zona Norte, ao Posto 6 de Copacabana, na Zona Sul, serve como espelho das profundas fraturas sociais da metrópole. Essa rota de 22 quilômetros, percorrida em média 80 minutos e com 50 paradas, é o foco do livro ‘474: Jacaré/Copacabana’, lançado pela Subinfluencia Edições e escrito pelo arquiteto e urbanista Gabriel Weber.
A obra, com 127 páginas em formato de bolso, baseia-se em pesquisas de mestrado do autor na Universidade do Porto, em Portugal, premiada com o Viana de Lima na área de Arquitetura e Belas Artes. Weber, que atualmente cursa doutorado em programa conjunto com a Southern Methodist University, nos Estados Unidos, utilizou suas próprias experiências como passageiro, além de entrevistas com motoristas, despachantes e usuários, e acesso a grupos de WhatsApp de moradores de Copacabana, para compor o retrato.
Durante a semana, o ônibus transporta trabalhadores de bairros pobres da Zona Norte – outrora centros industriais, mas hoje em declínio – para empregos em serviços domésticos, comércio e lazer nas áreas centrais e nobres da Zona Sul. No entanto, aos fins de semana, quando usado para o ócio, a linha ganha fama de perigosa, associada a arruaças que viram manchetes.
O livro evita estigmas e romantizações, apresentando um ‘suco de Rio de Janeiro’ repleto de contrastes entre penúria e opulência, ordem e desordem. Weber descreve cenas de violência, como assaltos no interior do veículo, arrastões em paradas ricas, depredações, surf no teto do ônibus e até recepções hostis de moradores da Zona Sul, que organizam brigas via WhatsApp contra visitantes do Jacaré. Também aborda discriminação racial em revistas policiais e operações de segurança.
Em meio aos conflitos, a narrativa destaca momentos de solidariedade: camaradagem entre profissionais do transporte, códigos éticos informais contra roubos a pobres, o cansaço dos trabalhadores no retorno, o cuidado de mães com filhos e a alegria de famílias levando crianças à praia. Inclui mapas do trajeto e flagrantes que revelam a vitalidade da linha para o funcionamento da cidade, sem ignorar suas tensões sociorraciais. As informações foram retiradas da Agência Brasil.