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Brasil

Ambulante vê racismo no Carnaval baiano

Arquivo Geral

24/02/2008 0h00

Uma pesquisa realizada entre ambulantes e catadores de latinhas que trabalham no Carnaval de Salvador revela que 95% dos entrevistados dizem que há preconceito racial na festa do município. Desse total, pharm 79% crêem que esse sentimento é forte. Esse é um dos resultados que devem constar de trabalho inédito realizado pelo Observatório da Discriminação Racial da Violência contra a Mulher, price projeto iniciado na capital baiana em 2006 com intuito de mensurar e coibir preconceito e abusos durante o Carnaval.

Neste ano, além de receber e registrar queixas, a iniciativa da Prefeitura de Salvador ofereceu orientação jurídica aos reclamantes e realizou uma pesquisa sobre questões raciais, em que 1.620 trabalhadores informais soteropolitanos responderam a um questionário e 120 participaram de entrevistas qualitativas. Também foram realizadas entrevistas com 80 turistas que se divertiram em camarotes e blocos.

Os pesquisadores, 73 profissionais especializados em questões raciais e de gênero da Universidade de Salvador, buscaram identificar a percepção de ambos os grupos em relação ao preconceito racial durante a festa na cidade.

Os dados ainda estão sendo tabulados e analisados. A previsão da Secretaria Municipal da Reparação é de que o resultado seja divulgado até o final de abril. As informações recolhidas no questionário, contudo, permitem adiantar que 59% dos catadores e ambulantes se declaram pretos e 30%, pardos; 88,2% afirmam receber menos que três salários mínimos — sendo que 38,2% ganham até um salário mínimo e 37,8% dizem sustentar entre três e seis pessoas com essa renda.

A percepção dos ambulantes e catadores reflete uma divisão visível nos blocos de Carnaval de Salvador, avalia a secretária Municipal da Reparação, Antonia Garcia. “Há uma hierarquização muito clara nos grandes blocos, como os de Chiclete com Banana e de Ivete Sangalo”, afirma. Os cordeiros, que demarcam com cordas o espaço dos foliões que seguem o bloco, são na maioria negros, assim como os ambulantes. “E, dentro dos blocos, há um mar de brancos, uma configuração muito clara da realidade brasileira”, descreve a secretária, que é socióloga.

Com os turistas, a Prefeitura já realizava pesquisas em que a limpeza e a segurança pública da cidade eram elogiadas. Inserir a questão racial foi uma forma de avaliar qual é “a percepção do turista e se ele está ou não alienado em relação a essa problemática”.

“Entre os turistas, uma análise preliminar permite dizer que metade acredita que existe o racismo no Brasil e que ele é forte”, afirma a secretária. “Eles crêem que a mulher branca não sofre discriminação, enquanto a mulher negra está no outro extremo, como a mais discriminada.”

O Observatório da Discriminação Racial da Violência contra a Mulher foi criado em 2006 pela Secretaria Municipal da Reparação, com apoio do PNUD, para receber reclamações dos trabalhadores informais contra abusos de fiscais da prefeitura durante o Carnaval. Foram contabilizadas 128 ocorrências naquele ano. Em 2007, esse número saltou para 422. Em 2008, 55.

Estima-se que cerca de 15 mil pessoas de todas as partes de Salvador se desloquem ao centro da cidade para realizar atividades informais durante o Carnaval. Desse total, 10 mil têm registro na Prefeitura.

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