Há um desespero mal disfarçado rondando um segmento da política brasileira que insiste em se apresentar como “direita”, mas que, na prática, se tornou refém de um sobrenome. Trata-se de um grupo que vestiu-se no figurino do conservadorismo para apostar todas as fichas no retorno de Jair Bolsonaro ou um consanguíneo para a presidência da republica.
Nesse contexto, a candidatura de Flávio Bolsonaro surge menos como projeto nacional e mais como seguro patrimonial. Serve, sobretudo, para manter espaços, holofotes e influência de uma direita condicionada, incapaz de alimentar um padrão de existência sem um Bolsonaro no topo da chapa. Uma inspiração suicida, na medida em que especialistas apontam esse cenário como o mais confortável para Lula, uma vez que transforma a eleição em plebiscito entre passado e presente, reduzindo o campo da direita a uma caricatura familiar.
O apelo por esse projeto chega a ser constrangedor. Trata-se de algo que leva Flávio Bolsonaro a empreender um périplo cuidadosamente roteirizado pela Terra Santa, com direito a batismo no rio Jordão, numa repetição simbólica da agenda do pai antes da disputa eleitoral de 2018. A cena da terra Santa não mira o eleitorado evangélico em geral, mas tenta disputar um território que tem identidade clara: Michelle Bolsonaro.
A atitude desses “direitistas condicionados” passaram a atacar a ex-primeira-dama que figura como elemento central na conexão da direita brasileira com o chamado Povo de Deus. Sem os pudores de quem evita o baixo calão para se referir a uma senhora, Allan dos Santos, expoente desse bolsonarismo condicionado, disparou contra Michelle, que estaria apoiando o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, numa eventual disputa presidencial.
Michelle reagiu com dureza. Classificou Allan dos Santos como “boneco de ventríloquo de canalhas” e o chamou de “Alan dos demônios”. Disse ainda que ele fez “acusações levianas e injustas”, movidas por um interesse obsessivo em atacar mulheres ou qualquer um que se torne obstáculo aos seus interesses umbilicais.
Essa direita condicionada tem pavor de um consenso em torno da chapa presidencial com Tarcisio de Freitas e Michele Bolsonaro de vice. Talvez por isso, apostem numa linha de “lacração” desmedida, ainda que resulte numa autofagia bufa.
Essa turma reagiu com irritação ao discurso de que o país precisa de um “novo CEO”, expressão curtida por Michelle em rede social, para se referir ao governador paulista, no contexto de um projeto tido como viável para uma direita que, aliás, pretende ser maior que a lembrança de Bolsonaro.
Para “matar o mal ou o bem” pela raiz, a defesa de um sobrenome Bolsonaro no Planalto segue oum padrão reincidentemente ofensivo. Carlos Bolsonaro, inclusive, rotula de isentões” e “limpinhos” outros políticos da direita, como se todos devessem a existência eleitoral ao prestígio do pai. Na mesma trilha, o blogueiro Paulo Figueiredo sentencia que o “bolsonarismo não quer um CEO”. Para ele, pensar o país como empresa seria “positivismo estúpido típico de milico”, numa ironia dirigida justamente a Tarcísio, que serviu 17 anos ao Exército.
O padrão da divergência expõe o esgotamento de parte da direita que se agarra a um sobrenome como tábua de salvação. Ao transformar a política em herança familiar orientada por uma lógica de chantagem interna, esse grupo não apenas facilita a vida de Lula como dificulta a viabilidade de uma composição pelo voto útil.
Todo mundo sabe que essa onda por Flávio Bolsonaro surfa numa transferência automática de votos que bebe na fonte eleitoral do Bolsonaro pai, numa dinâmica que se confirma nas pesquisas de opinião. Mas estas mesmas pesquisas indicam que saldo eleitoral apurado só com o bolsonarismo é insuficiente. Mesmo espremendo o bagaço até a última gota de suco.
A direita condicionada pode até admitir em segredo a ideia de uma composição com Tarcisio, ou outro, mais lá na frente, para uma chapa pragmática. Mas pode ser tarde. Até porque, os números confirmam hoje a liderança confortável de Lula já no primeiro turno, com Flávio empacado em 27,8% até na pesquisa do instituto Paraná, divulgada em 26 de dezembro.