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Fala de esposa de sócio da Kiss leva familiares a deixarem o júri

A esposa de Spohr, Nathalia Daronch, 31, que estava grávida na época da tragédia e diz que chegou a ser internada por intoxicação pela fumaça, contou ao final do depoimento que as filhas, de 8 e 5 anos, questionaram se o pai voltaria para casa

Por FolhaPress 06/12/2021 10h31
Santa Maria (RS) – Um ano do incêncio na Boate Kiss durante show na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013. Entrada da boate (Wilson Dias/Agência Brasil/Arquivo)

FERNANDA CANOFRE

Três familiares de réus acusados pelas mortes e tentativas de homicídio ocorridas na boate Kiss, em 27 de janeiro de 2013, falaram diante do júri nesta segunda-feira (6), sexto dia do júri que acontece em Porto Alegre (RS).

Quatro réus respondem por homicídio e tentativa de homicídio simples por dolo eventual –os sócios, Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann, e os integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos (vocalista) e Luciano Bonilha (assistente de palco).

A esposa de Spohr, Nathalia Daronch, 31, que estava grávida na época da tragédia e diz que chegou a ser internada por intoxicação pela fumaça, contou ao final do depoimento que as filhas, de 8 e 5 anos, questionaram se o pai voltaria para casa.

“Elas me disseram: mãe, traz o pai de volta para casa. E eu não podia responder que sim ou que não, porque não sei a resposta disso”, disse, chorando.

“Ela me disse: mãe, o pai vai passar o Natal com a gente? Eu disse, não sei. Acho que isso resume o pai que o Kiko é e que tirar ele de casa seria muito difícil para elas. A gente precisou contar tudo o que aconteceu”.

A fala levou pais que perderam filhos na tragédia –ao todo, 242 pessoas morreram– a deixar o salão do júri. Eles não podem se manifestar para evitar qualquer influência sobre os jurados.

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“É um direito dela colocar essa situação. Ao mesmo tempo, é um direito nosso não querer ouvir. Assim como ela está sentindo a falta, eu até entendo, mas se põe no nosso lugar. Nós não temos mais Natal, aniversários, nenhum momento com eles. Isso foi bem difícil, por isso nos levantamos”, conta Áurea Flores, 57, mãe que perdeu o filho Luiz Eduardo, que tinha 24 anos.

Ela estava entre os poucos familiares que seguiram acompanhando o sexto dia do julgamento. “Eu quero ouvir, acho que, com tudo o que a gente passou, a gente tem que acompanhar bem, tentar entender. Eu gosto de estar presente, não gosto de ouvir por outros”, disse.

Além de Nathália, o sobrinho de Spohr, Willian Renato Machado, 27, também falou nesta segunda –ele trabalhava na boate, assim como outros familiares, segundo os depoimentos.

Os dois pediram ainda para não ver vídeos e imagens ligadas ao caso, que seriam apresentados pelo Ministério Público. O sobrinho não quis responder onde trabalha atualmente. Ele disse ainda que a família teve medo de ir a velórios de vítimas conhecidas.

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“Não teve como, a gente até tinha vontade, minha mãe, principalmente, que tinha um contato muito próximo dos funcionários. A gente não sabia qual seria a reação das pessoas, preferiu evitar por alguma represália. A gente tinha medo do que poderia acontecer”, respondeu William ao questionamento do juiz Orlando Faccini Neto.

Os dois prestaram depoimento como vítimas. Eles responderam sobre as reformas na boate para resolver problemas de barulho, que levou à instalação da espuma, que nunca viram shows pirotécnicos no local e sobre a lotação da casa.

O terceiro familiar a falar nesta segunda foi Márcio André de Jesus dos Santos, 45, irmão de Marcelo, na época, também integrante da banda Gurizada Fandangueira, e que estava no local da tragédia. Ele contou como ajudou o irmão a sair da boate.

Márcio afirmou que Spohr sabia que a banda usaria o artefato pirotécnico e que ele já havia sido usado pela banda em outras ocasiões, assim como viu outros grupos fazerem o mesmo. “Bandas de renome, aqui de Porto Alegre, usavam, e bandas mais humildes. Era um diferencial das bandas e da Gurizada também”, afirmou ele, que era o percussionista da banda.

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“Meu irmão e o Luciano não quiseram matar ninguém lá, nós estávamos trabalhando. Se eu disser para os pais que estão aqui que entendo a dor deles, estou mentindo. Eu entendo a nossa dor”, disse ele, citando o impacto da tragédia na família e a perda de Danilo, gaiteiro do grupo.

O júri pelas mortes ocorridas na boate Kiss acontece em Porto Alegre desde a última quarta-feira (1º). Um pedido de defesas dos réus pediu o desaforamento, questionando as condições de um júri imparcial em Santa Maria.

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