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Emoção e choro marcam início da imunização de crianças em São Paulo

Para os pais que levaram os filhos para serem imunizados, isso representa um avanço diante de tantas internações

Foto: Agência Brasil

Toda vez que o Kelvin chora, a mãe, Alcimara, interrompe o que está fazendo para acudi-lo. Como ele não anda, não fala e sofre com graves problemas respiratórios, o menino de 7 anos chora para sinalizar que não está bem. Nesta segunda-feira, 17, porém, foi diferente: a dona de casa deixou o filho único chorar à vontade na UBS Jardim Aeroporto, zona sul de São Paulo. Depois que ele tomou a primeira dose da vacina contra o novo coronavírus, a mãe até sorriu com o canto da boca e disse que estava realizando um sonho.

Esse paradoxo (mães quase alegres enquanto os filhos choram) e outro ainda (pais que choram no lugar dos filhos após a agulhada) foram cenas que se multiplicaram nos postos de saúde na capital paulista. A prefeitura iniciou ontem oficialmente a vacinação das crianças de 5 a 11 anos com comorbidades ou deficiência permanente (física, sensorial ou intelectual). A imunização também está disponível para crianças indígenas aldeadas da mesma faixa etária.

No primeiro dia da campanha, pais e mães não encontraram grandes filas nos postos de saúde visitados pelo Estadão. Era só chegar, apresentar a documentação e tomar a vacina. Profissionais de saúde classificaram o movimento como “fraco”.

Na UBS Jardim Aeroporto, apenas três crianças haviam tomado a vacina até as 11h. O movimento foi semelhante na UBS Chácara Santo Antonio. Ali, a procura foi maior nas primeiras horas do dia: foram cinco crianças antes das 10h. Depois, só adultos. “Como esta primeira fase é voltada apenas para crianças com comorbidades, a procura é menor. Mas vai ficar lotado quando abrir para todo o mundo”, opina uma funcionária do posto.

Sonho realizado

Para os pais que levaram os filhos para serem imunizados, isso representa um avanço diante de tantas internações, idas e vindas ao médico e uma luta incansável para fugir do choro. Menos no dia da vacina. “Durante dois anos, sonhei com a vacina. Já foram sete internações, muitas consultas e exames e muito sacrifício para ele ficar bem. Agora, estou aliviada”, diz Alcimara, que mostra na mochila duas pastas cheias de exames e prontuários.

A imunização é uma preocupação a menos da dona de casa, que deixou o trabalho de empregada doméstica para cuidar o tempo todo do filho. Ela recebe um benefício de cerca de R$ 1.100 do INSS, mas o dinheiro é contado. Kelvin usa fraldas, toma mamadeira e precisa de cremes especiais para um problema de pele sensível. A cadeira de rodas foi dada pela prefeitura depois de um ano de espera. “Eu tomei as três doses, mas fiquei esperando a vez dele”, afirma a mãe do menino, que mora na zona sul.

Famílias que tiveram perdas causadas pela covid-19 percebem a vacina de uma maneira ainda mais especial. O analista de TI Philippe Assayag, de 37 anos, perdeu o sogro, José Carlos, e a mãe, Maria Cândida, durante a pandemia. Por isso, ele se sentia mais ansioso à medida que chegava a vez de cada pessoa da família – ele próprio, a mulher e a enteada Laís, de 13 anos. Ontem, foi a vez do enteado Daniel Freire, de 9, que tem uma grave dermatite. “Eu me vacinei pouco depois do que aconteceu. A expectativa era grande. Agora, percebo que a gente consegue controlar, mas a emoção ainda é grande.” O pequeno Daniel diz que a agulhada não doeu e que achou legal tomar a vacina.

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Algumas crianças não têm pai e mãe para compartilhar esse momento. É o caso de Eloá Silva Oliveira, de 10 anos. Com paralisia cerebral, ela é uma das 186 crianças a receber tratamento integral no Hospital Cruz Verde, referência na área. Ela foi a primeira imunizada na campanha oficial da prefeitura. Não chorou e tentou até sorrir. Na falta da família, as enfermeiras trataram de ampará-la na hora da picada.

Na mesma situação, Bryan Miguel Costa, de 5 anos, gostou tanto dos aplausos, que devolveu na mesma moeda e aplaudiu a plateia de médicos e jornalistas.

Estadão Conteúdo

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