O convidado desta edição do JBr Entrevista é o ex-governador, ex-senador e ex-ministro da Educação Cristovam Buarque (PSB). Com uma carreira pautada na melhoria do ensino, ele surgiu para a vida pública na década de 1980, quando foi reitor da Universidade de Brasília (UnB). E, atualmente, concorre a uma vaga à Câmara dos Deputados.
Nesta conversa, o “professor”, como prefere ser chamado, ele fala sobre sua gestão à frente dos projetos de melhoria da educação do país, de seu rompimento com o PT – que culminou em seu voto favorável ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff – e do seu futuro político, aos 82 anos.
O senhor prefere ser chamado de professor.
Não é só o que eu gosto mais; é que é a única coisa que eu ainda sou. Como é que sou ex? Eu não gosto desse negócio de “ex”.
Eu queria começar, então, pedindo para o senhor rapidamente fazer um resumo de quem é o Cristovam Buarque.
Como um brasiliense-pernambucano — que nasceu em Pernambuco, obviamente —, que em 1966 se formou em Engenharia, mas, por causa do regime militar, em 1970 teve que sair do Brasil. Fiquei nove anos fora e, na volta, recebi um convite para vir para a Universidade de Brasília (UnB), pensando em ficar dois anos e voltar para Pernambuco. Já são quase 47 anos que estou aqui, e obviamente é a minha cidade.
E o que o senhor pretendia fazer durante sua estadia na Capital do País?
Aqui, minha ideia era ser apenas professor e escritor — sempre escrever e nada mais do que isso. O processo, entretanto, me levou a entrar na política, o que eu já tinha feito um pouco como estudante lá atrás, em Pernambuco. Na política, terminei tendo a chance de ocupar cargos que foram importantes para a minha vida e para a minha biografia, onde tentei mudar o Brasil.
E qual o caminho que o senhor queria traçar na política?
Para mim, o caminho para fazer o Brasil um país rico e de todos — não apenas rico para poucos, mas rico para todos e sustentável —, e não como a nossa riqueza atual, que é para poucos e de pequena durabilidade (de vez em quando vem uma crise), creio que é a educação com a máxima qualidade e plena igualdade para todos. Ao nascer uma criança no Brasil, ela e seus pais devem saber que ela terá a chance de frequentar uma boa escola, com a máxima qualidade, independentemente da renda e do endereço — como eu costumo dizer, independentemente do CEP e do CPF. Se a gente fizer isso, o Brasil dá um salto.
Entre sua gestão na UnB, como governador do DF e posteriormente ministro, como o senhor avalia a educação do país?
Primeiro, quando saí do governo, fui direto para a sala de aula. Não havia aula porque era férias de janeiro, mas saí do gabinete de governador e fui para a minha salinha de professor no Departamento de Economia da UnB. Fiquei lá por quatro anos, até o momento em que terminei meu mandato de legislador e o presidente Lula me chamou para ser seu ministro. Antes mesmo de ele me convidar para o ministério, recomendei ao presidente Lula que o Ministério da Educação deveria ser dividido: o MEC cuidaria apenas da educação de base e dessa realidade terrível do Brasil, que eram os 10 milhões de adultos que não sabem ler nem o “Ordem e Progresso” da bandeira; já as universidades iriam para o Ministério da Ciência e Tecnologia, ou se criaria um ministério próprio para elas. O presidente pensou nisso antes da posse, lembro bem, mas as pressões fizeram com que o MEC continuasse sendo um só. Assim, tive que cuidar da educação de base — que considero fundamental no Brasil, com máxima qualidade e plena igualdade — e também das universidades. Fiquei 12 meses e voltei para o Senado.
O senhor avalia que houve melhora na educação?
