A revolta pela classificação como elite B do atletismo nacional não abalou a auto-confiança do campeão da 82ª Corrida Internacional de São Silvestre, Franck Caldeira. Aos 23 anos, o mineiro de Sete Lagoas terminou a prova com a consciência tranqüila por ter acrescentado mais uma etapa importante na construção de sua história.
Antes da disputa de domingo, Caldeira ressaltava que a São Silvestre não tem campeões sem história e aproveitou o resultado para reafirmar sua teoria. "Não surgi ontem, para ser campeão tem que aceitar derrotas para conseguir a vitória. O Homem lá em cima me apontou e disse: hoje, você vai vencer".
Atleta desde os 14 anos, Caldeira lembrou a trajetória de seus resultados em pista e rua para comprovar suas conquistas. "Minha história é simples e básica: (bi)campeão da Volta da Pampulha, campeão da maratona de São Paulo, campeão da Meia Maratona do Rio, dois quartos lugares na Meia Maratona Internacional do Rio, várias provas vencidas aqui em São Paulo, 28min42 nos 10.000m. Ou seja, precisa mais alguma coisa? Acho que não".
Mesmo quando juvenil, o mineiro já demonstrava seu potencial. Na primeira corrida da carreira foi campeão da categoria e sétimo colocado no geral. Desde então obteve o bicampeonato juvenil brasileiro, o recorde sul-americano da categoria no cross country e em pista, além do recorde brasileiro de pista e da sétima posição no Mundial Juvenil. "Isso que eu falo, é história", diz o fundista.
"Com Marilson (Gomes dos Santos, bicampeão da São Silvestre) foi a mesma coisa, campeão universitário da meia maratona, recordista sul-americano adulto nos 10.000m. Ele é um excelente atleta, campeão de Nova York (maratona). Ou seja, para vencer a São Silvestre você tem de ter uma história e esta é a minha história".
Para ele, os críticos erram quando restringem o atletismo de alto nível apenas a Marilson e ao medalhista olímpico Vanderlei Cordeiro de Lima. "Não é exatamente isso. Nós temos vários atletas. Na São Silvestre a maioria do lugares no pódio (as três primeiras colocações) foram ocupados por brasileiros", diz, usando novamente Marilson como parâmetro.
"Corri varias vezes com o Marilson e cheguei nos últimos 2km finais com ele. É uma seqüência, o Marilson vem trabalhando há mais de 12 anos. Ele tem 28 anos, eu, 23 anos, é uma evolução. O trabalho está sendo feito. O dele já está completo. Dou os parabéns, mas cada atleta tem sua evolução", compara.
Segundo ele, o respeito nutrido pelos principais nomes do atletismo de longa distância brasileiro não o intimida nas competições. "Não tenho medo de competir com nenhum atleta, acho que o que vale é a preparação. Já ganhei uma vez do Vanderlei em uma prova da Unicsul, em São Paulo. São atletas que me respeitam, eu tenho respeito grande por eles também como pessoas, como atletas. São atletas que dividem todos os momentos deles comigo e eu também tento dividir com eles".