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JBr Entrevista
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De olho em um retorno, Cristiano cobra responsabilidade da CLDF

Candidato a um quarto mandato, o ex-deputado criticou a postura do Legislativo local na aprovação da compra do Banco Master pelo BRB

Suzano Almeida

28/09/2026 5h00

Atualizada 23/09/2026 17h11

Cristiano Araújo no JBr Entrevista/ Foto: Divulgação

Cristiano Araújo no JBr Entrevista/ Foto: Divulgação

O ex-deputado distrital Cristiano Araújo (MDB) foi o convidado desta edição do JBr Entrevista, do Jornal de Brasília. Eleito para três mandatos e ex-secretário de Turismo do Distrito Federal e de Ciência e Tecnologia, o emedebista fez duras críticas à atuação da Câmara Legislativa (CLDF) em relação à gestão do Poder Executivo, afirmando que a Casa perdeu a “autogovernança” ao se omitir diante de crises graves, citando expressamente o rombo bilionário envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master.

Conte-nos um pouco da sua trajetória.

Eu comecei muito novo na política, em 2006, entrando pelas mãos do ex-governador [Joaquim] Roriz. Fui o segundo deputado mais votado e me reelegi três vezes seguidas, de 2006 até 2018. Durante esse período, tive a oportunidade de assumir a Secretaria de Ciência e Tecnologia, onde entregamos o Bolsa Universitária — mais de 30 mil bolsas para jovens de baixa renda que eram bem classificados no ENEM. Da mesma forma, demos continuidade à inclusão digital, que não era um programa criado por mim, mas tivemos a oportunidade de ampliá-lo na minha gestão. Logo depois, fui para a Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Tive a oportunidade de fazer um trabalho de concessão de terrenos para grandes empresas e, principalmente, me preocupando com os micro e pequenos empresários. Cedemos muitos terrenos de 2.500 m², 3.000 m², 5.000 m², além de lotes menores para microempresas no Riacho Fundo 1, no Gama e na Ceilândia. A minha preocupação lá na Secretaria foi focar mais no micro e no pequeno, porque o grande a gente sabe que tem acesso ao governo diretamente ou comigo.

E como foi seu mandato seguinte?

Fui eleito pela terceira vez no governo Agnelo [Queiroz], onde minha posição foi de extrema oposição a ele, por conta da Brasília que ele entregava. Lembro-me muito claramente de uma Brasília que fechou o autódromo, perdeu a Fórmula Indy e deixou a grama da cidade alta. Parecia um abandono completo, um apagão geral. A saúde estava com dívidas com fornecedores e terceirizados de vigilância, limpeza e brigadistas, além do atraso de 4 a 5 meses nos pagamentos de alimentação parenteral. Sou um deputado que trabalha muito por essas classes mais simples, mas também tenho muito vínculo com o setor produtivo.

Após 20 anos de carreira política, como avalia a política no DF?

Eu vejo com muita tristeza. Acho que cada vez mais os parlamentares, sobretudo os que querem atuar no DF, tentam criar “feudos”: querem indicar delegacias, chefia de batalhões, chefia de hospitais, regionais de ensino. Ou seja, usam a própria máquina para criar feudos dentro das cidades. Não é difícil você enxergar que tal cidade “pertence” a tal deputado. Mas a cidade não é de nenhum deputado; a cidade é de Brasília, das regiões administrativas. Acho que a população perdeu muito com isso.

Pode dar um exemplo?

Veja a saúde e a educação: virou um “fura-fila” em que, nas regionais de ensino, quem conhece o diretor ou tem vínculo com o deputado estuda mais próximo de casa ou em uma escola de melhor qualidade. Nós vamos entrar para combater isso. É um erro muito duro e severo; não pode ser assim. Esse critério está errado, não está funcionando e a população está desaprovando.

Como o senhor pode descrever sua atuação na Setur e o uso da cultura para o desenvolvimento do turismo?

