LUCAS LEITE
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O desempenho dos estudantes brasileiros em língua portuguesa melhorou no Ideb 2025 (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), mas esse avanço nas notas não foi acompanhado por avanço nas habilidades de leitura. Os alunos ainda concluem a educação básica com dificuldades para interpretar textos mais complexos, identificar argumentos e ter uma leitura crítica.
O MEC (Ministério da Educação) divulgou nesta quarta-feira (5) o Ideb, que mede a qualidade da educação brasileira com base no desempenho dos estudantes nos anos iniciais e finais do ensino fundamental e no ensino médio.
Dados da prova do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), que compõem o Ideb, mostram alta das médias: de 213,89 para 229,34 nos anos iniciais, de 260,84 para 263,91 nos finais e de 276,91 para 280,49 no ensino médio.
Ainda assim, a escala de proficiência do Saeb indica que a maioria dos estudantes desenvolve apenas competências básicas de leitura, enquanto habilidades de interpretação, argumentação e análise crítica permanecem limitadas.
Para o professor Gilcinei Carvalho, doutor em linguística da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e vice-diretor do Ceale/UFMG (Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita Magda Soares), os resultados mostram uma evolução, mas não significam, por si só, que os estudantes tenham desenvolvido plenamente a leitura crítica.
“Ler criticamente é construir um ponto de vista sobre o que foi lido. Para isso, é preciso repertório e capacidade de relacionar o texto com outros conhecimentos”, afirma Carvalho.
Segundo o professor, essa habilidade é construída ao longo da escolarização e vai além das avaliações em larga escala.
Carvalho explica que os resultados do Ideb são importantes para orientar políticas públicas, mas devem ser interpretados com cautela. “Trata-se de um instrumento que apresenta suas possibilidades, mas também as suas lacunas”, afirma.
Para ele, avaliações em larga escala traçam um panorama, mas devem ser complementadas pelas feitas nas escolas para compreender o desempenho dos estudantes.
ANOS INICIAIS APRESENTAM A MAIOR EVOLUÇÃO NAS MÉDIAS
Nos anos iniciais do ensino fundamental, foi registrada a maior evolução em língua portuguesa entre as etapas avaliadas. O crescimento foi puxado pela rede pública, que avançou de 207,59, em 2023, para 215,09 pontos.
Nas escolas estaduais, a média subiu de 213,44 para 222,19 pontos, enquanto as municipais passaram de 208,87 para 215,51. Já a rede privada teve queda, passando de 242,17 para 237,87 pontos.
Os estudantes do 5º ano conseguem localizar informações explícitas, identificar o tema principal de textos curtos e inferir o significado de palavras pelo contexto.
Segundo Carvalho, essas competências representam um avanço esperado para essa etapa da escolarização. O pesquisador ressalta que esse desempenho também pode refletir fatores como políticas de incentivo à leitura, ampliação do acesso aos livros e formação continuada de professores.
LEITURA CRÍTICA CONTINUA SENDO DESAFIO NO FINAL DO ENSINO FUNDAMENTAL
Segundo os dados, o avanço nessa etapa foi menor em comparação com os anos iniciais. O crescimento ocorreu tanto na rede estadual de 255,88 para 260,10 pontos quanto na municipal de 252,80 para 255,47. Na rede privada, o resultado permaneceu estável, passando de 290,22 para 288,92 pontos.
Os estudantes conseguem interpretar textos que combinam linguagem verbal e não verbal, identificar o tema principal e compreender elementos de coesão textual. Ainda têm dificuldade para reconhecer a tese de um texto argumentativo, distinguir argumentos principais dos secundários, comparar opiniões divergentes e identificar efeitos de ironia e humor.
O professor da UFMG explica que compreender textos argumentativos exige habilidades que vão além da interpretação literal. “A leitura crítica depende de acionar outros textos, construir repertório e sustentar um posicionamento com argumentos.”
Segundo Carvalho, reconhecer ironias, comparar opiniões e identificar sentidos exige diferentes conhecimentos e se desenvolve na formação do leitor.
LACUNA NO ENSINO MÉDIO
O principal desafio aparece no ensino médio, em que a diferença entre as redes permanece superior a 41 pontos.
Na rede pública, responsável pela maior parte das matrículas dessa etapa, o desempenho passou de 270,22 para 273,61 pontos. Já na rede privada, a média permaneceu praticamente estável, variando de 314 para 314,77 pontos.
Os estudantes localizam informações e interpretam textos simples, mas concluem a educação básica sem dominar competências para o ensino superior, como identificar teses, analisar persuasão, sintetizar fontes e reconhecer recursos de convencimento.
Carvalho afirma que os resultados levantam questões sobre a leitura, mas diz ser precipitado atribuir as diferenças só a estudantes ou redes. Segundo ele, fatores como os projetos pedagógicos das escolas, o acesso à leitura e os objetivos da própria avaliação também ajudam a explicar os resultados observados.