A insistência com a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro confirma a ideia de que, para o Jair Bolsonaro, candidatura, chapa presidencial de direita, só serve usando o nome de um consanguíneo.
A federação do centrão, formada pelo PP e União, já admite veto a uma coligação com o nome do PL, numa clara reação a esta queda brusca e rápida, detectada pelo Datafolha, depois do episódio da divulgação dos áudios e mensagens trocadas pelo presidenciável do PL com o banqueiro Daniel Vorcaro do Master. Mesmo assim, o ex-presidente insiste com Flávio Bolsonaro, depois de fingir que não viu o balão de ensaio com a candidatura presidencial do outro filho, Eduardo, que não decolou.
Na outra ponta, prevalece os números que confirmam a fidelidade da faixa bolsonarista do eleitorado, servindo, inclusive, de argumento para manter a candidatura do filho zero um. Até porque, sem a menor cerimônia, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, descartou a opção por Michele, ex-primeira-dama. Afinal de contas, ela não tem o sangue de Bolsonaro nas veias.
O fato é que, para Jair Bolsonaro, a derrota da direita na eleição presidencial não é o fim do mundo. O risco real pra ele seria o país descobrir que existe vida eleitoral na direita, fora da lista de mortais com sobrenome Bolsonaro. E isso, para um movimento construído na base do personalismo, seria um teste perigoso demais. Muito mais perigoso que qualquer crise nas pesquisas de intenção de voto. Algo que segue apostando em militantes que aparecem em vídeo bebendo detergente, para defender a qualidade dos produtos de uma marca apoiada pelos seguidores do “mito”, mesmo depois de punida pela ANVISA.
Enquanto isso, do outro lado do tabuleiro, Romeu Zema e sua equipe perceberam o surgimento de uma oportunidade. No primeiro momento, o então governador mineiro pareceu recuar. Depois de reagir com dureza inicial ao episódio dos áudios e classificar a situação como algo decepcionante e um “tapa na cara dos brasileiros”, veio a tentativa de baixar a temperatura. O discurso virou prudência. A crise entre conservadores parecia destinada a ser tratada como página virada. Só que esse recuo durou pouco, com direito a Caiado cobrando explicações do filho zero um.
Quando começaram a surgir sinais de que Jair Bolsonaro não desistiria de ter um filho como eixo da disputa presidencial, Zema recalculou seu plano de voo. Como ele viu que Bolsonaro não entregaria o espaço, lhe restou o caminho que aumenta o custo político de quem segue monopolizando o eleitor de direita, que saiu do armário na eleição da facada.
O político mineiro, no melhor estilo nordestino, abandonou a cautela e voltou a endurecer o discurso. Prevalece a cobrança por explicações convincentes, salientando a incompatibilidade com o discurso moral que ajudou a construir parte da direita nos últimos anos. “ Quem estiver ao lado de corrupto não conte comigo”, salientou Zema, pautando o novo tom.
O ex-governador mineiro percebeu que disputar diretamente o eleitor bolsonarista raiz talvez seja impossível. Mas disputar o eleitor conservador cansado das bandalhas e explicações esfarrapadas, pode ser uma janela, na medida em que tudo pode acontecer numa nova versão de proposta de delação de Vorcaro. Parece um tudo ou nada. Mas existe um cálculo por trás disso.
Se Flávio sobreviver politicamente e perder a eleição, Zema sai como a única liderança que teve coragem de enfrentar o núcleo familiar, plantando bases para 2030. Se Flávio, entretanto, enfraquecer e virar um Zumbi eleitoral, Zema já terá ocupado previamente o território do eleitor que quer continuar à direita, que pode apostar no voto útil, sem ter de carregar o escândalo do banco Master no seu voto. Tudo dentro de uma matemática que leva em conta a força de Zema no maior colégio eleitoral do Brasil.
Na teoria, entregando, a prática pode ser diferente. Inclusive porque a turma do Zema não considerou a extensão da teimosia do Capitão, que só vai largar a rapadura quando a derrota for iminente. Mas aí, pode ser tarde