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Armênia acusa Turquia de derrubar avião militar a partir do Azerbaijão

O governo turco, segundo a agência Bloomberg, negou o relato armênio

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Foto: Ministério da Defesa da Armênia/Reuters
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Igor Gielow
São Paulo, SP

A Armênia acusou a Turquia de derrubar um avião militar seu nesta terça (29), em mais um degrau de escalada regional em torno do conflito na região de Nagorno-Karabakh.

O território é controlado por armênios étnicos dentro do Azerbaijão, que tem apoio de Ancara.

O governo turco, segundo a agência Bloomberg, negou o relato armênio. Segundo Ierevan, um avião de ataque ao solo Su-25 estava em patrulha sobre a região de Vardenis, perto da fronteira azeri, quando foi atingido por um míssil disparado por um caça F-16 turco operando no espaço aéreo do Azerbaijão.

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O piloto armênio do avião de fabricação soviética, 1 dos 14 do inventário do país, morreu, segundo o Ministério da Defesa.

A acusação somou-se à uma troca incisiva entre Armênia e o Azerbaijão, que também nesta terça indicaram a expansão dio conflito iniciado no domingo (27) para além da zona disputada pelos dois países.

Segundo o governo armênio, houve a primeira morte fora da área de Nagorno-Karabakh nesta terça (28), um dia após a escalada no conflito ter levado a sérios choques militares e ter somado talvez 100 mortos.

“As Forças Armadas do Azerbaijão atiraram contra uma base militar em Vardenis e também usaram sua Força Aérea”, escreveu no Facebook Shushan Stepanyan, porta-voz do Ministério da Defesa armênio. “Esperem por uma resposta dura”, completou.

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Imagens de redes sociais replicadas em páginas do governo de Ierevan também mostraram imagens de um ônibus civil que teria sido atingido por um drone azeri em Vardenis, cidade a 20 km da fronteira do Azerbaijão e que fica a cerca de 150 km das áreas disputadas.

Do lado de Baku, o Ministério da Defesa azeri afirmou que também teve seu território atacado, com bombardeios armênios na região de Dashkasan, que fica junto à fronteira próximo a Vardenis.

Já o presidente Ilham Aliyev, durante uma cerimônia diplomática relatada pela agência russa Tass, afirmou que dez civis azeris já morreram desde o domingo.

“Nós sofremos baixas nesses dois últimos dias. Infelizmente, o número de baixas civis está aumentando. Dez civis foram mortos, cinco deles da mesma família”, disse.

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Já havia relatos de caças F-16 turcos voando em apoio ao ataque com artilharia contra Vardenis e duas outras vilas da região. As capacidades aéreas do Azerbaijão, assim como da Armênia, são bastante limitadas.

O problema é que a Armênia, ainda que tenha visto derrubado um governo próximo de Moscou em 2018, é muito ligada ao Kremlin. Os russos são seus principais parceiros militares e mantêm uma base com 3.000 soldados, equipados com tanques, em seu território -as Forças Armadas armênias não chegam a 45 mil integrantes.

Mais importante, os 18 caças MiG-29 baseados na base em Gyumri são considerados a principal linha de defesa aérea do país, assim como a presença no local de duas baterias do poderoso sistema antiaéreo S-300. Se os russos usariam tal material contra os turcos, membros da Otan (aliança militar ocidental), é uma questão em aberto.

Isso mostra as implicações possíveis de uma escalada regional, a depender da veracidade das informações veiculadas.

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Como manda o clichê, a verdade é sempre a primeira vítima em conflitos militares, mas se os relatos dos adversários for real, indica que o risco de o embate evoluir para uma guerra generalizada entre os dois países cresceu.

“O fato é que a escala das agressões supera e muito as usuais escaramuças. Há uso de artilharia, aviação e blindados”, disse em artigo Serguei Markedonov, do Centro Carnegie de Moscou.

Ele notou que a última disputa entre os países, em junho, na qual morreram 16 pessoas, também ocorreu fora dos limites de Nargorno-Karabakh, e que a concentração militar azeri desde então foi feita de forma aberta em vários pontos fronteiriços.

O problema é a dificuldade de fazer uma avaliação clara. Mesmo o número de vítimas é altamente incerto neste momento, pois cada lado tende a aumentar a história que conta.

A região de Karabakh é foco de tensão entre os dois países desde os tempos em que ambos eram parte da União Soviética. A distensão que antecedeu o ocaso comunista levou, em 1988, ao início de um movimento de independência total da área.

Habitado por cerca de 140 mil armênios étnicos, o território do tamanho equivalente a duas vezes o do Distrito Federal fica encravado no Azerbaijão -que, por sua vez, possui uma área de maioria azeri separada de suas fronteiras dentro da Armênia.

Entre 1992 e 1994, uma guerra aberta ocorreu, sendo congelada por um cessar-fogo precário. Desde então, a área segue nominalmente autônoma. Sete distritos a seu redor são ocupados militarmente pela Armênia.

O último conflito mais sério ocorreu em 2016, mas analistas como Markedonov já consideram a situação atual pior. Ierevan e Baku decretaram lei marcial e mobilizaram suas forças.

Um motivo é o maior envolvimento das potências estrangeiras com interesses na região, notadamente a Turquia. O presidente Recep Tayyip Erdogan tem dado apoio incondicional aos azeris, e é acusado pela Armênia de fornecer material militar e mercenários aos adversários.

Além de expandir sua influência regional, como já faz na Síria e mesmo na mais distante Líbia, Erdogan quer manter sob controle o fluxo de gás e petróleo do Azerbaijão, por meio de dutos que passam pela Geórgia rumo à Europa por meio da Turquia.

De seu lado, o presidente russo, Vladimir Putin, tem tentado exercer pressão para que os dois lados se acertem, embora haja o risco de um embate por procuração com Erdogan. Os dois líderes, parceiros relutantes, já têm diferenças evidentes em locais como as guerras civis síria e líbia.

Historicamente, a área sempre foi um ponto de atrito entre interesses russos e turcos. Adicionalmente, Ancara não reconhece como genocídio o massacre e a deportação de armênios iniciados em 1915, episódio que opõe os dois países até hoje.

O Irã é outro ator que age na área, mas com interesses internos. Cerca de 20 milhões dos 80 milhões de iranianos são classificados como turcos azeris, e em Baku é comum ver o norte do país dos aiatolás ser chamado de “Azerbaijão do Sul”. O próprio líder supremo em Teerã, Ali Khamenei, é um azeri étnico por parte de pai.

Temendo separatismos, e também por sua proximidade com Moscou e rivalidade com a Turquia, Teerã apoia tacitamente Ierevan no conflito, apesar de a Armênia ser um país cristão, e o Azerbaijão, muçulmano xiita como o Irã.

Por fim, tanto Erdogan como Aliyev estão pressionados internamente, por motivos diversos, o que ajuda a elevar a retórica militar-nacionalista.

É nessa colcha de retalhos que a disputa se desenrola, preocupando líderes da Europa com cenas de guerra explícita num território que pertence ao continente. O Conselho de Segurança das Nações Unidas fará uma reunião fechada nesta terça (29) para discutir o assunto, convocada pela Estônia com apoio de outros países europeus.

As informações são da FolhaPress




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