PAULO EDUARDO DIAS
FOLHAPRESS
Anunciado pelo governo de São Paulo como um batalhão policial voltado a combater roubos e furtos, o Bravo opera sem efetivo próprio e comandante fixo, sem sede formal e sem decreto que formalize a sua atuação, ao contrário do que ocorre nos demais batalhões da Polícia Militar.
A medida foi divulgada a menos de duas semanas das eleições, quando o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) buscará um novo mandato. A equipe atuou até esta quinta-feira (1º), adota uma pausa no fim de semana do pleito e retorna na segunda-feira (5).
O Bravo, sigla para Batalhão de Resposta Avançada Operacional, atua com duplas de policiais em motocicletas, parte deles portando fuzis. A unidade é formada por uma junção de policiais de diferentes tropas, somando 250 agentes e 150 motos, além de viaturas de apoio.
O trabalho é feito por policiais de unidades como o 2º Batalhão de Choque, com experiência em motos e referência em escoltas e grandes eventos, além de outros batalhões especializados e de área, cuja finalidade original é realizar o patrulhamento nos bairros.
“É um batalhão matricial, um batalhão modular. Então, não tem necessidade de criação por decreto nem por nenhuma regulamentação que não seja interna da corporação, por uma ordem de operações. Não é um batalhão territorial”, disse à Folha o coronel Alexandre Vilariço, comandante da Coordenadoria Operacional da PM e que toma a decisão de onde empregar o Bravo.
O oficial explicou que a PM tem outras unidades do tipo, a exemplo dos batalhões acadêmicos e administrativos. “Esses batalhões são montados para uma atividade específica.”
O Bravo, segundo o governo, foi criado como uma operação para conter roubos e furtos de celulares e alianças em São Paulo, prática que se pulverizou do centro para outras regiões.
“Lógico, o policial tá passando em qualquer local, ele pode atender qualquer tipo de ocorrência, roubo a uma farmácia, acidente de trânsito, mas o foco principal é esse.”
No Bravo, não há comandante fixo, mas variável conforme o bairro em que a unidade atua. “Nada melhor do que o comandante do local, comandante do batalhão territorial, [que] conhece a sua área”, acrescentou o coronel.
De acordo com Vilariço, a 1ª companhia do Bravo é formada por motos do policiamento de trânsito e do 2º Choque. A 2ª companhia reúne policiais de motos lotados no 7º Baep (Batalhão de Ações Especiais de Polícia), no centro da capital, e a 3ª conta com agentes das Rocams dos bairros.
A função mais específica, que inclui o uso de fuzil e o acesso a áreas com indicadores criminais mais altos, fica a cargo do 2º Batalhão de Choque e do Baep.
Na visão de Vilariço, bairros não ficam descobertos em razão do remanejamento de tropas para as atividades.
O pesquisador em segurança pública Adilson Paes Souza, tenente-coronel aposentado da PM paulista, avalia como positiva a ideia de dois policiais em uma única moto, mas diz que ela precisa ser aperfeiçoada e ter efetivo próprio.
“PM na garupa? Parece uma boa ideia. Com fuzil? Não é boa ideia. Muito perigoso para os próprios PMs e para os transeuntes”, disse.
A intenção de atuar contra crimes patrimoniais, pondera, pode não ser alcançada com esse modelo de patrulhamento. “Achar que vai reduzir roubo e furto de celulares porque um PM usa fuzil? Não é crível. O que reduz a prática de delitos são: ação preventiva e ostensiva e, principalmente, investigação, identificação dos criminosos, processo, condenação. Tudo rápido. E é o que não existe. A certeza da impunidade impera.”
O coronel reformado da PM paulista José Vicente da Silva Filho, membro do Instituto Brasileiro de Segurança Pública, chamou o novo batalhão de “coisa improvisada”.
“Juntaram um conjunto de letras. Nunca vi algo como isso em 60 anos de polícia. É um batalhão fantasma. Virtual. O que fizeram foi um arranjo com motociclistas de outros batalhões desfalcando o patrulhamento.”
Silva Filho lembrou que ações similares já foram adotadas no Rio de Janeiro e em estados do Nordeste. “Não vejo [como] solução para nada. O que vejo nesse caso específico é uma resposta mais de marketing da polícia do que uma necessidade operacional”, acrescentou.
Para ambos os especialistas, o uso do fuzil produz risco para o policial e para a população, situação rechaçada pelo coronel Vilariço. “O fuzil já é um armamento utilizado pela polícia há muitos anos. Policial militar, em qualquer armamento, ele não anda com o dedo no gatilho.”
Vilariço negou que a implementação da unidade tenha intenções eleitorais. “Esse batalhão já tem sido pensado há bastante tempo. Essa operação [de combate aos grupos] quebra-vidro a gente já tá fazendo há bastante tempo. Nós conseguimos reduções significativas, redução de indicador criminal desse tipo de delito”, acrescentou.
Conforme a SSP (Secretaria da Segurança Pública), o balanço da primeira semana de funcionamento indica a prisão de 34 pessoas, sendo oito delas foragidas da Justiça.
“Desde que começou a operar, no dia 22 de setembro, o novo batalhão também recuperou três veículos que haviam sido roubados ou furtados. As ações também levaram à apreensão de cinco celulares, mais de 1 quilo de drogas e R$ 5,2 mil em dinheiro.”