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Criminalidade é a menor da série histórica, afirma Sandro Avelar

Secretário de Segurança Pública do Distrito Federal fez um balanço de sua gestão, iniciada após o 8 de janeiro e que se encerrou com saldo positivo

Suzano Almeida

30/03/2026 5h00

entrevista quadrada

Responsável pelo menor índice de crimes no Distrito Federal, desde o início da série histórica, o convidado do JBr Entrevista desta semana é o secretário Sandro Avelar. Nome escolhido, após a tentativa de golpe, ele garante que o episódio do 8 de janeiro de 2023 não se repetirá e que o combate ao femincídio é uma prioridade de todo o Governo do Distrito Federal. Em seus últimos dias à frente da pasta, ele faz um balanço da sua segunda passagem pelo cargo.

O senhor serviu em governos de diferentes espectros políticos. Como avalia esse trânsito entre a direita e a esquerda?

Tive essa facilidade de lidar com ambos os lados. No governo federal, também trabalhei com diferentes gestões; fui Diretor do Sistema Penitenciário Federal, que é vinculado ao Ministério da Justiça. Minha característica sempre foi a de um perfil técnico e gestor, com uma natureza menos político-partidária e mais voltada à institucionalidade das funções que ocupei. Acredito que isso rendeu bons frutos e me permite ter uma boa relação tanto com a direita quanto com a esquerda e o centro.

Falando sobre a situação atual, percebemos que a sensação de insegurança ainda prevalece, mas o Distrito Federal tem reduzido seus índices. Como estão os números?

O resultado tem aparecido graças a um trabalho contínuo. Acredito em políticas de longo prazo; não existem milagres ou soluções da noite para o dia em segurança pública. Em 2012, lançamos uma política baseada na integração entre as forças e na aproximação entre a Polícia Militar e a Polícia Civil. Dividimos o DF em Áreas Integradas de Segurança Pública (AISPs), modelo inspirado no “Pacto pela Vida” de Pernambuco. Independentemente da orientação política dos governadores que me sucederam, a “coluna vertebral” desse plano foi mantida. Hoje, trabalhamos com o princípio da integralidade, envolvendo outras áreas do Estado, a sociedade civil e a imprensa, utilizando muita tecnologia e estatística.

Como essa tecnologia auxilia no combate ao crime no dia a dia?

Controlamos as chamadas “manchas criminais”. Sabemos onde, em que dia e em que hora o crime acontece. Isso nos permite fazer segurança pública baseada em evidências. Utilizamos câmeras que monitoram nas 35 regiões administrativas do DF. Um exemplo prático foi a atuação junto às distribuidoras de bebidas. Mapeamos que muitos crimes ocorriam na madrugada nessas proximidades. Após ouvir a comunidade e os Conselhos Comunitários de Segurança (Conseg), baixamos uma portaria determinando o fechamento desses estabelecimentos entre meia-noite e seis da manhã. O resultado foi uma redução de 71% na criminalidade geral nessas áreas. Em fevereiro de 2026, tivemos apenas cinco homicídios no DF — o menor número da série histórica medida desde 1977. Para comparar, em fevereiro de 2012, foram 78 homicídios.

O senhor mencionou os Conseg. Qual a importância da participação comunitária?

Dar voz à comunidade é fundamental. Fazemos reuniões mensais e ouvimos onde “o calo aperta”. Às vezes, a solução não é estritamente policial, mas sim reforço na iluminação, poda de árvores ou ajustes no trânsito para evitar atropelamentos. O compromisso é dar uma devolutiva em até 30 dias.

O DF lançou campanhas contra o roubo de celulares. Como está o monitoramento desses aparelhos?

Alertamos a população para que não compre aparelhos de origem duvidosa. Através do IMEI, conseguimos identificar quando o telefone é acionado e onde ele está funcionando. A Polícia Civil tem feito um trabalho excelente de recuperação; milhares de telefones já foram devolvidos aos donos. Quem compra um celular roubado, na melhor das hipóteses, perderá o aparelho, mas muitos acabam respondendo pelo crime de receptação.

Outro tema crítico é o feminicídio. Apesar da redução, os números ainda preocupam. O que falta para erradicarmos esse mal?

O feminicídio é um problema cultural profundo que não se resolve apenas com polícia. Quase 100% dos casos ocorrem no ambiente doméstico, onde não podemos ter um policial dentro de cada residência. No DF, não há impunidade: todos os autores de feminicídio terminam presos. Mas precisamos de prevenção. Temos o programa “Aliança Protetiva”, que treina lideranças religiosas e comunitárias para não incentivarem a mulher a permanecer com o agressor. Temos também o “Viva Flor”, um botão do pânico (dispositivo físico ou aplicativo) que já salvou centenas de vidas. É chocante, mas muitas vezes descobrimos que vizinhos ou familiares sabiam das agressões e não denunciaram por causa da velha mentalidade de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Isso precisa mudar.

Após o 8 de janeiro, o que mudou nos protocolos para manifestações na Esplanada dos Ministérios?

Em março de 2023, baixamos uma portaria exigindo que qualquer manifestação na área da Esplanada e da Praça dos Três Poderes seja previamente informada e aprovada pela Secretaria de Segurança Pública. Recentemente, estendemos isso aos Setores Hoteleiros Norte e Sul. O objetivo não é impedir o direito democrático, mas organizar o efetivo policial e garantir a segurança das instituições e dos próprios manifestantes. Brasília é o coração da República e recebe reflexos de tudo o que acontece no país. Posso garantir com absoluta certeza: aquelas cenas do 8 de janeiro não se repetirão. Hoje existe uma divisão clara de responsabilidades entre os órgãos locais e as guardas institucionais de cada Poder.

Sobre a valorização das forças de segurança, como foi o trabalho de bastidor para garantir os reajustes salariais?

Fui representante classista e sindicalista com muito orgulho. Sempre defendi que as entidades de classe e os gestores das instituições devem caminhar juntos. Trabalhei dentro do governo para que houvesse a recomposição salarial e a isonomia histórica entre a Polícia Civil do DF e a Polícia Federal, estendendo essa valorização à Polícia Militar e ao Corpo de Bombeiros. O próximo passo é dar a mesma atenção ao Detran e à Polícia Penal. Valorizar quem faz a segurança é um ganho direto para a sociedade.

Para encerrar, como foi o balanço do último carnaval e a polêmica retirada de armas brancas em abordagens de rua?

Tivemos um carnaval muito seguro. Resolvemos a questão das abordagens com uma portaria que autorizou a PM a realizar revistas em casos de aparente porte de arma branca ou de fogo. Havia um receio por parte dos policiais de que a abordagem fosse interpretada como preconceito, o que acabava inibindo a fiscalização. Com a nova diretriz, centenas de facas e tesouras foram retiradas das ruas. Isso não é coincidência, é trabalho baseado em evidências. Inclusive, os dados mostravam um aumento de mortes entre a população em situação de rua, e essa medida ajudou a proteger essa própria população vulnerável.

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