A indicação do novo presidente do BRB, o administrador Nelson Souza, vai além de uma escolha feliz e bem inspirada. Ela restabelece, em dose única, a credibilidade de um banco afetado pela repercussão negativa da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal.
A escolha de Nelson Souza foi recebida com otimismo pelo mercado, que identifica nele a antítese da gestão de Paulo Henrique Costa — marcada por denúncias de assédio e pela percepção de uma conduta que confundia ousadia com temeridade. Nos bastidores, porém, Nelson Souza sempre foi a primeira opção para o BRB.
Restabelecendo uma espécie de “volta para o futuro”, a nomeação de Nelson Souza para a presidência do BRB não é fruto de improviso — e nem poderia ser. Na verdade, ela foi decidida pelo governador Ibaneis Rocha há quase sete anos, mas não se consumou por um capricho do destino.
Tudo começou em dezembro de 2018, quando o governador eleito, Ibaneis Rocha, procurou o então presidente da Caixa Econômica Federal (CEF), Nelson Souza, para formular o convite. Afinal, colocar no comando do BRB o gestor que havia obtido os melhores resultados financeiros da história da Caixa seria uma tacada de mestre. Seria…
O lugar que seria de Nelson Souza em 2019, entretanto, acabou ocupado por Paulo Henrique Costa, também funcionário da Caixa. O nome da primeira opção de Ibaneis era Nelson Souza, mas ele já tinha assumido o compromisso de seguir na presidência da CEF, onde, inclusive, vivera o ponto alto de sua carreira.
Sem o amparo de Paulo Guedes, Nelson Souza foi preterido no governo de Bolsonaro. O governo precisava de alguém que estivesse disposto a aparecer na mesa das lives do ex-presidente Bolsonaro.
Nelson foi trocado por Pedro Guimarães, que acabou afastado do cargo numa avalanche de casos de assédio sexual no banco.
Embora o temperamento de Nelson Souza o impeça de falar sobre o episódio, figuras como o falecido ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, davam como certa a continuidade de Nelson no comando da Caixa. Repetia-se à época que “em time que está ganhando, não se mexe”.
Dono de um currículo raro e trânsito respeitoso entre centro, direita e esquerda, o novo presidente do BRB começou a vida como menor aprendiz do Banco do Brasil, passando depois por um disputado concurso para a Caixa, ainda muito jovem. Na instituição, teve desempenho de alto padrão como diretor, superintendente, vice-presidente nacional, chefe de gabinete da Presidência e, finalmente, presidente do banco em 2018.
Por onde passou, Nelson Souza deixou um legado de eficiência discreta e cordial — muito diferente do ex-presidente Paulo Henrique Costa, denunciado por condutas impróprias como assédio moral contra funcionários, o que provocou problemas emocionais em vítimas que recorreram à imprensa e à Justiça, munidas de gravações de conversas ofensivas.
Segundo fontes que acompanharam o trabalho de Nelson Souza no banco do nordeste, durante o governo de Dilma Roussef, o novo presidente do BRB não é do tipo que aparece nas capas das revistas dominicais. Mas é aquele que resolve na terça-feira os problemas que o mercado cria na segunda. Seu histórico na Caixa e no banco do nordeste não deixa margem a dúvida: entregou saneamento financeiro, governança e previsibilidade — três elementos que o BRB precisa hoje mais do que do ar que respira.
Tendo presidido o Conselho de Administração do BRB antes de assumir a área de cartões Elo na atual gestão da Caixa, a indicação de Nelson Souza reafirma a veracidade do clichê segundo o qual “há males que vêm para o bem”.
A entrada de Nelson Souza no BRB simboliza mais que uma troca de comando: representa a chance de o banco reencontrar sua vocação institucional — a de ser um indispensável instrumento financeiro do Distrito Federal.