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Mundo

No Afeganistão, seca põe crianças à venda

Arquivo Geral

03/12/2018 7h00

REUTERS/Mohammad Ismail

Eduardo Brito
edubrito@grupojbr.com

Enquanto o Afeganistão passa pela pior seca em décadas, com milhões de pessoas em risco de fome, milhares de famílias passaram a vender crianças. São suas filhas, e às vezes até filhos, colocados em um mercado informal de casamentos para pagar dívidas ou comprar comida. O alerta é oficial: foi dado pela Organização das Nações Unidas na terça-feira passada, 27 de novembro.
Pelo menos 161 crianças, incluindo seis meninos, foram “vendidas” durante um período de quatro meses, apenas nas províncias afegãs de Herat e Badghis, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Essas crianças têm entre um mês e 16 anos, revelou a porta-voz da Unicef, Alison Parker, durante coletiva de imprensa em Genebra. Alguns são apenas bebês, mas já estão noivos, contou. A questão foi discutida em uma conferência internacional sobre os esforços de reforma do governo afegão, no Palais des Nations, sede da ONU em Genebra. Parker alertou que as crianças foram “prometidas, casadas ou simplesmente vendidas porque os pais estavam endividados” .

“Antes da seca, mais de 80% das famílias já estavam endividadas”. Só que as dívidas explodiram, explicou: muitas pessoas que esperavam pagar as dívidas após a colheita não foram capazes de fazê-lo.

Alison Parker explicou que “casamento infantil é de alguma forma uma norma social enraizada no Afeganistão”, pois 35% da população observa essa prática em todo o país. Em determinadas regiões, chegam até 80%. Com a crise, o sistema se expande.

Comida de emergência

Presentes em Genebra para a Conferência do Afeganistão, membros da sociedade civil afegã expressaram consternação com o fenômeno das meninas “vendidas”.

“É muito, muito chocante “, disse Suraya Pakzad, que dirige a Voz da Mulher no Afeganistão. As pessoas precisam desesperadamente de ajuda. Especialmente comida .

Segundo a ONU, pelo menos três milhões de afegãos estão em situação de absoluta emergência alimentar e em risco de fome em consequência da seca devido à falta de chuva e da neve no inverno passado.

Eleição tem. Resultado não.

Politicamente, o Afeganistão vive uma situação esdrúxula. Houve eleições há mais de um mês, mas ninguém sabe quem foi eleito. Lá os dias eleitorais são os mais preocupantes do ano porque se sabe de antemão o que vai acontecer.

A votação no sábado, 20 de outubro, e domingo, 21 de outubro, para a renovação do Parlamento não negou isso. As ruas vazias de Cabul já prenunciavam um recorde, alcançado domingo à noite: foram 49 mortos, incluindo 38 civis e 11 membros das forças de segurança, além d e centenas de feridos.

Só um atentado suicida no sábado em um posto eleitoral do noroeste da capital matou 15 pessoas. Os rebeldes talebãs não aceitam eleição. Acham que é uma degeneração ocidental.

Quase 200 incidentes foram relatados, incluindo o uso de minas artesanais. No norte de Kunduz, o Taleban matou um mesárioe queimou as cédulas. O porta-voz do Taleban, Zabihullah Mujahid, avisou os cidadãos para “abster-se de participar deste processo teatral para proteger as próprias vidas” , e assegurou que “318 ataques foram realizados contra essas falsos eleições”.

Mesmo antes de conhecer o conteúdo das urnas, sabe-se que sem dúvida criará outras disputas, ameaçando a credibilidade da eleição. Resultados provisórios começaram a sair a 10 de novembro, mas o final só está prometido para 20 de dezembro.

Saiba mais

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) disse em um comunicado que realizou seu primeiro “transporte aéreo” no oeste do Afeganistão no sábado para entregar milhares de tendas para abrigar os milhares de pessoas deslocadas pelo conflito e pela seca que atinge o país. O Acnur planeja realizar um total de 12 voos, todos a partir de bases aéreas ou aeroportos do Paquistão.

As secas e os conflitos desalojaram mais de um quarto de milhão de afegãos na região nos sete meses que se passaram desde abril, segundo o Acnur. Atualmente, cerca de 220 mil famílias vivem em abrigos improvisados nas províncias de Herat, Badghis e Ghor, e com a aproximação do inverno, o Acnur informa um aumento no número de crianças que morrem.

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