A homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no último ano de seu terceiro mandato levou a desconhecida Acadêmicos de Niterói para o noticiário internacional, testou os limites prévios da atual versão da justiça eleitoral e atrapalhou o feriadão de carnaval de boa parte da advocacia ligada aos partidos de oposição. Fora isso, essa pauta não trouxe novidade, ainda que as manchetes tenham carregado na tinta do noticiário sobre as acusações de ilícitos eleitorais relacionados ao desfile.
Nesse enredo, a novidade, de fato, ficou por conta do padrão da reação do ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre pena no Complexo da Papuda, sem o privilégio de acesso à TV por assinatura. Segundo publicação de um de seus filhos na rede social, o ex-presidente teria passado mal, precisando de atendimento médico, na noite do domingo de Carnaval, logo após a repercussão do desfile em que ele foi retratado em trajes de palhaço, usando tornozeleira eletrônica ou atrás das grades.
Vale ressalta que essa, aliás, não foi o primeiro desgosto de Jair Bolsonaro com os desfiles da sapucaí. Em 2022, Bolsonaro esqueceu o cargo de presidente da república para funcionar como dublê de comentarista de Carnaval, ao definir como “apresentação ruim” o desfile de carnaval da escola Rosas de Ouro, que criticou Bolsonaro por ter relacionado a vacina contra COVID à transformação do vacinado em um jacaré.
Quem foi pra Sapucaí no primeiro dia de desfile desse ano, confirmou o gosto popular sem ressalvas para o maior espetáculo da Terra. A polarização não entrou no asfalto e ficou retida no despropósito das redes sociais e seus algoritmos nefastos .
Quem gostava do Lula, se empolgava animadamente com o refrão. Quem não vota em no petista, por sua vez, apenas acompanhava o desfile.sem entrar nessa briga que corre fora da avenida.
Para garantir lastro a um falso dilema, juristas como Alberto Rollo, argumentam que o desfile ultrapassou a homenagem histórica ao incluir temas atuais e motes de campanha, o que poderia ser interpretado como um “comício” fora do período permitido.
Do lado dos que defendem o desfile, o jurista Rodolfo Prado, advogado constitucionalista e professor universitário, defendeu, publicamente, a legalidade do desfile da Acadêmicos de Niterói.
Quem acompanha o Carnaval com memória histórica sabe que essa polêmica não é novidade; novidade, aliás, é fingir surpresa.
Em 1989, a Beija-Flor levou para a avenida o antológico “Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia”. No auge do desfile, uma alegoria com um Cristo mendigo foi proibida de aparecer descoberta por pressão religiosa e moral. Resultado: a escola desfilou com a estátua coberta por plástico preto e um cartaz improvisado — “Mesmo proibido, olhai por nós”. O tiro saiu pela culatra , na medida em que a tentativa de impedir a manifestação política acabou imortalizando o protesto.
Toda vez que tentaram moldar o Carnaval por pressão externa, produziram o efeito contrário. O Cristo coberto virou ícone cultural. O vampiro da Tuiuti virou meme político internacional.
No primeiro ano do governo Lula, 2023, a beija-flor de Nilópolis levou para a avenida uma crítica severa à fome e à desigualdade, com a presença de diversos ministros e figuras do PT no topo dos carros, celebrando a ascensão de um operário ao poder, o que gerou debates sobre a proximidade entre o governo e as agremiações.
O desfile celebrava, sem pudores, a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência da república e as lutas do povo brasileiro contra a fome e a opressão. A oposição da época se queixou como a oposição de hoje, ameaçando ações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), questionando se o desfile configurava propaganda política subliminar ou promoção pessoal do novo presidente. Eles ressaltavam que Lula era torcedor declarado da beija-flor, que teria retribuído na avenida a preferência declarada.
A diferença entre esse caso da acadêmicos de Niterói de 2026 e a Beija-Flor de 2003, entretanto, fica por conta do resultado das notas do juri. Depois de amargar dois vice-campeonatos, a escola de samba de Nilópolis sagrou-se como grande campeã do Grupo Especial naquele ano.