Claro que a educação melhorou no Brasil, porque tudo no Brasil melhorou. No entanto, embora a educação tenha melhorado, ficamos cada vez mais para trás em relação aos grandes problemas educacionais. Três brechas aumentaram. Por exemplo, a brecha entre ricos e pobres. Claro que a educação da população pobre melhorou; há 40 anos, 20% das crianças nem sequer eram matriculadas. Hoje, são 2%, ou seja, praticamente todo mundo tem matrícula. Porém, apenas 60% concluem o ensino fundamental e metade chega ao ensino médio, enquanto os mais ricos melhoraram muito mais. A relação com outros países: o Brasil melhorou, mas os outros países melhoraram muito mais. E a brecha entre o que ensinamos e o que precisamos saber: Há 30 anos, era comum ter ótimos cozinheiros em restaurantes finos que não sabiam ler nem escrever; hoje, eles precisam saber francês. A quantidade de conhecimentos necessários aumentou. Embora haja mais gente na escola e por mais tempo, não estamos ensinando o essencial. As crianças saem do ensino médio sem saber usar ferramentas digitais adequadamente, pois não compreendem como funcionam.
O acesso à educação melhorou?
Aumentamos o número de matrículas e melhoramos a frequência graças ao Bolsa Escola, criado no meu governo no Distrito Federal. A ideia foi concebida no meu tempo de professor; escrevi um livro sugerindo a Bolsa Escola (com outro nome, é verdade), mas fui eu quem plantou essa semente. Contudo, matrícula não é frequência, frequência não é assistência (há menino que frequenta, mas não assiste às aulas), assistência não é permanência (há quem assiste, mas não termina o curso) e permanência não é aprendizado. Há jovens que ficam até o fim do ensino médio esperando receber uma bolsa ao final — como este programa do atual governo, o Pé-de-Meia. No meu governo, chamava-se Poupança Escola. Cometi o erro de separá-los na época; a Bolsa Escola já deveria conter a Poupança Escola. Os alunos recebiam o benefício se passassem de ano e só podiam retirar o valor acumulado ao concluir o ensino médio. Quando fui para o Ministério da Educação, apresentei esse projeto, mas ele ficou engavetado no gabinete por anos. Depois, no Senado, apresentei o projeto da Poupança Escola Nacional, mas, como implicava gastos, dependia de autorização do governo federal e nunca consegui aprovação.
E o que ocorreu depois?
Anos depois, levei o projeto a alguns jovens deputados. A Tábata Amaral (PSB) teve a lucidez de apresentar a proposta e convencer o governo e o ministro Fernando Haddad, transformando-a no Pé-de-Meia. Portanto, hoje temos quase todos os alunos matriculados e com melhor frequência, mas ainda sem a devida assistência, permanência e aprendizado real. Quantos alunos terminam o ensino médio falando bem inglês? A parcela rica resolve isso em colégios bilíngues e intercâmbios no exterior. A população pobre, mesmo em escolas com aulas de inglês, não consegue aprender fluentemente. Estamos com maior escolaridade, mas com menos educação proporcionalmente às necessidades atuais.
Como analisa a situação política do país, hoje, com o cenário de polarização?
A volta aos extremos ocorre porque a esquerda — da qual ainda gosto, embora muitos hoje rejeitem o termo — deixou de lado sua essência, que é ter empatia e simpatia pelos mais pobres e priorizar a distribuição. Entretanto, acredito que não há distribuição de renda real se ela não for feita pela escola. A distribuição da esquerda não se faz pelo banco financeiro; faz-se pela banca da escola. Quando o rico e o pobre frequentam a mesma escola — como ocorre em vários países —, a distribuição passa a ser pelo talento.
Como se dá essa distribuição igualitária?
No futebol, por exemplo, os pobres chegam à seleção brasileira e enriquecem porque “a bola é redonda para todos”. Precisamos “arredondar” as nossas escolas. Não podemos ter uma escola com piso de terra e outra com ar-condicionado, ou uma com professores motivados e preparados e outra com docentes desvalorizados. O socialismo cometeu o erro de achar que todos deveriam ter a mesma renda. O essencial — alimentação, moradia, transporte — deve ser garantido a todos. A partir daí, as desigualdades remanescentes devem ser fruto do desenvolvimento dos talentos individuais. Mas é preciso dar a todos a chance de desenvolver esse talento; o maior violonista ou jogador do mundo não se desenvolverá se nunca tiver acesso a um violão ou a uma bola. A escola é o violão e a bola do conhecimento.
