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Baía de Guanabara poluída reduz renda a pescadores e dá prejuízo bilionário ao RJ

Os pescadores são o elo mais frágil de um prejuízo econômico calculado em bilhões de reais para o estado causado pela poluição da baía

Por FolhaPress 24/01/2022 1h12
Foto: Agência Brasil

Ítalo Nogueira

Gilciney Gomes, 61, vive da pesca na baía de Guanabara há 40 anos. A poluição fez praticamente sumir de suas redes peixes como linguado, piraúna, espada e outros de maior valor. Restaram-lhe principalmente a corvinota e tainha, que não lhe garantiam o sustento.

Há dez anos, ele passou a se dedicar à pesca de caranguejo, que ainda resiste nos manguezais de rios poluídos de Duque de Caxias. Nos períodos de defeso, no qual a prática é proibida para garantir a reprodução dos animais, Gilciney cata lixo do rio para revenda em centros de reciclagem. Mas até nisso a poluição lhe atrapalha.

“Alguns compram [o material reciclável], mas outros não, porque falam que é material sujo demais. Eles perguntam: ‘É PET do valão?’. O rio Sarapuí hoje é um valão. Precisamos lavar bem lavadinho para vender um pouco mais caro. Mas não dá para lavar direito 30, 40 kg de plástico. A gente acaba vendendo mais barato para alguns que aceitam comprar [sujo]”, diz Gilciney.

Os pescadores são o elo mais frágil de um prejuízo econômico calculado em bilhões de reais para o estado causado pela poluição da baía de Guanabara. Estudo do economista Riley Rodrigues, assessor especial da Casa Civil estadual, aponta o potencial de R$ 25,4 bilhões para o estado em 30 anos.

Rodrigues aponta que entre 2002 e 2013 houve uma redução de 68% no volume pescado na baía. De acordo com a Fiperj (Fundação Instituto de Pesca do Rio de Janeiro), 1.380 unidades produtivas -embarcações e pescadores em terra- descarregaram pescado da baía entre 2017 e 2020.

“Há 15 anos, trazia 14, 15 tabuleiros de peixe. Hoje traz 3 só. Diminuiu muito. Se eu saio para pescar, consigo só R$ 15, R$ 20 de pescado. O caranguejo dá uma diariazinha de R$ 70, R$ 80. Fomos forçados, mas é o meio de sobrevivência”, disse Gilciney.

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Segundo Alexandre Anderson, presidente da Ahomar (Associação Homens do Mar), muitos pescadores abandonaram a prática para buscar outros meios de vida. Ele calcula em ao menos 3.000 o total de pescadores que atuam na baía.
“O impacto foge da praia. Está no comércio fechado por falta de turistas. Das famílias que são obrigadas a sair e fazer uma migração forçada, involuntária. Temos muitas casas abandonadas porque os pescadores precisaram sair para buscar seu sustento. Foram para a capital trabalhar como pedreiro, ajudante de obra e saíram da região”, afirmou ele, que atua em Magé.

Além da pesca, os levantamentos calculam a perda a partir de gastos com internações causadas por doenças relacionadas às falhas no saneamento básico, como infecções gastrointestinais, e o impacto delas na renda e produtividade do trabalhador e na educação. As estimativas também consideram a possível valorização imobiliária no entorno da baía de Guanabara com sua melhoria ambiental.

Há, porém, despesas simbólicas não contabilizadas nas pesquisas, como o piscinão de Ramos, área de lazer construída em 2001 para substituir a poluída praia do bairro, balneável nas primeiras décadas do século passado.

A Prefeitura do Rio de Janeiro gasta anualmente R$ 4,8 milhões com uma estrutura que capta e trata a água da área mais poluída da baía e que abastece o piscinão. O governo do estado construiu em 2004 outro piscinão, em São Gonçalo. Ele está abandonado há cinco anos em razão do custo de manutenção.