Eu não entendo que transformei a Secretaria de Turismo em um polo cultural porque o turismo é um tema muito transversal. Você tem o turismo cultural, esportivo, de saúde, corporativo, rural. Tudo é turismo. A grande diferença é que, quando você faz um show apenas para Brasília, ele é um evento puramente cultural que valoriza a música — seja com um cantor nacional que o público quer ou com bandas locais. Já quando você realiza um evento através da Secretaria de Turismo, procura envolver todo o trade: alerta os parceiros de bares e restaurantes (como o Abrasel) e os hotéis para criarem pacotes no fim de semana. Você também pode negociar com as companhias aéreas, pois esses shows geralmente ocorrem no contraturno. Se for algo planejado — como fizemos no Aniversário de Brasília de 2025, conseguindo 30% de desconto em passagens e em hotéis —, você transforma um show em turismo cultural. No turismo esportivo é a mesma coisa: a Stock Car é uma prova esportiva, mas é vista como turismo esportivo. A Fórmula 1 em São Paulo, por exemplo, é o evento de turismo esportivo que mais fatura na cidade, movimentando cerca de R$ 1 bilhão em hotéis, bares, restaurantes, vans e infraestrutura. Temos que pensar o turismo de uma maneira muito mais abrangente do que apenas cultura.

O senhor tem feito duras críticas aos episódios envolvendo o BRB e o Master. O que o senhor pensa sobre essa questão?

Primeiro, voltando ao STF, tenho achado uma excrescência e um desrespeito com a população brasileira o que o STF tem feito nas atitudes de seus ministros. Não vou citar nomes para não personalizar, mas é a coisa mais horrorosa que já vi. Eu me lembro de um Supremo de Sepúlveda Pertence e Maurício Corrêa, onde realmente havia debate, coerência e cumprimento da Constituição. Hoje, acho que não existe mais Constituição, mas sim a interpretação dela — e interpretar, cada um interpreta do seu jeito. As atitudes recentes, como esposas e filhos de ministros com honorários gigantescos assinados, não podem existir na maior corte do país. O Supremo fica mais forte porque a Câmara Federal está polarizada, perdendo tempo discutindo anistia e dosimetria em vez de focar no progresso do país.

E no âmbito do DF?

Aqui na Câmara Legislativa, tenho duras críticas sobre como foi tratada a questão do BRB e o rombo de R$ 10 bilhões. Ninguém sabe explicar direito como isso aconteceu, se foi por “papel podre” ou de quem foi a responsabilidade. Mas o único órgão que poderia ter freado isso, exigindo investigações e balanços, era a Câmara Legislativa. A oposição fez o papel dela, mas tínhamos 18 deputados da base e não me lembro de nenhum ter dito que passou do limite. Estamos falando de 6 mil famílias que dependem do BRB e amam aquele banco. A Câmara perdeu seu poder fiscalizador do Executivo. Não foi feita fiscalização alguma para saber onde está esse dinheiro. Foi uma catástrofe. O BRB mantém 16 programas sociais, como auxílio-material escolar, auxílio-creche, auxílio-uniforme, Pé-de-Meia, Prato Cheio e auxílio-aluguel. Isso atende a cerca de 450 mil pessoas. Se o banco for vendido para a iniciativa privada ou fechar, o que acontecerá com esses programas? O problema é muito mais grave do que o povo imagina, e o BRB acabou “comprando” a base para evitar o debate.

O que a CLDF poderia ter feito e quem poderia ter dado um freio antes disso acontecer?

Dar um freio antes era difícil porque a Câmara não tem acesso aos processos sigilosos do banco. Quem saberia seriam os controladores, auditores, advogados, o presidente e a equipe dele — que era muito pequena e não abria reuniões. Não acho que no início houvesse o dolo de quebrar o banco, mas foram criando e comprando papéis sem valor. Fundamentalmente, os deputados que lá estavam não tiveram compromisso com a sociedade. A Câmara precisa ter autogovernança, e não trocar emendas e cargos por omissão diante de um rombo de R$ 10 bilhões para tentar se reeleger. A Câmara não é um “puxadinho”; ela precisa ser respeitada e ter limites. Já se sabia do rombo de R$ 10 bilhões, pois estava noticiado. Passou do razoável. A população nas 35 regiões administrativas de Brasília está achando isso um absurdo.

O senhor foi um dos responsáveis pela criação do PDAF e ele acabou virando uma moeda de troca. Como o senhor avalia hoje?

