Na segunda quinzena de novembro, fui surpreendido pela informação prestada por um lobista com forte acesso na política. Segundo sua profecia à época, o governador Ronaldo Caiado, pré-candidato a presidência da republica, viria a deixar seu partido, o União Brasil, para disputar a eleição.
Estranhei aquela história, ainda que tivesse algum sentido. Sobretudo ao recordar que, em abril do ano passado, a direção nacional do União Brasil simplesmente ignorou o evento de lançamento da pré-candidatura presidencial do governador Goiano, numa grande festa na cidade de Salvador. Mesmo assim, aquela previsão não combinava com a altivez de Caiado, que filiou meio-mundo de Goiás na legenda que resultou do ajuntamento entre DEM e PSL.
No fim das contas, tenho de entregar a mão à palmatória, uma vez que minha fonte tinha mesmo razão. Caiado de fato deixou o União Brasil, filiou-se ao PSD e aposta que disputará a eleição presidencial pela nova legenda. Só que não… isso não tem nenhuma garantia.
Consultei a mesma fonte pra essa edição da coluna, mas até aquele influente lobista só enxerga areia movediça nesse novo contexto com Caiado no PSD, Tarcísio de Freitas extirpado do plano nacional e Flavio Bolsonaro disputando a presidência.
Não tem nada decidido dentro do novo partido de Caiado. Até porque, inclusive, o PSD tem dois outros governadores, do Paraná e Rio Grande do Sul, que já se apresentaram como pré-candidatos presidenciais. Ratinho e Eduardo Leite, aliás, aparecem com mais força que Caiado em pesquisas de primeiro turno, divulgadas de dezembro pra cá.
Os três governadores do PSD, aliás, são reconhecidos como alternativas da chamada “terceira via” ou direita moderada. Mas pontuando muito abaixo dos líderes da polarização. E nessa conta, inclusive, Caiado vai para o fim da fila (vale ver a pesquisa do real time Big data que testou o comparativo entre os três nomes do PSD pra presidente).
Contudo, mesmo que o governador goiano apresentasse o melhor desempenho entre os quadros do seu novo partido nas pesquisas, a natureza do PSD, inviabilizaria qualquer sinalização do pragmático Gilberto Kassab. Carregando hoje os genes do Centrão, a sigla que já foi de JK deixa Caiado e os outros pré-candidatos alimentando expectativas incertas. Algo que pode ser traduzido na espera inglória vivida por Ciro Gomes em 2018.
Naquele episódio, tudo parecia encaminhado para uma aliança do centrão em torno da terceira candidatura presidencial do político cearense. Com o centrão, Ciro tinha tudo para chegar no segundo turno, visto que Lula estava preso, Haddad patinava em pesquisas que indicavam campo aberto. O que, de fato, se confirmou, na medida e em que Ciro somou 12,47% dos votos apurados, seu melhor desempenho, mesmo isolado e sem o centrão.
Na tarde de 13 de julho, uma sexta-feira, Ciro deu um show retórico ao apresentar suas propostas econômicas o Brasil, impressionando o bloco composto por DEM, PP, PR (hoje PL), PRB e Solidariedade. Embora o pedetista tenha saído da reunião otimista, o cenário mudou drasticamente nos dias seguintes. A reviravolta veio 13 dias depois com o anúncio do apoio do centrão a pré-candidatura de Geraldo Alckmin, somando forças ao PSD de Kassab que ja tinha se antecipado.
Nos bastidores, para a suposta repulsa de Ciro Gomes, essa mudança repentina do centrão em 2018 foi atribuída aos argumentos apresentados pelo chefe do então PR, Valdemar Costa Neto, que se juntou ao pragmático centrão depois que não prosperaram as negociações de seu partido para uma aliança com Bolsonaro, já em 2018.
Mas nem Alckmin, nem o centrão, contavam com a facada de Juiz de Fora em 6 de setembro de 2018. Até porque, na véspera da facada, a disputa não tinha favorito. Com 13 candidatos dividindo os votos em disputa, 28% de eleitores confirmavam a indecisão (indecisos, brancos e nulos), na pesquisa de 5 de setembro. A mesma consulta indicava que o campo progressista ainda somava mais que o dobro das intenções de voto que Bolsonaro havia conquistado, preso a uma âncora que somava 44% da rejeição. Um número que foi derrubado repentinamente, sem que Bolsonaro pronunciasse uma única palavra pra isso.