Com o crescimento da procura por álcool em gel para higienizar as mãos durante a pandemia do novo coronavírus, começaram a surgir nas redes sociais relatos de incêndios em automóveis, supostamente causados pelo produto de limpeza. Cada postagem aponta casos com gravidades diferentes, mas todas dão a entender que o álcool em gel teria superaquecido dentro do carro e pegado fogo espontaneamente.
O Estadão Verifica pediu que o professor doutor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) Reinaldo Bazito analisasse três imagens de automóveis com painéis queimados, todas compartilhadas nesta semana no Facebook. O especialista afirmou que só um perícia poderia apontar a causa precisa desses princípios de incêndio, mas uma coisa é certa: o álcool em gel não entra em combustão sozinho.
“Não tem problema deixar frascos pequenos no carro, desde que bem fechados e longe de insolação direta”, recomenda o professor. “Agora, deixar, um frasco de 500 mL ou 1000 mL no painel do carro, sob luz solar direta, não é uma boa ideia! Mas ainda assim, não pega fogo sozinho”.
O álcool 70% é um produto inflamável, por isso deve ser manuseado e armazenado com cuidado. A partir dos 16,6ºC, temperatura do chamado “ponto de fulgor”, o álcool começa a liberar vapores que, ao entrarem em contato com fontes de ignição, como chamas ou faíscas, podem entrar em combustão. Para que o álcool entrasse em combustão espontânea, sem a presença de uma fonte de ignição, seria preciso atingir a temperatura de 363°C, explica Bazito.
“Em um veículo fechado ao sol, é impossível atingir temperaturas maiores que essa”, diz ele. “O álcool poderia gerar vapores inflamáveis (em quantidade tanto maior quanto maior for a temperatura), mas seria necessária uma fonte de ignição externa (faísca, chama, etc.) para iniciar a combustão.”
O álcool em gel não se espalha tão facilmente quanto o líquido; isso é muito importante para reduzir os riscos em caso de incêndio. Segundo Bazito, o álcool em gel pode ter contribuído para os incêndios ou princípios de fogo que aparecem nas postagens, mas o produto sozinho não pode ser a causa dos acidentes.
O professor faz um alerta de cuidado para quem manipula o produto: “É preciso alertar sobre os riscos. Por exemplo, é mais perigoso usar álcool em gel nas mãos em casa, com o fogão ligado, do que deixar no carro sob o sol.”
Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.
Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas: apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.
Estadão Conteúdo