O PDAF é um instrumento incrível para fazer o dinheiro chegar direto às escolas. O serviço público é muito moroso: para arrumar um vaso, uma pia ou um espelho quebrou, leva-se de três a seis meses em uma licitação. O PDAF veio para desburocratizar isso. As escolas que têm um deputado “padrinho” ou um diretor com facilidade para captar emendas estão super bem-cuidadas. Depende muito da responsabilidade do gestor em aplicar o dinheiro onde precisa e do compromisso do parlamentar. O programa funciona e não deve deixar de existir. Se a escola não tem padrinho, o diretor fica de mãos atadas e não consegue manter a mesma qualidade.

Então o que pode melhorar na educação?

O que me preocupa hoje são os professores. O professor de Brasília tem uma das remunerações mais defasadas em relação ao custo de vida da capital. Precisamos chamar a categoria para um debate de alto nível e propor um plano de cargos e salários adequado. Além disso, precisamos entender o alto índice de professores afastados da sala de aula e inverter a lógica do trabalho temporário para o servidor de carreira. A profissão de educador é a mais nobre que existe e não pode ser tratada como um serviço temporário. Estou no grupo de apoio à candidatura à reeleição da Celina Leão (PP) e vamos conversar sobre isso. Precisamos dar uma educação de qualidade para que as nossas crianças não cresçam dependentes do Estado e possam escolher o seu próprio futuro.

O senhor foi crítico, também, a construção de uma escola no Setor de Motéis da Candangolândia.

É outro absurdo noticiado pela mídia. Trata-se de um problema de R$ 42 milhões que está sendo investigado pelo Ministério Público. Mais uma vez, o parlamentar pensou em algum ganho pessoal e não no coletivo. O local é totalmente inadequado; eu não gostaria que meu filho estudasse ao lado de dois motéis, onde há circulação de todo tipo de frequentadores e até uso de drogas. Foi uma atitude totalmente descabida e demonstra que a Câmara perdeu o bom senso.

Qual é a sua proposta para a geração de emprego que o senhor ainda não realizou?

Minha família chegou a Brasília em 1960; fomos pioneiros na área de prestação de serviços e geramos cerca de 5 mil empregos na cidade. A cidade não para de crescer: quando você constrói uma escola, precisa de mais vigilantes, merendeiras e equipe de serviços gerais e portaria. Comprometi-me com o Sindicato dos Corretores de Imóveis a não permitir o aumento do ITBI, mantendo a taxa em 1%. Sou contra o aumento de impostos, pois isso sufoca o cidadão que já começa o mês endividado. Quando assumi a Secretaria de Turismo, o imposto sobre o combustível de aviação (ICMS) era de 12%. Reduzimos para 4%, condicionando o benefício ao aumento do número de voos. Hoje, Brasília é o segundo maior aeroporto do país em movimento de voos, o que gerou um boom no turismo, com hotéis atingindo 80% de ocupação e mais de 2.000 quartos de hotel sendo reformados ou construídos.

E o que o senhor pode falar sobre o que já foi feito em seus mandatos?

Minha equipe e eu buscamos aperfeiçoar leis que realmente impactam a população. O teste do olhinho é feito ao nascer, é barato e previne problemas graves como glaucoma, cegueira e estrabismo por meio do diagnóstico precoce. Também aprovamos a lei do banco de células para tratamentos de medula, a lei que tornou todos os assentos de transporte público preferenciais para idosos e gestantes, e a lei que acabou com a venda casada nos cinemas, permitindo que a pessoa entre com seu próprio alimento. Temos 45 leis aprovadas que ajudam o cidadão no seu dia a dia.

Como pretende atuar se eleito para um quarto mandato?

Tive três mandatos e fui Secretário de Estado por três vezes, portanto me sinto preparado para assumir uma cadeira na Câmara Legislativa sem rabo preso com ninguém. Queremos fazer um mandato com proposições inteligentes, sem extremismos, pensando no bem de Brasília e do país. Hoje apoio a Celina Leão e queremos trabalhar com responsabilidade orçamentária para remanejar recursos e investir onde a população mais precisa, como na saúde e na educação.

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