E como chegar nesse ponto?
Defendo há muito tempo que a única forma de garantir escolas de qualidade igual para todos é federalizar a educação de base. Ela não pode ser responsabilidade exclusiva dos pais ou dos municípios, pois isso perpetua a desigualdade entre prefeituras ricas e pobres. A educação deve ser nacional. Essa é a minha razão de ser na política. Quando todo jovem terminar o ensino médio preparado para buscar sua felicidade e construir o país, o Brasil será outro. Se a Princesa Isabel, ao assinar a Lei Áurea, tivesse incluído um segundo artigo criando um sistema nacional de educação pública onde os filhos dos ex-escravizados estudassem ao lado dos filhos dos seus ex-senhores, a nossa história teria sido completamente diferente.
Onde os governos de esquerda erram ou poderiam ter acertado mais na área da educação?
Quem é de esquerda precisa ser crítico, inclusive praticando a autocrítica. Se Marx estivesse vivo hoje, certamente escreveria uma revisão de suas obras, pois o mundo mudou. A esquerda não percebeu as transformações do mundo e cometeu o erro de olhar a educação puramente pela ótica do sindicato dos professores. O sindicato é fundamental para defender a categoria, mas a educação é maior do que o corporativismo docente. Na Finlândia, por exemplo, o sindicato é da educação como um todo — engloba professores, pais, alunos e a comunidade. Eles zelam pelo salário, mas também pela dedicação e formação do professor. A esquerda tratou o chão da escola como se fosse o chão da fábrica, e o professorado como parte do proletariado industrial. O professor exerce uma função nobre e deve ser tratado como tal. Além disso, a esquerda continua tratando a educação apenas como um serviço social — ao lado de água, luz e transporte —, quando na verdade a educação é infraestrutura estratégica, assim como portos, estradas e energia. Hoje, a principal luta não é apenas entre quem tem capital financeiro e quem não tem, mas entre quem tem acesso ao conhecimento e quem não tem. O capital do século XXI é o conhecimento. A esquerda precisa se adaptar a essa realidade e entender a globalização.
O senhor votaria de novo a favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff?
Deixo essa avaliação para os historiadores. Prefiro não entrar em detalhes. Pessoalmente, perdi demais com aquele voto: perdi eleitores e minhas netas chegaram a sofrer hostilidades na época. Se olhasse apenas pelo meu interesse pessoal e político, não teria dado aquele voto. Agora, sob o ponto de vista do contexto da época e do interesse nacional, deixo para a História analisar. Vale notar que fiquei nove anos fora do Brasil por causa da ditadura militar e depois houve a anistia; no entanto, já se passaram anos do impeachment e parte da esquerda ainda não me “anistiou”, embora tenha anistiado diversas outras figuras políticas que hoje estão no governo.
O senhor, veterano na política, é candidato a deputado federal. Como avalia essa eleição e qual plataforma pretende levar ao Congresso?
Eu poderia estar em casa aproveitando a aposentadoria como professor da UnB e escrevendo meus livros — já escrevi 12 desde que saí do Senado. Porém, não me senti no direito de ficar omisso diante da radicalização política e da falta de propostas profundas para a educação. Como candidato pelo PSB, quero levar para a Câmara dos Deputados o debate de que a educação é o principal vetor de progresso do país e precisa ter altíssima qualidade e igualdade para todos. Além disso, pretendo representar com altivez o Distrito Federal, mantendo a postura e o legado que sempre marcaram os meus mandatos. Estou de volta para servir ao Distrito Federal e ao Brasil. O eleitor que procura um deputado corporativista ou isolacionista não encontrará em mim esse perfil. Quero defender o DF integrando-o aos grandes interesses do nosso país.
