Na noite de 5 de novembro de 2015, Mirella Regina de Sant’Ana, então com 17 anos, estava na escola em Mariana (MG) quando soube do rompimento da barragem de Fundão. A lama tóxica invadiu rapidamente sua casa em Ponte do Gama, zona rural da cidade, forçando a família a fugir às pressas. No dia seguinte, ela reencontrou a mãe e viu sua residência submersa, misturando telhado e memórias ao marrom espesso do desastre.
Dez anos depois, aos 28 anos, Mirella transformou a perda em militância. Integrante da Comissão de Atingidos pela Barragem de Fundão, ela participa de audiências judiciais e negociações para garantir reparação justa às comunidades rurais, frequentemente invisibilizadas. Criada em uma área próxima à barragem, a mudança forçada para a sede de Mariana introduziu termos como cadastro, indenização e audiência em sua vida. Aos 19 anos, ingressou na comissão, percorrendo reuniões e fóruns para defender o modo de viver das pequenas comunidades.
“Não foi só a casa. A lama varreu o nosso modo de viver”, defendeu Mirella, destacando a relação com o território e a escolha de vida das pessoas afetadas. Atualmente, estuda serviço social em Ouro Preto (MG), uma escolha motivada pela compreensão do trauma como questão coletiva de direitos.
Recentemente, Mirella participou do 1º Encontro Regional do Programa de Fortalecimento do Sistema Único de Assistência Social (ProFort-SUAS) no Rio Doce, em Ouro Preto. O evento reuniu gestores, trabalhadores do SUAS e atingidos de 15 municípios. A iniciativa prevê R$ 640 milhões em 20 anos para 49 municípios de Minas Gerais e Espírito Santo impactados pelo desastre, com foco na população vulnerabilizada. A primeira parcela de R$ 25 milhões foi repassada em 2025.
Para Mirella, o programa marca a reparação como política pública permanente. “A assistência social não é assistencialismo. É proteção. É direito garantido”, afirmou, citando as palavras do secretário André Quintão, do Ministério do Desenvolvimento Social. O rompimento afetou cerca de 2,3 milhões de pessoas nos dois estados, aprofundando desigualdades e vulnerabilidades.
Ao refletir sobre o futuro, Mirella hesita. A tragédia levou sua adolescência e parte de sua identidade. “Aquela Mirella dos 17 anos não existe mais. Eu tive que amadurecer no meio desse processo doloroso”, disse. Ainda assim, a esperança persiste. “Metade da minha vida já foi marcada por essa luta. O horizonte maior é sempre a reparação justa. E é por isso que nós vamos seguir lutando”, finalizou.
*Com informações do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome