BRUNO LUCCA
FOLHAPRESS
Um a cada 5 adolescentes brasileiros que usam internet foi vítima de exploração ou abuso sexual facilitados por tecnologia.
O dado integra o relatório Disrupting Harm in Brazil (Enfrentando a violência no Brasil, em português), divulgado nesta quarta-feira (4) pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), em parceria com a ECPAT International, rede global de organizações que combate a exploração sexual de crianças e adolescentes, e a Interpol (Organização Internacional de Polícia Criminal).
O estudo define como violência “facilitada” pela tecnologia situações nas quais recursos digitais -como redes sociais, aplicativos de mensagens, jogos online ou ferramentas de inteligência artificial -são utilizados como meio para aliciar, extorquir, produzir, armazenar ou compartilhar material de abuso sexual.
Esses casos podem ocorrer exclusivamente no ambiente virtual, combinar interações online e presenciais ou envolver abuso físico registrado e disseminado digitalmente.
A pesquisa foi realizada entre novembro de 2024 e março de 2025, com 1.029 entrevistas presenciais com adolescentes de 12 a 17 anos e seus responsáveis. As perguntas consideraram experiências vividas nos 12 meses anteriores à participação.
– Denúncias de abuso sexual infantil online crescem no país
– Como prevenir o abuso sexual infantojuvenil na internet
– Vergonha, medo e anonimato digital são travas para investigar violência sexual infantil
Segundo o relatório, 19% dos jovens relataram ter sofrido ao menos uma forma de violência sexual mediada por ferramentas digitais entre 2024 e 2025. Em números absolutos, o percentual representa cerca de 3 milhões de meninas e meninos no país.
Em 66% dos casos, a violência ocorreu por canais online. Redes sociais e aplicativos de mensagens aparecem em 64% dos casos, e jogos online, em 12%. Instagram (59%) e WhatsApp (51%) são os aplicativos mais citados como meios utilizados por agressores.
A forma mais comum de violência foi a exposição a conteúdo sexual não solicitado, relatada por 14% dos entrevistados. Também houve casos de solicitação de envio de imagens íntimas, ameaças de divulgação de conteúdo e ofertas de dinheiro ou presentes em troca de material sexual.
METADE DOS AGRESSORES É CONHECIDA DA VÍTIMA
O relatório evidencia que 49% dos casos envolveram alguém conhecido da vítima, como amigos, parceiros ou pessoas do convívio familiar. Em 26% das situações, o agressor era desconhecido, e em 25% dos episódios a vítima não conseguiu ou não quis identificar o responsável.
Entre os episódios em que havia vínculo prévio, o primeiro contato ocorreu online em 52% das situações. Também houve primeiros contatos na escola (27%), na própria casa da criança ou adolescente (11%) ou em locais de prática esportiva (2%).
Para o representante do Unicef no Brasil, Joaquin Gonzalez-Aleman, os dados evidenciam que o risco está presente tanto nas interações digitais quanto nas relações cotidianas. Segundo ele, compreender essas dinâmicas é essencial para fortalecer políticas públicas e mecanismos de proteção.
A pesquisa indica que 34% das vítimas não contaram a ninguém sobre o ocorrido. Quando houve revelação do abuso, ela ocorreu principalmente entre amigos -22% compartilharam a situação com colegas.
Entre os motivos para o silêncio estão a falta de informação sobre onde buscar ajuda (22%), o constrangimento (21%), o medo de não serem acreditadas (16%), o receio de que outras pessoas descubram o ocorrido (7%) e sentimentos de culpa (3%). Em 12% dos casos, as vítimas afirmaram não considerar a violência grave o suficiente para denúncia.
As barreiras também aparecem no registro formal das ocorrências. Não saber como denunciar (18%), ter sido ameaçado pelo agressor (17%) e desconhecer que a situação configurava crime (15%) estão entre os principais obstáculos.
O estudo afirma ainda que crianças e adolescentes submetidos à violência sexual facilitada pela tecnologia apresentam taxas mais altas de ansiedade e têm mais de cinco vezes mais chances de se automutilar ou manifestar pensamentos ou tentativas de suicídio.
Relatos coletados durante a pesquisa indicam sentimentos recorrentes de medo, culpa, angústia e perda de controle, especialmente nos casos em que houve exposição a conteúdo sexual não solicitado ou compartilhamento prévio de imagens.