TULIO KRUSE E MARCO ANTÔNIO CARVALHO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O juiz Paulo Fernando Deroma de Mello, que ordenou a prisão da delegada Layla Lima Ayub, ligada ao PCC, classificou como “ousadia absurda e um total deboche das autoridades públicas” a ida do namorado da policial à cerimônia que a empossou no cargo público. Segundo a investigação, Jardel Neto Pereira da Cruz, integrante da facção, esteve no evento em 19 de dezembro do ano passado no Palácio dos Bandeirantes, onde a posse foi formalizada perante as autoridades do governo estadual.
O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o secretário da Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, discursaram diante dos novos policiais na oportunidade.
A decisão do magistrado da 2ª Vara de Crimes Tributários, organização criminosa e lavagem de bens e valores da capital foi assinada nesta quinta-feira (15) e cumprida nesta sexta-feira (16). Layla e Jardel foram presos temporariamente. A reportagem não localizou o responsável por realizar a defesa jurídica do casal.
“De fato, se comprovado que o PCC arregimentou a investigada para passar em um concurso público de delegado de polícia, sobretudo no estado mais populoso e com o maior quadro de policiais do país, pode-se afirmar, sem qualquer dúvida, se já nos tornamos um narcoestado, estamos a poucos passos para isso”, escreveu Mello ao analisar as evidências apresentadas pela investigação policial.
O juiz pontuou que é necessário aprofundar a apuração para delinear a atuação da delegada e a sua conexão com o crime organizado. “Lógico que é necessário o aprofundamento das investigações. Mas os indícios são mais do que veementes, com gravações, termos de audiência, fotografias, dentre outros elementos”, acrescentou.
Para ele, o contexto apresentado pelo caso fez com a “lenda” de que o crime organizado estaria buscando infiltração no Estado perdesse esse caráter fantasioso para se mostrar uma estratégia efetiva “para influir diretamente nas decisões mais importantes do país”.
As evidências apresentadas à Justiça fez com que o magistrado expedisse mandados de prisão temporária de 30 dias contra Layla e Jardel, além de mandados de busca em endereços que incluíram até a Academia de Polícia (Acadepol), no Butantã, na zona oeste, onde os policiais empossados passam pelo treinamento antes de assumirem suas funções públicas.
Jardel, segundo a decisão, descumpriu os termos de um livramento condicional a que estava submetido. Já a delegada estava atuando como advogada mesmo após a sua posse como funcionária pública. Contra a dupla, de acordo com o informado na decisão judicial, existem ainda indícios de aquisição de uma padaria destinada supostamente à prática de lavagem de dinheiro.