GUSTAVO GONÇALVES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
“Sapere aude” ( ou “ouse saber”). É com a frase do filósofo Immanuel Kant que Caio Braga, 18, resume sua filosofia de estudo. Mesmo sem cronograma fixo ou horas cronometradas, o estudante alcançou a nota mil na redação do Enem 2025, resultado almejado por milhões de candidatos. O método, segundo ele, foi transformar o ato de lecionar em forma de preparação.
Durante 2025, o estudante de ciência da computação da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) passou o ano orientando outros vestibulandos no Colégio Núcleo, no Recife, onde estudou no ensino médio. A rotina manteve viva a familiaridade com a prova. “Eu nunca deixei de estar vivendo isso, porque trabalhava diariamente com os alunos”, diz.
O resultado veio na sexta-feira (16), quando o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) divulgou as notas do Enem 2025. A reportagem conversou com três estudantes que atingiram a pontuação máxima na redação, com dois do Recife e uma aluna do Rio de Janeiro. Cerca de 3,3 milhões fizeram os dois dias de prova no ano passado.
Na redação, Caio reservou de cinco a dez minutos para planejar o texto antes de iniciar o rascunho, sobre o tema “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”. Ele usou o livro “O Caraíba”, do escritor indígena Daniel Munduruku, para tratar da valorização dos idosos entre povos originários; citou a Lei do Sexagenários, de 1885, para discutir o envelhecimento como um falso privilégio no Brasil escravocrata; e recorreu ao filme “Vitória”, protagonizado por Fernanda Montenegro, para apresentar a figura da idosa como agente ativa da própria vida.
“Soube trazer três elementos diferentes da cultura brasileira de um jeito que dialogavam entre si e apresentavam ideias distintas dentro do tema”, afirma. Antes da nota mil, sua maior pontuação na redação havia sido 920, no Enem 2024, resultado que garantiu sua vaga na UFPE. Caio diz que o fato de a pressão não estar sobre sua redação foi importante para a nota máxima. Como já está na universidade, ele se sentiu mais calmo.
O interesse pelo ensino vem da família. A mãe e as duas avós foram professoras. “Dar aula é uma virtude e um privilégio. É uma das formas em que você mais aprende, porque precisa saber transmitir”, afirma.
Como monitor, Caio critica o uso de modelos prontos de redação e diz que a repetição de fórmulas compromete o raciocínio. Para ele, a preparação deve priorizar leitura, compreensão de texto e o domínio efetivo da linguagem. “Quem usa modelo pronto se priva de pensar e de entender as coisas com profundidade”, afirma.
O outro pernambucano com nota mil é Wellington Ribeiro, 19. Quando o Inep liberou os resultados, no início da madrugada, ele acordou a família inteira e passou horas comemorando. “Foi cansativo, mas espetacular”, resume.
Na redação, o recifense usou referências variadas para discutir o tema. Citou o conto “Feliz Aniversário”, de Clarice Lispector; a Lei dos Sexagenários; e o pensamento do sociólogo Ruy Braga, para apontar a falta de políticas e campanhas eficazes sobre o envelhecimento no país.
Wellington não seguiu métodos milagrosos, mas apostou no que chama de “feijão com arroz” da preparação para o vestibular: a constância. Fazia simulados semanais para treinar o tempo e o conteúdo de todas as áreas do conhecimento. “Aprender que redação é um processo é entender que envolve erro, paciência e persistência. Quando você acredita no processo, tudo fica mais fácil”, afirma. Agora, ele sonha em cursar direito na UFPE.
A família teve papel importante na conquista. O pai, que também se chama Wellington, compartilha com o filho o gosto pela escrita e mantém um blog sobre política. “Acho que é um dom que foi passado geneticamente. Meu pai sempre teve esse prazer em escrever e argumentar. Herdei isso dele”, diz o estudante.
Além da influência familiar, o apoio da professora Fernanda Pessoa, com quem estuda há três anos, também foi decisivo. “Ela ensina muito mais do que redação. Ensina a crescer como ser humano. Com ela, a gente aprende literatura de verdade”, afirma.
Uma hora depois de Wellington, foi a vez da carioca Maria Clara Cunha, 18, descobrir o próprio mil. À 1h, enquanto conversava com o namorado, ela viu a nota na tela. “Achei que a nota ia sumir dali porque eu não estava conseguindo acreditar. Olhei 30 mil vezes aquele mil”, conta, rindo.
Aluna do Colégio e Curso pH, no Rio de Janeiro, Maria enfrentou um ano difícil, marcado pela descoberta de que tem TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) e pela adaptação da rotina de estudos. “Antes, eu achava minha rotina muito bagunçada. Quando recebi o diagnóstico, comecei a entender o que funcionava pra mim. Aprendi que ficar 12 horas estudando trancada não dá certo. Preciso de pausas, de um café, de conversar com as amigas.”
O tema da redação a deixou insegura no início. “Fugiu do padrão de ‘desafios’ ou ‘problemas’ que eu costumava treinar”, lembra. Mas logo encontrou uma abordagem original: uniu o filme “A Substância”, de terror, ao contexto histórico do Segundo Reinado, citando os retratos envelhecidos de dom Pedro 2º como símbolo de sabedoria e autoridade.
“As pessoas não querem envelhecer. Por que ser idoso é considerado feio? Usei o filme pra falar sobre o medo de envelhecer e a pressão estética”, explica.
Além das referências culturais, Maria discutiu o olhar produtivista do capitalismo, segundo o qual o idoso é visto como “inútil” por não atender às exigências do mercado.
A nota mil veio pouco depois da aprovação que mais desejava, uma vaga em direito na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). “Escolhi o curso por vontade própria. Sempre me interessei pela forma como o direito lida com argumentação e com o raciocínio lógico. Acho que combina comigo”, afirma.
Defensora da escrita livre, ela rejeita modelos prontos de redação. “Eu nunca gostei daquela coisa mecanizada. Acho que formato pronto limita quem quer escrever bem. Escrever tem que ser fluido, como num livro ou jornal. Você precisa sair da caixinha”, diz