CLAYTON CASTELANI
FOLHAPRESS]
Ao voltar para casa na Vila Sônia, na zona oeste de São Paulo, às 23h, depois de um dia de trabalho, a atendente Eriandida Teodozio, 49, recorre a uma dúzia de garrafas plásticas cheias de água para tomar banho. “Já deixo tudo pronto antes de sair para trabalhar”, conta.
Desde agosto do ano passado, moradores de todas as regiões da capital paulista estão adaptando seu dia a dia para lidar com as torneiras secas. Em pleno período de chuvas, o abastecimento é realizado com pressão reduzida entre 19h e 5h em toda a Região Metropolitana de São Paulo.
Concessionária responsável pelo serviço, a Sabesp afirma ter adotado o plano de contingência determinado pela agência reguladora dos serviços públicos estaduais, a Arsesp. A medida é aplicada em meio a uma estiagem que baixou significativamente os níveis dos reservatórios no ano passado.
A restrição determinada pela autarquia vinculada à gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) não é classificada como rodízio, que só ocorre quando o abastecimento é efetivamente cortado por horas ou dias.
O enfraquecimento do fluxo, porém, resulta em falta dágua especialmente nos bairros mais altos como se houvesse a cessação diária do abastecimento, contaram à Folha consumidores que vivem ou trabalham em diferentes bairros em todas as cinco regiões da cidade.
Quando a família de Alceu Buoro, 65, decidiu abrir uma lavanderia nas proximidades da Av. Paulista, no Jardim Paulista (no limite entre a região central e a zona oeste), o que se imaginou é que a área dificilmente sofreria com cortes de serviços essenciais por estar em uma área repleta de hospitais.
Na semana passada, porém, a empresa descumpriu prazos porque faltou água. “Isso vem piorando há algum tempo e, agora, até durante o dia a pressão está muito fraca”, diz.
Na mesma região, um tradicional cinema no distrito da Consolação precisou interditar banheiros durante uma pré-estreia. No outro lado da Rua Augusta, Silvia Oliveira, 66, passou a adaptar galões na máquina da sua cafeteria depois que a falta dágua a impediu de servir expressos aos clientes que esperavam o horário de uma sessão. “Quando dá 20h já não tem nada de água, todos os dias”, diz.
Em outro distrito central, o de Santa Cecília, Antônio Severino, 53, passou a servir cerveja gelada em copos descartáveis para os clientes da sua casa do norte. A caixa d’água passou a ser de uso restrito da cozinha desde que o fornecimento passou a ser cortado às 21h há mais de um mês.
Problemas semelhantes são relatados por residentes de diferentes bairros da capital. Moradora da comunidade ZR no Grajaú (zona sul), a auxiliar de limpeza Ana Paula Bernardo, 42, afirma que o abastecimento é interrompido diariamente às 20h. Para lidar com a escassez, banhos ocorrem obrigatoriamente no período da manhã.
Sem caixa d’água em sua residência e com três filhos em idade escolar, a assistente administrativo Laryssa Conceição Silva, 29, prepara apressadamente o jantar e o banho das crianças assim que chegam da escola, antes do corte no fornecimento às 19h em Paraisópolis (zona sul), a mais populosa favela paulistana. “Está um descaso desde o final do ano passado”, reclama.
Em Itaquera, zona leste, o empresário Filipe Bradin, 37, diz que as torneiras alimentadas diretamente pela rede em sua residência ficam completamente secas sempre que anoitece.
Para os moradores da Brasilândia, zona norte, a oferta vai até mais tarde, mas a partir das 22h30 o corte é certo, conta o atendente Michel Bezerra Ferreira, 43. “Graças a Deus minha casa tem caixa, então dá para aguentar até de manhã”, conta.
Famílias que não dispõem de caixas dágua em suas residências estão sentindo a crise hídrica de forma intensa, relata o líder comunitário Cláudio Freitas, 53, que tem recebido frequentes queixas de moradores da região do Butantã, zona oeste. Ele cita interrupções constantes em cerca de dez bairros, entre os quais estão Jardim Raposo Tavares, Cohab Educandário e a comunidade Uirapuru.
O aumento da escassez também está fazendo tocar com mais frequência o telefone de Marcos Plínio, 35, responsável pela área comercial da JP Águas. A empresa de caminhões-pipa tem sido acionada por comércios e condomínios em bairros como Paraíso, Aclimação, Brooklin e Vila Olímpia. “Estão chamando a gente direto, principalmente restaurantes que não têm reservatórios grandes”, diz.
REDUÇÃO DA PRESSÃO PERMITE PRESERVAR RESERVATÓRIOS, DIZ SABESP
A Sabesp informou, em nota, que a redução da pressão noturna, aplicada das 19h às 5h em toda a Grande São Paulo, é uma medida preventiva adotada desde agosto para preservar os mananciais diante da estiagem, conforme determinação da Arsesp (agência reguladora).
Segundo a companhia, a ação já economizou 83 bilhões de litros de água e impacta menos os imóveis que possuem caixa-dágua para 24 horas. Para famílias de baixa renda, a empresa oferece o programa Reserva Certa, que realiza a instalação gratuita de reservatórios para reduzir os efeitos da medida, especialmente em regiões altas.
A Sabesp também afirma realizar investimentos de mais de R$ 5 bilhões em obras estratégicas até 2027 para fortalecer a segurança hídrica de 22 milhões de pessoas.
A companhia ressalta que intervenções como a transferência do rio Itapanhaú, entregue no ano passado, visam aumentar a resiliência do sistema, e reforça que a medida de redução segue as diretrizes regulatórias vigentes para enfrentar cenários de escassez e eventos climáticos extremos.