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Brasil

Estudante espancado na UFRJ diz temer retorno ao campus, e universidade vive pressão

Universidade afirma que instaurou uma sindicância para apurar o caso e identificar eventuais responsabilidades

Redação Jornal de Brasília

01/09/2026 17h35

estudante agredido na ufrj

Foto: Reprodução/Redes sociais

YURI EIRAS
FOLHAPRESS


Diego Costa da Silva Araujo, 27, estudante de história espancado por outros alunos no campus de filosofia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), afirma temer voltar ao local onde foi agredido há uma semana, no último dia 25, e diz que teve a trajetória acadêmica interrompida pelo episódio.

O caso colocou a diretoria da universidade sob tensão. Questionada sobre as consequências do episódio, a UFRJ tem respondido que instaurou uma sindicância para apurar o caso e identificar eventuais responsabilidades. Diz que não vai se antecipar sobre possíveis sanções.

Internamente, tenta criar cartilhas para que servidores possam conter eventuais situações semelhantes. O caso também é investigado pela Polícia Civil.

Estudante do décimo período, Araujo assistia a uma aula no Ifcs (Instituto de Filosofia e Ciência Sociais) quando foi abordado, retirado da sala e agredido coletivamente por outros alunos. Eles o acusavam de apologia do nazismo.

Araujo vestia uma camiseta da banda britânica de pós-punk Death in June, com a estampa de uma caveira similar à Totenkopf, o símbolo usado por tropas nazistas na Segunda Guerra Mundial. Na jaqueta, o estudante exibia um broche antinazista —uma suástica riscada em vermelho na diagonal.

Os alunos que o acusaram interromperam a aula e o abordaram. Araujo diz que tentou explicar que a camiseta representava a subversão dos símbolos autoritários e que o botão junto à jaqueta deixava claro que ele não era nazista. Retirado para fora, como mostram vídeos gravados por alunos, Araujo foi agredido por pelo menos uma dezena de pessoas nas dependências da faculdade e fora do campus.

“Caí numa armadilha”, diz Araujo à Folha, “porque disseram para mim que havia uma viatura e um policial fora do prédio me esperando, e que me conduziriam à delegacia. Eu colaboro naquele momento porque acredito que não estou cometendo delito. Conseguiria conversar com os responsáveis da lei”, conta.

Ele afirma que a professora que ministrava a aula não interrompeu a abordagem e as agressões, e não impediu a entrada dos alunos. A reportagem enviou um email à professora com perguntas sobre o episódio, mas não houve resposta.

Araujo diz também que nenhum outro aluno que acompanhava a aula o defendeu. Laudo do exame de corpo de delito no IML (Instituto Médico Legal) aponta que ele sofreu lesões na cabeça, coxas e joelhos.

Araujo negou à Folha compartilhar ideais nazistas ou fascistas. Ele afirma se identificar com teóricos de esquerda e que tem como objeto de estudo a iconografia —o uso de símbolos e imagens por movimentos sociais e políticos. Ele considera que o episódio em que foi envolvido é reflexo de radicalismos e de negação ao debate e à pluralidade de ideias.

“As pessoas estão tratando assuntos acadêmicos e políticos como se fosse um espetáculo. É como se eu não pudesse ler Olavo de Carvalho, por exemplo, ou algum ou outro autor que vai contra as minhas ideias, para conhecê-lo e criticá-lo. Para eles, tenho que escolher um lado, mas não vejo a sociedade dessa forma. A gente não vive no mundo maniqueísta”, afirma.

ESTUDANTES FAZEM MANIFESTAÇÃO E MANTÊM ACUSAÇÃO

Estudantes da UFRJ identificados com os centros acadêmicos de história e ciências sociais, contudo, não recuaram da acusação de que Diego Araujo fez apologia do nazismo.

Nesta terça-feira (1º), eles fizeram um ato em frente ao campus, no centro do Rio, contra o que chamaram de ameaças nazifascistas. Um movimento de docentes da UFRJ publicou nota na internet, com a assinatura de quase uma centena de professores, em que o estudante é chamado de neonazista.

Os dois lados —o do estudante agredido e o dos que defendem que houve apologia— dizem não ter sido acolhidos pela universidade.

“A gente considera que houve apologia do nazismo, o que é uma agressão a todos os corpos que foram exterminados e aniquilados por esse regime”, diz Yuri Anekya, representante do Cacs (Centro Acadêmico de Ciências Sociais).

Anekya diz que o prédio do Ifcs tem histórico de invasões de representantes da extrema direita, e que por isso houve mobilização de estudantes de diferentes cursos.

“Não teve nenhuma intervenção de qualquer servidor, inclusive por isso a gente tem reforçado a necessidade de um protocolo. Havia somente um segurança”, diz Anekya.

O Ifcs, instituto onde houve a agressão, compilou em uma cartilha regras para situações de conflito. A orientação impede que professores e estudantes façam con tenção física ou condução à força de pessoas para fora do campus. Diz que a retirada de pessoas de um prédio público deve ser solicitada se tiver fundamento objetivo, como risco à segurança ou perturbação da ordem.

A diretoria da ADUFRJ (Associação de Docentes da UFRJ), principal representante do corpo docente da universidade, assinou nota na segunda (31) em que diz ser contra “o uso de qualquer modalidade de coação, provocação, agressão verbal, lesão”, e admite que há “proliferação de interpretações divergentes” sobre as responsabilidades em relação à agressão física contra o estudante.

Os estudantes que participaram das agressões afirmam que Diego Araujo proferiu injúria racial contra Deivid Lima, estudante de direito que deu a ele voz de prisão na sala de aula por apologia do nazismo.
Lima afirmou à Folha ter sido chamado de “macaco” e agredido com puxões no cabelo. Araujo nega a injúria e diz ter se defendido do espancamento.

“Sofri três tentativas de homicídio, duas dentro de um prédio federal”, diz o estudante.

“Eu gostaria de voltar àquele espaço. É um ambiente que até então eu gostava, apesar dos pesares. Mas eu não me vejo no futuro conseguindo voltar a frequentar aquele prédio. Não só pelo estigma que eu vou carregar, mas principalmente por temer pela minha vida.”

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