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Brasil

Fronteira entre Brasil e Venezuela vive clima de espera cautelosa

O opositor se declara presidente legítimo da Venezuela e o vencedor de fato do pleito de julho de 2024.

Redação Jornal de Brasília

06/01/2026 23h55

brasil venezuela fronteira

Foto: Nelson Almeida/AFP

GUILHERME BOTACINI
SANTA ELENA DE UAIRÉN, VENEZUELA (FOLHAPRESS)

“É tempo de lealdade; duvidar é traição”, diz um letreiro no lado venezuelano do posto de fronteira com Pacaraima (RR). À frente, logo ao lado da passagem de carros pouco fiscalizada, um cartaz de cerca de 2 metros de altura traz a fotografia de Edmundo González e a frase “estamos te procurando”.


O opositor se declara presidente legítimo da Venezuela e o vencedor de fato do pleito de julho de 2024. Na ocasião, a ditadura oficializou Nicolás Maduro para um terceiro mandato a despeito de denúncias de fraude feitas pela oposição e observadores internacionais.


A reportagem foi orientada a não fotografar o cartaz para evitar estranhamentos com os militares do posto.


Maduro foi capturado pelos EUA após ataque no sábado (3), e González vive no exílio, ainda em meio à grande incerteza quanto ao futuro do poder na Venezuela, liderada interinamente por Delcy Rodríguez.


A frase do letreiro na fronteira não parece de instalação recente, mas é simbólica para o momento: venezuelanos do lado brasileiro -os que se dispõem a falar, ainda que pouco, sobre a situação política do país- especualm se a queda do ditador se deveu ao fato de ele ter sido entregue por autoridades próximas, entre eles a própria Delcy e seu irmão, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional.


Quatro militares das Forças Armadas venezuelanas fiscalizavam a entrada do país, ao lado de duas agentes migratórias, nesta terça. O carro da reportagem não foi parado. Não foi possível fazer imagens do posto de fronteira, onde estava o cartaz de “procura-se” com a foto de González.


Cerca de 15 km separam os postos de fronteira da cidade de Santa Elena de Uairén. Nesse percurso, há o Forte Roraima, quartel do Exército, e passa-se por um antigo duty free desativado, mercados, quitandas e hotéis como o Anaconda e o Gran Sabana, que também tem um cassino.


O centro da cidade estava repleto de moradores e vendedores ambulantes nesta terça. Caminhonetes eram carregadas com materiais de todo tipo, e o comércio estava todo aberto, um cenário muito diferente do domingo, quando a reportagem também visitou a cidade venezuelana e havia poucas pessoas na rua.


Não parecia haver reforço militar pela cidade, que faz parte do município de Gran Sabana (na Venezuela, os estados são divididos em municípios, e a cidade de Santa Elena é a capital do município de Gran Sabana, 1 dos 11 do estado de Bolívar). Na frente de um destacamento da Guarda Nacional, no encontro das ruas Mariscal Sucre e Bolívar, a reportagem avistou apenas um veículo militar.


Havia bastante movimento no terminal rodoviário de Santa Elena, o que indica presença de venezuelanos de todo o país que, possivelmente, cruzarão a fronteira. Ali, a reportagem encontrou um homem que fazia câmbio e trocou R$ 5 reais por 500 bolívares, o valor da troca nesta terça -os produtos dos mercados na fronteira são todos etiquetados em reais.


Segundo um trabalhador de agências de viação do local, o movimento estava grande, mas nenhum ônibus de Caracas havia chegado até por volta do meio-dia. A expectativa dele era que isso acontecesse durante a noite. Ele afirma que a rodoviária contou 90 carros deixando a rodoviária até a fronteira nesta terça -não é possível afirmar quantos dos passageiros são migrantes ou solicitantes de refúgio.


No lado brasileiro da divisa, o movimento também existe, mas está abaixo do registrado em dezembro. Segundo a Polícia Federal, o último mês de 2025 recebeu média de 280 migrantes por dia; de domingo a segunda, foram 259.


Ainda é cedo para dizer se o fluxo vai aumentar. Talvez por receio de falar sobre o assunto ou por desconhecimento de fato, a incerteza sobre a situação política é a única constante em conversas com migrantes e venezuelanos moradores da fronteira.


Nestor Urvina, 54, que conversou com a reportagem na segunda-feira, estava em uma das filas da Operação Acolhida nesta terça. Ele vem de Puerto la Cruz, no litoral, a 1.000 km da fronteira.


No primeiro dia útil da semana, ele estava na primeira das filas, onde ele fez um primeiro registro na Polícia Federal e seguiu para receber um cartão do SUS e vacinas. Nesta terça, ele já ingressou na base da Operação com os primeiros papéis em mãos. “Mais um passo. Se Deus quiser, vai dar tudo certo”, disse.

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