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Refugiados em Beirute perdem o pouco que tinham

A explosão levou pelos ares metade da cidade, matando 150 pessoas e deixando 300 mil desabrigados em Beirute

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Foto: AFP
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“Não quero morrer no Líbano. Eles não vão mandar meu cadáver para minha família, vão nos jogar no mar.” Hana, uma mulher bengali, de 30 anos, começou a chorar enquanto falava, explicando o que sentiu quando Beirute explodiu, no dia 4 de agosto, levando pelos ares metade da cidade, matando 150 pessoas e deixando 300 mil desabrigados – ela, inclusive.

Mãe de dois filhos, Hana deixou sua terra natal para fugir da pobreza. “Não fiz faculdade e não encontrava trabalho. Achava que aqui no Líbano conseguiria ganhar algum dinheiro para alimentar meus filhos, minha família.” Ela veio para o Líbano com um contrato para fazer faxina em casas, mas sofreu com um sistema que a privava dos direitos mínimos, disse ela.

Sua história é a mesma de milhares de pessoas que vivem no país. O Líbano tem aproximadamente 6,8 milhões de habitantes e quase 1,6 milhão de refugiados.

O país tem a maior população de refugiados per capita do mundo, segundo a ONU: um em cada seis habitantes. No total, o país abriga mais de 925 mil registrados, a maior parte (98%) chegou da Síria.

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Vem sendo assim por anos. Os refugiados marcaram o país. A primeira onda em 1915, com a imigração armênia, fugindo do genocídio Otomano. À partir dos anos 1940 e 1950 os refugiados palestinos tomaram conta do país e seu acolhimento teve papel na guerra civil libanesa, entre 1975 e 1990.

Os refugiados no Líbano não têm status legal, o que significa que um quarto da população do país vive com acesso limitado a emprego remunerado, moradia, educação e saúde. Os refugiados precisam de uma autorização para trabalhar legalmente. Os que não a obtém costuma arranjar subempregos.

“Para onde vou agora, o que vou fazer? Até quando ainda vou dormir ao relento com meu filho?”, pergunta Hana, relembrando seus primeiros pensamentos ao ouvir o estrondo da explosão. Ela agora vive com a família na escada do prédio onde era sua casa, esperando ajuda local e internacional para continuar viva.

“Estamos dormindo do lado de fora porque a construção pode desabar.” Ela também disse que está recebendo água e comida dos voluntários que ajudam em Gemmayze e Mar Mikhael, as áreas mais afetadas pela explosão.

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“Quem destruiu minha terra?”, questiona o filho de Hana de 2 anos a todo momento. “Se você perguntar a ele qual é a sua terra, ele vai dizer que é o Líbano. Não sabe nada sobre Bangladesh, nasceu e foi criado nas ruas que agora estão em ruínas”, explicou Hana.

Ela e sua família viviam com as mesmas dificuldades fundamentais que todos os libaneses sofrem, como cortes no abastecimento de água e de eletricidade, crise econômica e questões de segurança. Sete meses atrás, o contratante de Hana parou de pagar em dólares americanos, por causa da crise econômica pela qual o Líbano está passando.

Desde o fim do ano passado, ó país vinha passando por problemas: havia limitações para sacar dinheiro nos bancos e escassez de dólares. Em poucos meses, a libra libanesa perdeu 85% de seu valor. O Líbano importa cerca de 80% do que consome – e as importações são cotadas em dólar. Toda vez que há uma desvalorização da libra libanesa, os preços da comida sobem quase automaticamente.

Caminhando pelas ruas da cidade em ruínas, é possível se sentir dentro de um romance trágico. De um segundo para o próximo, os cidadãos de Beirute se viram juntando o que restava de suas memórias e pertences e atrás de parentes mortos.

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Aluuel Biyar, do Sudão do Sul, por acaso estava no centro da explosão. Ela e sua família vieram para o Líbano em busca de refúgio, depois que a guerra civil do Sudão do Sul começou em 2013. Aluuel e a família estavam visitando amigos em Ashrafieh, uma área próxima à explosão.

“Não acredito que estou viva”, foram as poucas palavras que Aluuel proferiu antes de cair no choro. “Eu estava sentada no sofá quando ouvimos a primeira explosão. Naquele momento, pensamos que era só um terremoto. Levei meu filho ao banheiro e ouvi a segunda explosão. Quando fugi do lugar onde estava, vi todos os cacos de vidro no sofá, a janela caída. Eu ainda estaria sentada lá se não fosse pelo meu filho”.

Aluuel, que fugiu de seu país por causa da guerra, se viu em outro lugar sem segurança, bem ali onde esperava que sua nova cidade pudesse ser um pouco mais tranquila. “Não consigo descrever a sensação quando veio a explosão. Sinto que queria voltar para o Sudão do Sul, porque era mais seguro. Lá você sabe que as pessoas estão lutando com armas de fogo e evita sair de casa. O que aconteceu aqui é que a explosão atingiu todas as casas. Ninguém estava seguro!”.

A história que levou à trágica explosão no porto de Beirute na terça-feira começou há mais de 6 anos, a 1.300 quilômetros da capital libanesa. O navio Rhosus, de bandeira moldava, deixou o porto de Batumi, na Geórgia, com 2.750 toneladas de nitrato de amônio a bordo. Nunca chegou a seu destino, Moçambique, onde a carga deveria ser vendida a uma fábrica de explosivos para uso civil.

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A carga ficou estocada de maneira inapropriada em um armazém portuário. Inúmeras autoridades tentaram alertar para o risco. Reportagens da rede de TV Al-Jazira mostraram que autoridades portuárias escreveram ao menos seis cartas alertando sobre o perigo desde 2014.

No dia 4, o telhado do armazém pegou fogo e houve uma grande explosão, seguida por uma série de explosões menores que, segundo algumas testemunhas, soaram como fogos de artifício. Trinta segundos depois, houve uma explosão colossal, que soltou uma nuvem em forma de cogumelo para o ar.

Essa onda pôs no chão os edifícios próximos ao porto e provocou danos imensuráveis em grande parte do resto da capital, que abriga 2 milhões de pessoas.

Quando Aluuel voltou para casa, em Sin El Fil, ela descobriu que a explosão atingira a área com tanta força quanto à casa de sua amiga. Os vidros estavam estilhaçados, as portas, quebradas e os móveis, cobertos de cacos e sujeira. Ela ajudou a amiga a se mudar para sua casa e juntas limparam e consertaram tanto quanto puderam.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.




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