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O potencial econômico da baía é um dos argumentos do governo do estado para exigir na concessão do saneamento básico um investimento emergencial de R$ 2,7 bilhões no estancamento do despejo de esgoto nas águas. “A economia do Rio passa pela baía de Guanabara. Ela circunda vários municípios, tem uma importância turística relevante, e também no setor de petróleo e gás. Ela é nossa fonte de riqueza principal”, afirma o secretário da Casa Civil, Nicola Miccione.

A imagem da baía associada ao despejo de esgoto atinge também regiões menos comprometidas do espelho d’água, afetando a indústria do turismo. O empresário José Lavrador, dono da Paquetur, da ilha de Paquetá, afirma que “a poluição mexe muito com o imaginário das pessoas”.

Paquetá está no final do canal central da baía, onde a troca de água com o mar é mais constante. O norte da ilha, por sua vez, está próximo à APA (área de proteção ambiental) Guapimirim, cujos rios têm melhores condições que os da parte oeste do espelho d’água. “Pode ter até trechos da baía que não estão tão poluídos. Mas, no imaginário das pessoas, ela está associada à poluição. Isso é um dano muito grande e difícil de quantificar”, afirma ele.

Lavrador afirma que sua empresa busca explorar mais o aspecto histórico e cultural da ilha, local de hospedagem frequente de D. João 6º. Ainda assim, a poluição afeta a visitação. “A gente trabalha sempre com esse imaginário de que tem uma baía poluída no entorno do paraíso. Isso é muito doloroso. Diminui a dimensão da alegria de estar em Paquetá”, afirma Lavrador.

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“A gente tenta trabalhar com os hotéis para transformar isso aqui como um ponto do roteiro turístico dos receptivos do Rio. Temos muita dificuldade, porque o imaginário da poluição impera. No linguajar deles, é um produto queimado.”

A baía também é um cenário explorado pela Saveiros Tours, uma das primeiras a realizar passeios pela região. O diretor da empresa, Eduardo Adrizzo, afirma que visitantes se queixam até mesmo quando a parada para mergulho é feita em locais com boa balneabilidade.

“Quando falo que tem que parar em Jurujuba ou Urca, o pessoal reclama. Precisa explicar que [a qualidade da água] depende da maré. Diante de uma baía tão grande, com tantas enseadas, são pouquíssimas as que a gente consegue parar para mergulhar”, afirma ele.

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Adrizzo lamenta não poder ancorar na enseada de Botafogo diante do Pão de Açúcar, um dos principais cartões postais da cidade. “A enseada de Botafogo nem entro de barco, porque é um esgotão”, disse ele. A praia esteve imprópria para banho em 99,8% dos dias entre 2015 e 2019.

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Sob o espelho d’água também há potenciais desperdiçados. O biólogo Ricardo Abreu, do Instituto Mar Urbano, afirma que agências poderiam explorar o mergulho para visualização das sete espécies de raias que existem na baía. “As raias são ícones do turismo subaquático mundial. Na Indonésia, se gasta US$ 400 para mergulhar com elas. Lá elas são protegidas por lei. Uma raia manta na Indonésia pode gerar mais de US$ 1 milhão durante a vida dela com o turismo subaquático”, afirma.

A poluição e a imagem que a baía carrega relega à espécie um destino menos rentável. “Aqui a gente tem essa riqueza e a gente vende essas raias na feira. É a carne mais barata de peixe que tem. A maioria das vezes elas são pescadas acidentalmente. As redes de arrasto de fundo vão buscar o camarão e o linguado, e às vezes pegam as raias também”, afirma o biólogo, produtor e diretor do filme “Baía Urbana”.

Em parceria com O Boticário, a Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) mapeou 69 atividades econômicas sustentáveis da baía.

O gerente de Sustentabilidade da federação, Jorge Peron, acredita que a despoluição pode fomentar algumas delas, como o turismo, agropecuária e manejo sustentável. O processo pode ajudar também o ramo imobiliário, com a abertura de novos pólos residenciais e de turismo à beira do espelho d’água.

“A participação de negócios considerados sustentáveis nos setores de agricultura, pesca sustentável e maricultura ainda é pequena. Se muda o contexto de balneabilidade começa a criar um ambiente mais favorável tanto para o desenvolvimento das espécies que já existem quanto para atrair outras espécies”, diz.








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