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Coluna Informação #073 – O de sempre, embalado para presente

Bolsonaro começa seu discurso apresentando dados percentuais da responsabilidade brasileira na emissão de gases poluentes

Por Rudolfo Lago 23/04/2021 5h00

No fundo, foi o mesmo Jair Bolsonaro de sempre. Mas embalado para presente. Retirada a camisa pirata do Palmeiras e o chinelo de dedo, trocados por um terno de corte mais bem feito e uma gravata colorida, o discurso do presidente ontem na Cúpula do Clima revela exatamente o mesmo tipo de posicionamento de sempre. Um tipo de posicionamento que ignora que a preservação ambiental do planeta a esta altura é um esforço conjunto. E todo esforço conjunto, para dar certo, precisa seguir as mesmas premissas e ir na mesma direção.

Bolsonaro começa seu discurso apresentando dados percentuais da responsabilidade brasileira na emissão de gases poluentes. Pequena, de fato, comparada com a responsabilidade das grandes potências do Primeiro Mundo. E aí cobra desses países um ressarcimento financeiro, uma “justa remuneração” pelos serviços ambientais prestados até aqui pelo Brasil.

Bem, em 2019, quando Bolsonaro imaginava que teria sucesso no papel de ajudante do xerife no faroeste que era então protagonizado por Donald Trump, o Brasil perdeu em apenas dois dias R$ 287,6 milhões de recursos internacionais de ajuda ambiental que então vinham da Alemanha e da Noruega para o Fundo de Preservação da Amazônia.

Na ocasião, o país recebia os alertas vindos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) de aumento do desmatamento na Amazônia. Em vez de levar em conta os alertas, a decisão na ocasião do governo foi demitir o diretor do Inpe, Ricardo Galvão, por estar fazendo o seu trabalho e chamando a atenção para a necessidade de intervenção para evitar um problema maior.

Como Bolsonaro insistia em minimizar o problema, perdeu os recursos primeiro da Alemanha e depois da Noruega. Quando o governo alemão cortou a sua ajuda, de R$ 155 milhões, Bolsonaro respondeu dizendo na ocasião que o Brasil não precisava do dinheiro. “Pode fazer bom uso da grana. O Brasil não precisa disso”, respondeu Bolsonaro à época, acrescentando que a intenção da Alemanha então, era ir comprando o Brasil à prestação.

Voltando a 2021 e à Cúpula do Clima, trocaram o xerife do filme de faroeste. E ele mandou embora da delegacia o antigo ajudante. O bandido que baixou na cidade, o mortal Coronavírus Kid, dizimou boa parte das pessoas. E nem o xerife nem seu ajudante se prepararam minimamente para ele. Pelo contrário, minimizaram o seu potencial de letalidade. Estados Unidos e Brasil viraram os dois maiores palcos da tragédia. Os americanos mudaram o roteiro do seu filme e defenestraram o antigo xerife.

Agora, Bolsonaro corre em busca do caraminguá milionário que antes desprezou. Mas há ainda um problema na sua postura e no seu discurso. E ele provavelmente não passará despercebido das demais nações. O que o mundo deseja hoje de cada um dos seus países não é o reconhecimento quanto ao que foi feito no passado. É a certeza quanto ao que será feito no futuro.

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Os atuais representantes do governo brasileiro estão inseridos na linha predominante no planeta de que a Terra está próxima do seu esgotamento? Reconhecem os riscos do aquecimento global e que é preciso contê-lo? Que precisam mais e mais passar a agir de forma sustentável e menos agressiva para evitar a aceleração desse esgotamento?

Entendem que a pandemia da covid-19 nada mais é que um veemente recado da natureza de que ou paramos com esses abusos ou pereceremos? Estão dispostos a se pautar pela ciência ou continuarão seguindo os tios e tias do Zap?

Na véspera da cúpula do clima, Bolsonaro reuniu amigos e colaboradores em torno de um costelão assado para desagravar o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, figura contestada mundialmente desde que deixou escapar naquela famosa reunião que acabou de completar um ano que sua intenção era passar “uma boiada” de flexibilizações ambientais. Ministro que também pouco antes do início da cúpula virou alvo de uma notícia crime sob a acusação de impedir investigações na Amazônia para ajudar madeireiros. Em volta do costelão, ninguém de máscara, nenhum cuidado com o distanciamento.

De nada adianta o terno bem cortado, a gravata colorida e os modos mais comedidos se toda hora todo mundo é lembrado que a camiseta pirata do Palmeiras e o chinelão seguem bem guardados no armário do presidente, prontos para o uso.

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