Depois de quase dois séculos em que os Estados Unidos se apresentaram ao mundo como professores de democracia, o presidente americano resolveu matricular o país num velho curso de política latino-americana.
Na convenção republicana de Dallas, Trump anunciou que, se os republicanos mantiverem a Câmara e o Senado nas eleições de novembro, cada adulto americano receberá US$ 5 mil. A barganha foi batizada de “Trump Dividend”: “Se os republicanos vencerem, vocês vencem conosco e recebem US$ 5 mil”, prometeu.
Trump não oferece dinheiro a quem provar que votou nos republicanos. O benefício, se existir, seria distribuído independentemente do voto. Portanto, não configura simplesmente suborno eleitoral. Em tempos de IA, esse tipo de manobra tinha de ser mesmo mais sofisticado.
Antigamente por aqui, quando o Brasil vivia sob o voto censitário, política e patrimônio já dormiam na mesma cama. A Constituição de 1824 estabelecia requisitos de renda para votar. O dinheiro ajudava a decidir quem podia participar da democracia.
Na República Velha, floresceram coronéis, currais eleitorais e o voto de cabresto. Como o voto era aberto, o chefe político fiscalizava sua freguesia. Emprego, dinheiro e favores entravam na negociação. O voto secreto só veio em 1932, como resposta a esse sistema.
No crediário da cidadania daqueles tempos, era um pé da botina antes da eleição e o outro depois do voto.
Depois vieram dentaduras, telhas, cimento, cestas básicas, empregos, gasolina, dinheiro vivo. Mudaram as mercadorias. O princípio permaneceu: convencer o eleitor de que sua prosperidade depende da vitória de determinado chefe político.
É aí que o anúncio de Trump se torna perturbador.
Não porque seja juridicamente igual à compra de votos do coronel brasileiro. Não é. O coronel dizia: “Se meu candidato ganhar, você terá emprego”. Trump modernizou: “Se meu partido ganhar, você terá US$ 5 mil”.
Sai a botina. Entra o cheque ou dividendo.
Com algo entre 240 milhões e 270 milhões de adultos, a promessa custaria de US$ 1,2 trilhão a US$ 1,35 trilhão. E os Estados Unidos não estão nadando em dinheiro. A dívida nacional ultrapassou US$ 40 trilhões, e o déficit anual está perto de US$ 2 trilhões.
Dividendo normalmente se distribui quando existe lucro. E Trump, nessa pegada, pretende a façanha de distribuir o dividendo do déficit.
É como o sujeito com o cheque especial estourado anunciar champanhe para o condomínio inteiro, desde que seja reeleito síndico.
JD Vance sugeriu que o dinheiro poderia vir das tarifas. O problema é que a arrecadação tarifária está muito longe do necessário.
Mas talvez estejamos sendo excessivamente contábeis. A verdadeira moeda do anúncio não é fiscal. É eleitoral.
Durante décadas, americanos olharam para o clientelismo latino-americano com certa superioridade civilizatória. Chamavam alguns países, com indisfarçável desprezo, de banana republics.
Talvez esteja na hora de verificar a fruteira de Washington.
Porque República de Bananas começa quando o cidadão deixa de ser tratado como titular soberano do voto e passa a ser enxergado como consumidor de recompensa eleitoral.
Trump não inventou o populismo nem o clientelismo. Modernizou.
Sua contribuição é mais sofisticada: industrializou a botina.
O coronel brasileiro precisava visitar fazenda por fazenda, providenciar emprego, dentadura e conferir o voto. Trump resolveu fazer tudo no atacado.
Mais de US$ 1 trilhão na prateleira eleitoral. E um país inteiro como curral potencial.
Pode ser que a proposta nunca passe pelo Congresso. Pode ser que não exista dinheiro ou que desapareça depois da eleição. Politicamente, isso é quase secundário.
Mas a promessa já cumpriu sua função, ao oferecer uma recompensa financeira extraordinária caso o eleitor entregue ao presidente o Congresso que deseja.
No Brasil antigo, o coronel prometia a segunda botina. Na América de Donald Trump, a botina virou dividendo.
Durante muito tempo, Washington ensinou democracia à América Latina.
Pelo visto, Trump resolveu fazer intercâmbio por aqui.