Até o início dos anos 1990, a principal aposta do tênis brasileiro e do técnico Larri Passos era Marcus Vinícius Barbosa, o Bocão. Semifinalista da chave juvenil de Wimbledon em 1988, o atleta de Brusque foi o ídolo de infância de outro tenista catarinense, o então jovem Gustavo Kuerten, e contribuiu diretamente para que o treinador começasse a trabalhar com Guga. Agora ele usa os ensinamentos de quem chama de mestre para fazer decolar a carreira da promissora Beatriz Hadadd Maia.
Gaúcho, Larri Passos foi morar em Santa Catarina para guiar a carreira de Bocão, que já tinha passado três temporadas morando com o treinador, em Novo Hamburgo. O técnico trabalhava com seu promissor atleta de manhã e, a partir de 1989, comandava de tarde o treinamento da equipe da Ceval, da qual Guga fazia parte.
Em sua biografia Guga – Um Brasileiro, editada pela Sextante, o tricampeão de Roland Garros coloca a oportunidade de treinar com o técnico do conterrâneo como um dos grandes incentivos aos primeiros passos de sua vitoriosa carreira: “Eu tinha orgulho de ser visto ao lado do treinador do Bocão e, mais ainda, que ele gastasse tempo dando atenção a mim”, diz na obra, sobre uma semana de treinos com Larri quando ainda tinha 10 anos.
“É óbvio que me orgulha ter feito uma pequena parte e motivado ele, assim como todo o mundo tem seus ídolos. É gratificante e legal, mas na realidade é ele quem é o gênio e o ídolo”, disse Bocão, cuja carreira dentro das quadras foi abreviada por causa de uma contusão no punho, na época em que fazia a transição do juvenil para o profissional.
Antes de deixar as quadras por causa da lesão, a primeira promessa catarinense do tênis chegou a viajar para torneios ao lado de Guga, que era então considerado seu sucessor e com que hoje mantém uma amizade fora do esporte. A relação entre a família dos dois tenistas é anterior às carreiras. Bocão se refere ao pai de Guga como Tio Aldo e sua mãe, ainda com 14 anos, era cabelereira da vó do tricampeão de Roland Garros, em Brusque.
Sem chances de prosseguir a carreira, mesmo depois de uma operação, Marcus Vinicius Barbosa decidiu trabalhar como treinador e montou sua própria academia. Foi técnico de André Sá, Márcio Carlsson e Ricardo Mello, sempre próximo a Larri, antes de se juntar a seu antigo mentor. A separação foi no início de 2013, quando Bocão abriu pela segunda vez uma academia de tênis, quebrando uma promessa
“Eu sou um pouco filho do Larri, morei três anos com ele, dos 12 aos 15, em Novo Hamburgo. E até hoje quando mando mensagem, eu o chamo de mestre. É realmente uma figura importante para nós”, explicou. “Eu tinha jurado que não abriria uma academia de novo, porque é muito complicado, mas fiz mesmo assim”.
Foi na academia de Larri Passos que Marcus Vinicius Barbosa conheceu Beatriz Haddad Maia, uma das revelações do tênis nacional. A atleta paulista treinou por quase três anos com o mentor de Guga, atualmente morando nos Estados Unidos, e se tornou atleta de Bocão quando a parceria acabou, em agosto do último ano.
Na última semana, Bia, de 18 anos de idade, alcançou o melhor resultado de sua carreira com a classificação às quartas de final do WTA do Rio de Janeiro. Derrotou a argentina María Irigoyen e a eslovena Polona Hercog, 77ª do mundo, e só caiu diante da italiana Sara Errani, 16ª do ranking e favorita ao título, depois de desperdiçar três match-points no segundo set e sofrer com câimbras no terceiro.
Nos vestiários do Rio de Janeiro, Bocão ouviu elogios a sua jogadora de Rafael Nadal e outros tenistas masculinos, como o italiano Fabio Fognini e o uruguaio Pablo Cuevas, mas tenta controlar a expectativa criada sobre Bia, apontada como esperança do tênis nacional desde o início da adolescência.
“Na primeira conversa com ela na academia eu falei: Bia, tu és uma jogadora moderna. Tu tens muitas coisas que todas as jogadoras queriam ter. Tu és alta, tu és canhota, tu bates forte na bola, tu sacas bem e tu és bonita. Porque a maioria é feia pra caramba”, divertiu-se. “Há bastante coisa que faz as pessoas acreditarem que ela tem um futuro, mas é uma jogadora ainda em formação. Até os 24 anos, praticamente, estará se formando”, afirmou.
Por isso, Bocão tenta preparar Bia para oscilações no circuito profissional nos próximos anos. Esta semana, por exemplo, ela foi eliminada ainda na primeira rodada do ITF de Campinas, perdendo para a paraguaia Montserrat González, sua amiga e parceira de duplas no vice-campeonato juvenil de Roland Garros de 2012.
Mesmo com a derrota precoce em Campinas, Bia pode colher os frutos da boa semana no Rio de Janeiro ainda no primeiro semestre. Na 202ª colocação do ranking mundial, a melhor de sua carreira, ela deve tentar vaga no qualifying do Premier de Charleston, o que não fazia parte da programação inicial, e também icou mais próxima de entrar no torneio classificatório de Roland Garros. Em 2014, a última tenista a entrar no quali do Aberto da França ocupava a 206ª colocação do ranking. No ano anterior, a 218ª.