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Estilo de Vida

Onde a Casa Pulsa transforma memórias de família em arquitetura na CASACOR Brasília

Assinado por Giovana Leal, ambiente de 102 m² aposta na integração dos espaços e em objetos carregados de história para mostrar que morar também é construir vínculos e preservar lembranças

Isabele Mendes

30/09/2026 7h00

Atualizada 29/09/2026 22h37

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Foto: Bruno Alpino/Jornal de Brasília

Há casas que impressionam pela estética. Outras permanecem na memória pelo que fazem seus moradores sentirem. É justamente nessa segunda ideia que a arquiteta Giovana Leal encontrou o ponto de partida para criar o Onde a Casa Pulsa, ambiente apresentado na CASACOR Brasília 2026. Em 102 m², o projeto integra living, jantar e espaço gourmet e transforma lembranças pessoais, das louças dos avós aos discos de vinil, em elementos de uma arquitetura contemporânea pensada para aproximar pessoas e resgatar o sentimento de pertencimento.

Em entrevista ao JBr Talks, apresentado por Marcelo Chaves diretamente da Casa do Candango, Giovana contou que, ao contrário do movimento de buscar referências externas para desenvolver um projeto para a mostra, decidiu olhar para a própria história. A inspiração veio da infância, de uma casa cheia, das mesas postas e das conversas que atravessavam a tarde e chegavam ao anoitecer. 

“Quando eu pensei em fazer esse projeto, na verdade, foi o contrário. Eu olhei para dentro, tentei entender as minhas raízes, as minhas lembranças e o que fazia sentido para mim”, explicou Para a arquiteta, os ambientes ligados à ideia de cuidado são justamente aqueles nos quais a família consegue estar reunida. A proposta, segundo ela, foi conciliar essa história afetiva com uma linguagem contemporânea. 

Arquitetura que conta histórias

Essa relação entre arquitetura e memória não fica restrita ao conceito. Ela aparece nos detalhes do espaço e também traduz a maneira como Giovana diz conduzir os projetos do próprio escritório. Antes de pensar apenas em materiais, móveis ou tendências, a arquiteta afirma buscar compreender quem vai ocupar aquele lugar.

“O primeiro ponto, quando o cliente chega até nós, é escutar o que ele tem, a história dele, as raízes dele”, contou. Viagens, experiências e lembranças pessoais passam, assim, a integrar o processo criativo. Para ela, são essas particularidades que permitem que um projeto deixe de ser apenas um ambiente visualmente bem resolvido e passe a carregar a identidade de quem vive nele.

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Foto: Bruno Alpino/Jornal de Brasília

Esta é a segunda participação de Giovana na CASACOR Brasília. Na edição anterior, a arquiteta trabalhou um conceito relacionado à fé. Agora, decidiu manter dois valores que considera centrais, fé e família, mas avalia que chega à mostra com um projeto mais maduro e ainda mais próximo da identidade desenvolvida pelo escritório ao longo da carreira. Em 2026, ela também comemora dez anos de atuação na arquitetura. 

A integração é uma das principais características do Onde a Casa Pulsa. Living, jantar e gourmet foram organizados para funcionar em conjunto, mas sem perder suas funções individuais. A intenção era criar um ambiente amplo e possível de ser imaginado dentro de uma casa real, no qual a circulação contribuísse para os encontros.

“A gente quis trazer para cá algo que as pessoas olhassem e falassem: ‘Nossa, eu teria isso na minha casa’”, afirmou. Segundo Giovana, a integração favorece a ideia de família reunida e cria um espaço no qual as pessoas possam se desconectar do que está do lado de fora para se conectar com quem está dentro. 

Louças que atravessam gerações

Se toda casa tem um coração, no projeto de Giovana ele ganhou a forma de um louceiro. A peça ocupa posição central na narrativa do ambiente e guarda objetos que não foram escolhidos apenas pela estética: entre eles estão louças que pertenceram aos avós da arquiteta e acompanharam décadas da história da família.

“O louceiro realmente é o coração do nosso projeto, porque ele remete muito às minhas raízes. Eu amo mesa posta, muito vindo da minha mãe, da minha avó”, explicou. Parte das peças foi usada pelos avós ao longo de 70 anos de casamento. O avô morreu há mais de 18 anos, mas as louças permaneceram na família e foram levadas à mostra como uma homenagem.

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Foto: Bruno Alpino/Jornal de Brasília

A presença desses objetos também ajuda a estabelecer o diálogo entre passado e presente. Em vez de tratar o antigo como elemento separado da arquitetura contemporânea, Giovana buscou mostrar que as duas linguagens podem conviver. “A nossa história faz parte de um processo em que o novo com o antigo faz totalmente uma harmonia”, destacou.

A atmosfera de acolhimento se estende à escolha dos materiais e do mobiliário. Madeira escura, camurça, iluminação intimista, tons sóbrios, veludo marrom e diferentes texturas compõem o ambiente. A seleção, segundo a arquiteta, buscou criar impacto visual sem abandonar a sensação de aconchego associada à casa e à família. 

Memória de quem entra

O resultado tem provocado uma reação que vai além das próprias lembranças da arquiteta. Durante a mostra, Giovana percebeu que visitantes começaram a reconhecer nos objetos pedaços de suas próprias histórias. Há quem veja as louças e se lembre das peças guardadas pela avó ou bisavó. Outros encontram a conexão nos discos de vinil e na vitrola instalados no ambiente.

Para a arquiteta, essa identificação é justamente o que diferencia um espaço bonito de um lugar capaz de estabelecer uma relação com quem o visita. “Um ambiente lindo é o básico. Mas ambientes que carregam história, que as pessoas entendem essa história, é realmente o que conecta”, afirmou.

A vitrola reforça esse caráter interativo. Os visitantes podem observar os discos, reconhecer artistas e lembrar músicas que fizeram parte de diferentes momentos da vida. O projeto, dessa forma, não foi pensado apenas para ser contemplado: ele convida quem entra a circular, observar e estabelecer relações pessoais com os objetos espalhados pelo espaço. 

Essa proposta também dialoga com uma reflexão de Giovana sobre a maneira como as pessoas vivem atualmente. Em meio a rotinas aceleradas e à conexão constante com o ambiente externo, ela defende que a casa pode funcionar como lugar de presença e convivência. “A gente está num ambiente onde vai confraternizar, onde vai estar em família e deixar tudo para fora. Eu acho que isso é o que mais faz sentido para a gente”, resumiu. 

No fim, apesar das diferentes referências, materiais e histórias reunidas nos 102 m², Giovana aponta uma sensação simples como a principal resposta que espera provocar no público: sentir-se em casa. “Olhar cada cantinho e falar: ‘Nossa, isso eu teria na minha casa, isso conta uma história’. Eu acho que é isso: se sentir em casa”, concluiu.

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