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Morando Fora

Quando no exterior, preste atenção nos hábitos ecológicos para não dar mancada

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A preocupação com a ecologia e a sustentabilidade passa curiosamente pela cultura de cada país. Consequentemente, o cuidado de alguns grupos com a qualidade do ar que respiram ou com a participação efetiva em medidas diárias que contribuam para a preservação de uma espécie de animal não podem ser totalmente descartadas de um traço cultural. E nessa onda vem também como cada um consome água, separa o lixo, como compram, por exemplo. É preciso incluir, claro, decisão e vontade política, leis vigentes, situação econômica etc. Mas essas não estariam também conectadas com os traços culturais?

Em primeiro lugar, valores culturais são tão arraigados que passam despercebidos pela maioria dos indivíduos. Geralmente não se pensa no assunto até a primeira viagem internacional, quando o cidadão se depara com uma multidão incomum, que se veste, fala e se porta de outras maneiras, incluindo nesse pacote as formas diferentes e mais cuidadosas de se jogar o lixo, o chocante respeito ao silêncio de algumas sociedades, a proibição de mascar chiclete, para não sujar o piso. Enfim, preocupações diárias com o meio ambiente que nunca passaram pela cabeça de quem vem do Brasil.

Levando bronca
Por que falo sobre esse assunto na coluna Morando Fora? Porque muito turista ou recém chegado a um novo país leva bronca de desconhecido na rua porque faz algo errado: ou joga o lixo no chão ou sem separá-lo, masca chiclete, deixa o motor do carro ligado. E por aí vai a lista de mancadas.

Na Suíça
Aqui na Suíça, país onde moro desde 2005, praticamente todo ano, durante um determinado período, alguns ônibus não circulam em algumas rotas devido à reprodução dos sapos. É para o veículo não matar os que atravessam a rua para namorar. Só para citar um outro exemplo, aqui também não se deixa o motor do carro ligado caso esteja parado, mesmo com pessoas dentro e um calor de 35 graus ou um frio de menos dez graus Celsius. Eu mesma já fui chamada a atenção. Passei a vergonha de ter um senhor batendo na minha janela e pedindo para eu desligar o motor. A empresa de distribuição de energia da região da Basiléia, a EBL, propôs uma ação bem interessante no mês de setembro, conforme artigo: todos os moradores de um vilarejo teriam que largar seus carros durante uma semana e dirigir somente com automóveis movidos a energia elétrica. E não é que teve gente que emprestou seus carros para pessoas desconhecidas, já que nem todo mundo tinha esses veículos?

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Se pensarmos em termos mais abrangentes, salvo raras exceções, o que vemos no Brasil confirma essa ligação entre cultura e preocupação com meio ambiente e sustentabilidade. Cozinha-se com fartura e joga-se comida fora, sofás velhos boiam nos rios, usar o carro próprio é sinal de status. Obviamente o transporte público não tem qualidade. Compra-se como diversão. Exemplos que não combinam com o pensamento sustentável mas que estão arraigados na cultura brasileira.

De acordo com Dalen Jacomino, especialista em sustentabilidade e consultora da organização não-governamental The Natural Step Switzerland, se pensarmos em termos de implementação da sustentabilidade pelo lado das empresas, é possível observar outro ponto delicado da cultura nacional em relação ao tema: o excessivo foco no curto prazo. “Para reduzir ou eliminar o uso de energia fóssil, por exemplo, é preciso antes de tudo olhar no médio e longo prazos, planejar e investir. Se no resto do mundo ainda é preciso esclarecer os tomadores de decisão que sustentabilidade traz inovação, diminui riscos, melhora a reputação da organização e é um fator de atração de talentos, no Brasil essa conversa pode ser ainda mais complicada em função das instabilidades econômica e social”, explica a especialista.

Pelo lado do consumidor, a história não é muito diferente. “O brasileiro, que hoje mal consegue pagar suas contas, dificilmente tem condições de comprar produto orgânico, café certificado, enfim, produtos esses que, em geral, são produzidos de uma maneira mais consciente, minimizando os impactos negativos ambientais e sociais”, explica. “Por outro lado, existem iniciativas muito interessantes no Brasil, de baixo custo inclusive, que têm enorme valor nessa área. Em geral, no entanto, a cultura e o ambiente do país não favorecem a mudança que é mais do que necessária”, afirma.

Diferenças culturais
Estudo de 2013, dos economistas George Halkos e Nickolaos Tzeremes, publicado no Journal of Environmental Economics and Policy Studies, avaliou a influência na relação entre as principais dimensões culturais e a eficiência ecológica e detectou uma correlação interessante. Durante os últimos dez anos, foram examinadas a relação entre as emissões de dois grandes gases de efeito estufa e quatro das categorias mais amplamente reconhecidas da cultura, utilizando o modelo de Dimensões Culturais de Hofstede: que divide as culturas entre as categorias masculinidade versus feminilidade, distância de poder, individualismo versus coletivismo e evitamento da incerteza.

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Na análise, uma sociedade masculina é definida como aquela que valoriza o sucesso e o progresso material, enquanto a mais feminina prioriza a modéstia. A alta distância de poder traduz-se na crença de que os poderosos têm privilégios e podem herdar sua posição por meio de força; as sociedades com baixa distância de poder acreditam que a pujança poder deva ser distribuída igualitariamente. Os povos coletivistas valorizam os interesses dos grupos em relação aos interesses individuais. Por fim, evitar a incerteza significa o grau de tolerância da sociedade para situações desconhecidas.

Com exceção da masculinidade e feminilidade, cada fator teve um efeito estatisticamente significativo nas métricas de desempenho ambiental. As categorias distância de poder e o individualismo foram que a mais exerceram influência sobre o resultado. Nessas sociedades, há uma maior tendência ao comportamento consciente em relação ao meio ambiente.

Não se sabe se o Brasil foi avaliado na pesquisa, mas ao dirigir a análise para o país e comparar com modelo de cultura de Hofstede, pode-se dizer que integramos a lista das nações com grande distância de poderes, alta tolerância à incerteza e características coletivistas. Claro que é tendencioso atribuir a nações determinados estereótipos por integrarem uma ou outra categoria cultural. No entanto, conectando os pontos do estudo com observações diárias da cultura brasileira comparada com a literatura do antropólogo Roberto DaMatta, leva-se a crer que o conteúdo se interconecta.

Indo da teoria para o lado prático, é importante mencionar que o aspecto hierárquico brasileiro do “sabe com está falando” leva a uma interpretação diferenciada da lei: a de que alguns têm mais direitos que outros. Afinal, quem se acha com poder de desrespeitar uma regra porque se sentir em posição superior aos demais está praticando a hierarquia de poderes, quebrando um protocolo que deveria ser seguido. Sendo assim, prepare-se para perder alguns privilégios de não se preocupar com o planeta e preste atenção nos cuidados com o meio ambiente quando estiver morando fora. Ou está arriscada a ser chamado a atenção na frente de todo mundo e passar vergonha. Não vai rolar perguntar sabe com quem está falando.

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Liliana Tinoco Bäckert é jornalista e tem mestrado em Comunicação Intercultural pela Universidade da Suíça Italiana. Carioca, tem dois filhos, é casada com um alemão e vive naquele país desde 2005, onde também trabalha como treinadora intercultural independente. Decidiu transformar o próprio choque cultural em combustível para ajudar outros brasileiros que já vivem fora ou que pretendem se lançar nessa aventura globalizada.

 




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