A prisão do filho mais novo de Al Gore serviu para evidenciar até que ponto o vício em remédios entre os jovens americanos está substituindo as drogas vendidas nas ruas. A prisão de Al Gore III, pilule filho do ex-vice-presidente dos EUA, ocorrida na última quarta-feira, quando a polícia o parou por excesso de velocidade e encontrou com ele uma pequena quantidade de maconha e de remédios controlados, pode fazer algo mais que encher as páginas das revistas de fofocas.
Por enquanto, colocou em evidência uma questão cada vez mais preocupante: a substituição das drogas compradas nas ruas por remédios vendidos com receita médica, obtida pelos jovens através de amigos, familiares ou pela internet.
Entre os mais populares estão os remédios que a polícia encontrou com Al Gore III, de 24 anos: o analgésico Vicodin, o tranqüilizante Xanax, o tranqüilizante Valium e a anfetamina Adderall, para tratar dos problemas de déficit de atenção.
“Não me estranharia se, neste momento, houvesse mais jovens que abusam de remédios que necessitam de prescrição médica do que de maconha”, disse à rede “CNN” Joseph Califano, presidente do Centro Nacional de Dependência e Abuso de Substâncias, da Universidade de Columbia.
É a mesma opinião que os especialistas consultados têm. “Parece que estão substituindo as drogas de rua, porque (os remédios) são adquiridos com muita facilidade”, afirma Doug Thorburn, autor de quatro livros sobre vício em álcool e outras substâncias.
Já para Carol J. Boyd, diretora do Instituto de Pesquisa da Mulher, da Universidade de Michigan, e especialista em problemas de consumo de remédios entre adolescentes, “o uso não médico de remédios contra a dor é o tipo de abuso de drogas mais freqüente entre a juventude de hoje”.
A pesquisadora, mãe de dois jovens de 17 e 21 anos, acredita que não é apropriado descrever o problema como uma substituição, já que os adolescentes que consomem remédios também utilizam maconha e álcool.
Boyd fez perguntas sobre o assunto, fornecidas pela Efe, a um de seus “informantes” – um jovem de 18 anos que começará a universidade este ano e que prefere manter-se no anonimato. O informante afirmou que o jovem “toma Xanax antes de fumar erva” e que “maconha é para uso social, enquanto o Xanax acalma”.
Alguns utilizam o medicamento como droga, outros para tratamentos, afirma Boyd. A pesquisadora destaca vários fatores que ajudam a compreender o problema: a impressão de que os remédios são mais seguros, a facilidade em obter informações pela internet, a disponibilidade de muitos remédios, o papel dos pais e, por último, a publicidade, que faz com que o uso de remédios seja considerado normal.
Segundo o centro da Universidade de Columbia, entre 1993 e 2005 o número de estudantes universitários que abusaram de Vicodin e outros opiáceos aumentou 343%, ou seja, em 240 mil indivíduos.
No caso de uso de tranqüilizantes como Xanax e Valium, a proporção foi ainda maior (450%), enquanto os estimulantes como o Adderall tiveram um crescimento de 93% nas vendas. A internet seria a culpada por esse aumento, pelo menos em parte.
“A disponibilidade de opiáceos aditivos, tranqüilizantes e estimulantes transforma a internet numa ameaça maior que os traficantes de rua”, destaca Califano. Em um relatório divulgado recentemente, o pesquisador se referiu à internet como “uma loja de balas”, onde os remédios aditivos podem ser obtidos com apenas um clique no mouse e com o uso de cartão de crédito.
“Os garotos não têm que ir à rua e lidar com o traficante… Além disso, vêem os seus pais consumindo o produto, portanto acreditam que é seguro”, declarou Califano. Outros estudos coincidem com o do centro da Universidade de Columbia.
O estudo nacional sobre o abuso de srogas e saúde, publicado em setembro, mostrou que, embora o consumo de álcool esteja em declínio entre jovens adultos, o uso de remédios controlados – opiáceos e analgésicos-, aumentou entre os usuários de 18 a 25 anos.
O fenômeno pode ter, no entanto, alguma vantagem. Como afirma Thorburn, “pelo menos quando os jovens usam remédios legais as batalhas com armas de fogo ficam de fora da equação”.